Literacia e Fluência em Inteligência Artificial na Saúde: principais desafios

  • Ana Maria Madureira
  • 4 Março 2026

A IA transforma a saúde, mas o futuro dos cuidados depende menos dos algoritmos e mais das pessoas capazes de os interpretar, questionar e humanizar.

A Inteligência Artificial (IA) e o futuro do ensino nas diferentes áreas científicas têm sido o mote de muitas conversas e reflexões na comunidade académica e científica. Na saúde, a transformação digital avança a um ritmo acelerado, impulsionada por investimentos públicos, fundos europeus e pela promessa de ganhos significativos em eficiência, qualidade e sustentabilidade dos sistemas de saúde.

Hoje, a área científica da IA, incluindo os mais recentes desenvolvimentos da IA generativa e dos modelos de linguagem (LLMs), aliados à telemedicina, aos registos clínicos eletrónicos e aos sistemas de apoio à decisão, faz já parte do quotidiano hospitalar. Estas tecnologias potencializam e ampliam a capacidade de resposta dos profissionais de saúde, aceleram diagnósticos e permitem cuidados mais personalizados. No entanto, grande parte das soluções de IA na Europa depende de plataformas e modelos desenvolvidos fora do espaço europeu. Esta dependência levanta questões de soberania tecnológica, proteção de dados e alinhamento ético, especialmente relevantes na saúde, onde cada decisão impacta diretamente a vida dos pacientes. A Autonomia Estratégica Aberta surge como um conceito em evolução para dinamizar uma cultura europeia de cooperação internacional, garantindo os seus próprios padrões, valores e regras.

Neste contexto, a literacia em IA surge como condição essencial para uma abordagem verdadeiramente human-centered. Significa compreender como funcionam os algoritmos, interpretar resultados e identificar riscos e enviesamentos. Deixou de ser uma competência opcional, passando a ser considerada como um requisito básico para garantir a segurança do paciente, a qualidade dos cuidados de saúde e a confiança nos sistemas digitais. Mas a literacia em IA por si só não é suficiente. É necessário que os profissionais desenvolvam a Fluência em IA, sendo capazes de integrar as ferramentas de IA de forma crítica na prática clínica, questionar recomendações automatizadas e participar ativamente na implementação e melhoria das tecnologias. Num setor onde cada decisão pode afetar vidas, esta competência é determinante para garantir cuidados de saúde seguros, equitativos e centrados no paciente.

A aprendizagem ao longo da vida torna-se, assim, estratégica. O conhecimento científico evolui rapidamente, mas a tecnologia evolui ainda mais depressa. A European Skills Agenda reconhece que a atualização contínua dos profissionais é essencial, sobretudo em setores críticos como a saúde. Investir apenas em tecnologia, sem capacitar as pessoas que a utilizam, compromete a qualidade dos cuidados e limita a autonomia europeia. O AI Act reflete esta perspetiva human-centered, ao exigir supervisão humana, gestão de risco e responsabilização clara. Mas a regulamentação só cumpre o seu papel se os profissionais tiverem competências para interpretar, contextualizar e, quando necessário, contrariar recomendações algorítmicas em função das necessidades do paciente.

A transformação digital da saúde não é apenas tecnológica. É, antes, cultural, humana e estratégica. Reforçar as competências digitais, o pensamento crítico, a ética, a comunicação e a resiliência emocional é tão importante quanto desenvolver algoritmos ou infraestruturas. Colocar o profissional e o paciente no centro garante que a tecnologia amplifica o cuidado, em vez de o substituir.

O futuro da saúde será inevitavelmente digital e cada vez mais suportado por IA. Os desafios não são apenas tecnológicos, mas também humanos, organizacionais e geopolíticos. Garantir competências adequadas, promover confiança, assegurar ética e reforçar a autonomia estratégica aberta da Europa será fundamental. O caminho passa por investir de forma consistente na aprendizagem ao longo da vida, integrar literacia e fluência em IA na formação dos profissionais de saúde e fomentar uma colaboração estreita entre decisores, instituições de saúde, academia e indústria.

Só assim a IA se tornará um instrumento de valor público, capaz de fortalecer sistemas de saúde resilientes, sustentáveis e preparados para os desafios emergentes.

  • Ana Maria Madureira
  • Instituto Superior de Engenharia do Porto | INESC INOV

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