Mais uma vez, o Facebook no lado errado da história

Uma guerra entre redes sociais acaba por expor como Zuckerberg deseja a reeleição de Trump e a continuação da desinformação.

Depois de anos a sustentar o crescimento de Donald Trump e a oferecer-lhe uma plataforma para espalhar o ódio, o Twitter fartou-se e começou a identificar tweets do presidente americano como falsas. O impacto desta decisão vai estender-se bem para lá das fronteiras americanas.

Há uma razão para o Twitter se ter limitado a sinalizar a frase de Trump e não a apagá-la. É suposto que, em sociedades democráticas, seja possível verificar e analisar o comportamento dos eleitos, de forma a que o escrutínio democrático se exerça, pelo que faz sentido manter os tweets e anexar uma etiqueta que demonstra que são falsos. Entretanto, a empresa já sinalizou contas de outros líderes políticos apanhados a mentir e está a aumentar a capacidade de resposta à desinformação que circula naquela rede. Em resposta, Trump assinou uma ordem executiva que tem pouco valor legal e ainda menos relevância prática. O que Trump quis garantir foi que as coisas não mudam no Facebook, uma plataforma essencial para bombardear os eleitores com desinformação. E foi bem sucedido.

Mark Zuckerberg foi à Fox News dizer que não acredita no seu dever para com a esfera pública e que prefere manter-se neutro, discurso depois repetido noutras plataformas. Algumas coisas precisam de ser ditas: as políticas do Facebook não são substancialmente diferentes de outras redes sociais; escolher não exercer uma política é em si mesmo uma opção; esta “neutralidade” beneficia financeiramente o Facebook, que continua a poder recolher os muitos milhões de publicidade construída com base em mentiras.

Os algoritmos do Facebook promovem ativamente a divisão e semeiam a desinformação. Foram desenhados assim, porque é assim que se maximiza o número de utilizadores. A triste verdade é que o extremismo e as emoções básicas são aditivas. Porque é que isto se relaciona com a proteção dos republicanos? Porque, como vários estudos já demonstraram, os republicanos são mais suscetíveis a teorias de conspiração e precisam daqueles mesmos algoritmos para validar a sua existência em mais uma mentira… ou dez. É precisamente isso que faz dele um cúmplice em genocídios, em manobras anti-democráticas e em atos repetidos de censura. O facto de que vai disfarçando todos estes atos criminosos com uma eficiente máquina de relações públicas acompanhada de um olhar gélido não melhora as coisas, porque o comportamento repetido torna-se evidente ao fim de algum tempo.

Ao mesmo tempo, Zuckerberg criou um conselho consultivo de notáveis (entre os quais figura uma prémio Nobel e uma ex-primeira-ministra da Dinamarca) para ratificar todas as decisões relacionadas com os conteúdos que são retirados da plataforma. Duas notas importantes: o Facebook retira muito pouca coisa da linha, e o que mantém é infinitamente mais relevante; este conselho só entra convenientemente em funções depois das eleições, de forma a não afetar a reeleição de Trump e os muito milhões gastos no Facebook até lá (44 milhões em 2016, pelo menos o dobro este ano). A América está a arder. E Mark Zuckerberg continua a colocar gasolina nas chamas, convertendo tudo em dólares para o seu bolso. É um refinado incendiário sem moral que não merece o poder que tem.

Ler mais: Este livro escrito por um dos editores da Wired explica bem como a máquina do Facebook foi construída para gerar dólares em troca de emoções. Facebook: The Inside Story é o relato de como se repetiram os momentos em que Zuckerberg podia ter optado por proteger os interesses dos seres humanos, mas como optou pelo caminho mais curto para a validação financeira do seu projeto.

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