Mariana como ministra das Finanças. Primeiro estranha-se…
Francisco Louçã lançou o nome de Mariana Mortágua para o cargo de ministra das Finanças. Os socialistas estarão dispostos a dar a chave do cofre do Estado à estrela das comissões de inquérito ao BES?
Mariana Mortágua para ministra das Finanças? Em janeiro de 2017, numa entrevista ao jornal Expresso, Francisco Louçã descrevia Mariana Mortágua como uma “personalidade brilhante” e uma “economista muito capaz e com muita vontade”, que um dia há de ser ministra das Finanças.
Este fim de semana, na XII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, em Matosinhos, Louçã voltou a insistir na ideia: “Quero dizer-vos uma certeza que tenho: quando a Mariana for ministra das Finanças, o Estado não será um porquinho mealheiro para pagar aventuras como do Novo Banco, dívidas de 500 milhões de euros não serão tratadas como traquinices garantidas por um palheiro ou uma mota de água”.
A ideia de ter Mariana Mortágua, uma deputada da esquerda radical, como ministra no Terreiro do Paço é estranha. Mas, como dizia o poeta Fernando Pessoa numa campanha publicitária que fez para a Coca-Cola, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.
Vamos por partes. Com o PSD de Rui Rio a afastar-se do centro e a admitir alianças com os racistas e xenófobos do Chega, é provável que o PS continue a governar o país durante muitos e longos anos, num fenómeno que o social-democrata Miguel Poiares Maduro apelidou de “mexicanização” do regime político em Portugal.
A curto prazo não se vislumbra que o PS de António Costa queira fazer uma geringonça em que o Bloco ou o PCP possam nomear ministros para um Governo de coligação. Numa entrevista à SIC em 2019, o primeiro-ministro afirmava, a este propósito, que “aquilo em que conseguimos convergir tem sido suficiente para uma muito boa amizade, mas insuficiente para podermos ter um casamento”.
Só que as circunstâncias podem alterar-se, por amizade, por amor, por traição ou por conveniência. Como dizia Fernando Pessoa, “amar é cansar-se de estar só”. Pedro Nuno Santos, o mais provável sucessor de António Costa na liderança do PS, já disse em entrevista ao Expresso que não o chocava ter Catarina Martins no Governo.
A coordenadora do Bloco até já escolheu as pastas. Aos microfones da TSF, em 2017, Catarina Martins admitiu que “internamente, no Bloco, sempre dissemos que as pastas que gostaríamos de ocupar seriam a das Finanças e a do Trabalho”.
Dificilmente, num Governo de coligação, uma pasta com a importância das Finanças cairia para o parceiro júnior da coligação. Em Espanha, Pedro Sánchez deu à esquerda radical do Unidas Podemos uma das quatro vice-presidências e cinco cargos ministeriais: Trabalho, Igualdade, Direitos Sociais, Universidades e Consumo.
Aqui deste lado da fronteira, também dificilmente numa coligação de Governo os socialistas dariam a chave do cofre à esquerda radical. Para que isso acontecesse, socialistas e bloquistas teriam de definir de forma precisa e milimétrica um programa de Governo em que a esquerda radical se comprometesse com soluções menos radicais.
Nesse cenário, Mariana Mortágua seria o nome do Bloco para ministra das Finanças. Primeiro o PS estranhava, e depois entranhava. É como a Coca-Cola. Mas nesta hipotética coligação política Cuba-libre teríamos de ter mais Coca-Cola e menos rum para não assustar os nossos credores.
Assegurando isto, não faltaria competência a Mortágua para ser uma boa ministra das Finanças. Na primeira comissão de inquérito ao BES, a Bloomberg, — sim, a Bloomberg e não a Esquerda.net, — publicava um artigo em que escrevia em título que o “Inquérito ao Espírito Santo transformou Mariana Mortágua numa estrela portuguesa”.
Agora, no inquérito ao Novo Banco, consolidou-se esse estatuto de estrela. Na última audição na Comissão de Inquérito ao Novo Banco, todos os portugueses terão sentido algum orgulho ao ver a forma como Mariana Mortágua enfrentou Nuno Vasconcellos, que deu um calote de 600 milhões ao Novo Banco e foi para o Parlamento, do alto da sua arrogância, e escondido por detrás da nacionalidade brasileira, contar mentiras e tentar reescrever a história.
Nesse dia, só faltou a Mariana um barrete frígio para que toda a República se sentisse representada por ela no Parlamento. Se um dia for para ministra das Finanças, ao menos teremos a garantia que, tal como defendeu Louça, “o Estado não será um porquinho mealheiro para pagar aventuras como as do Novo Banco”.
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