Market timing: uma ilusão e armadilha para o investidor
Acertar no momento exato para comprar ou vender seduz muitos investidores, mas o sucesso do market timing não passa de uma ilusão que dificilmente se traduz em resultados consistentes.
A regra mais antiga de investimento é aquela que, em teoria, devia ser a mais simples: comprar em baixa e vender em alta. A sua lógica é imediata e intuitiva, quase sedutora na sua simplicidade, o que explica a facilidade com que se afirmou como um princípio quase universal, repetido em análises de mercado, fóruns de investidores e em muitas páginas de jornais económicos. Ainda assim, essa simplicidade aparente esconde uma complexidade que muitos continuam a subestimar.
A esta tentativa de identificar os melhores momentos para comprar e vender deu-se o nome de market timing. Trata-se de uma abordagem orientada para a obtenção de ganhos de curto prazo, através da venda de ativos que se acredita estarem prestes a desvalorizar e da compra daqueles que se espera que valorizem.
A atratividade desta estratégia reside na convicção de que é possível antecipar os movimentos do mercado através da análise, experiência ou intuição. Na teoria parece simples, mas, na prática, não é.
Apesar da abundância de estudos que demonstram que o tempo é um fator mais determinante que o timing, controlar os impulsos associados ao curto prazo continua a ser um desafio recorrente.
À primeira vista, parece que apenas é necessário identificar os pontos altos e baixos do mercado e agir em conformidade. Contudo, esta leitura linear ignora a complexidade intrínseca dos mercados financeiros, onde os preços refletem, a cada momento, as expectativas, decisões e emoções de milhões de investidores que interagem em simultâneo, com horizontes temporais, motivações e objetivos distintos. O problema não está no princípio em si, mas na crença de que pode ser aplicado de uma forma consistente.
Apesar destas limitações estarem amplamente documentadas, há ainda um número significativo de investidores que diariamente tenta a sua sorte. A explicação encontra-se, em grande medida, na ilusão do controlo.
Estes investidores acreditam que, com o devido conhecimento e atenção ao mercado, é possível tomar decisões que os colocam um passo à frente de todos os outros acertando onde muitos outros falharam. Afinal, quem não gostaria de multiplicar os seus ganhos apenas por saber “o momento certo”.
Embora seja universalmente aceite que o investimento no mercado acionista deve ser encarado como um compromisso de longo prazo e apesar da abundância de estudos que demonstram que o tempo é um fator mais determinante que o timing, controlar os impulsos associados ao curto prazo continua a ser um desafio recorrente. Há uma diferença clara entre compreender o que deve ser feito e conseguir agir de forma consistente de acordo com esse conhecimento.
Vários estudos demonstram que mais de 90% dos retornos no mercado acionista ocorrem em menos de 2% dos dias de negociação.
John Templeton, um dos investidores mais influentes do século XX, sintetizou esta ideia ao afirmar que “a melhor altura para investir é quando se tem dinheiro”. Esta frase sublinha que o momento de investir não deve ser determinado por previsões sobre o comportamento futuro dos mercados, mas pela capacidade financeira de participar neles.
Warren Buffett reforça esta perspetiva ao afirmar repetidamente que “o verdadeiro risco é não estar investido”. O investidor que espera indefinidamente pelo momento perfeito para investir, corre o risco de nunca o fazer e, com isso, perder os dias de maior valorização do mercado.
Vários estudos demonstram que mais de 90% dos retornos no mercado acionista ocorrem em menos de 2% dos dias de negociação. Por isso, perder esses poucos dias de fortes valorizações pode comprometer de forma significativa os resultados de uma carteira ao longo do tempo.
Das ideias de Templeton e Buffett facilmente se conclui que o investidor não deve basear as suas decisões em tentativas de prever o comportamento futuro dos mercados, mas sim procurar manter-se investido durante o maior período de tempo possível.
Está amplamente demonstrado que o tempo, ao contrário do timing, é o maior aliado do investidor. É ele que permite que pequenos investimentos se transformem em resultados relevantes e que muitos erros pontuais se tornem irrelevantes no contexto global.
A experiência demonstra também que, em períodos de elevada volatilidade, a decisão mais sensata é, muitas vezes, não fazer nada. Esta postura, frequentemente confundida com inação ou falta de diligência, revela-se essencial para evitar decisões precipitadas. Não é por acaso que muitos dos gestores mais bem-sucedidos são descritos como “heroicamente inativos”. Não por falta de competência, mas por reconhecerem o valor da paciência.
Focar-se no curto prazo, reagindo a uma avalanche diária de informação e tentar antecipar cada movimento de mercado, transforma-se frequentemente numa luta inglória.
Howard Marks sintetizou esta abordagem ao afirmar que a performance do seu fundo não resulta do que compra ou vende, mas sim, do que mantém em carteira.
A capacidade de deter ativos ao longo do tempo é, nesse sentido, mais determinante do que a frequência das transações. Também neste caso, fica clara a mensagem de que não é necessário estar constantemente a negociar. Pelo contrário, uma atividade excessiva tende a reduzir os retornos, seja pelo aumento dos custos de transação, mas também pela carga fiscal ou pelos inevitáveis erros de timing.
Focar-se no curto prazo, reagindo a uma avalanche diária de informação e tentar antecipar cada movimento de mercado, transforma-se frequentemente numa luta inglória. Tal acontece porque o sucesso deste tipo de abordagem depende de juízos de valor sobre inúmeros fatores que estão fora do controlo do investidor, aumentando inevitavelmente a margem de erro. Não é por acaso que os investidores mais bem-sucedidos evitam este caminho.
A alternativa passa pela adoção de uma estratégia simples, mas eficaz baseada no investimento sistemático e de longo prazo. Reduzir a influência do ruído dos mercados, manter o foco no objetivo final e respeitar uma estratégia bem definida ao longo do tempo, são princípios que se revelam decisivos.
Em todo o caso, o fascínio pelo market timing é compreensível. A possibilidade de acertar sistematicamente no momento certo para comprar e vender é intelectualmente sedutora, mas corresponde a uma ilusão perigosa, frequentemente responsável por perdas de capital, tempo e tranquilidade.
Os investidores mais experientes reconhecem esta limitação e evitam tentar adivinhar o sentido do mercado. Eles preferem manter-se investidos, confiar na força do tempo e resistir aos impulsos de curto prazo. Eles sabem que, em última instância, o tempo no mercado é mais determinante do que o timing de mercado e que o sucesso no investimento depende menos de inteligência ou capacidade de previsão e mais de disciplina, consistência e paciência.
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