Martinez, Proença e Ronaldo. Uma lição de mal gerir

O fraco mundial de Portugal era previsível e começou por falhas onde tudo começa: na visão, na estratégia e na gestão.

A participação portuguesa no Mundial de futebol terminou, e de uma forma completamente natural e previsível. A nossa equipa foi de susto em susto, entre o drama das críticas e a bazófia de um 5-0 ao Uzbequistão, até chegar ao seu natural destino: encontrar uma equipa de qualidade e vir para casa.

Muitos problemas contribuíram para este desfecho, mas tiro já da frente um que normalmente é apontado mas que me parece de pouca aplicação: a tese de que os jogadores não quiseram. Depois de uma época terrivelmente desgastante (para todas as equipas, óbvio), num clima difícil (mais uma vez, para todos), os nossos jogadores deram, fisicamente, o que podiam dar. Não acredito que alguém quisesse mais do que eles um bom resultado e essa é a explicação simplista e populista que, na verdade, nada explica.

O que eles podiam ter feito melhor não foi ter mais vontade, mais garra, mais pernas. O que faltou foi identidade, mentalidade, ambição e a estratégia certa. Numa palavra, faltou liderança para aquele talento.

Esta equipa tem três líderes de facto: Roberto Martinez, Pedro Proença e Cristiano Ronaldo. Olhemos para cada um.

Roberto Martinez

Roberto Martinez é um equívoco, como sempre foi. Chegou à seleção belga sem qualquer currículo digno de nota, talvez usando as suas características de marketing e sedução. Aí, com uma grande geração de jogadores, falhou. Mesmo assim, seduziu Fernando Gomes, então presidente da Federação Portuguesa de Futebol, que o contratou sem grandes explicações.

Lembro-me bem do dia, em 2023, em que o espanhol foi apresentado, com um show muito bem montado. No passeio pela Cidade do Futebol cumprimentou calorosamente todos os funcionários da FPF e, já na sala de imprensa, saudou um por um todos os jornalistas presentes. Apresentou-se esforçando-se por falar um português muito aceitável para um nuestro hermano, desfez-se em elogios a Portugal. Só faltou cantar o fado e declamar Os Lusíadas.

O encanto interpessoal de Martinez foi tão brilhante que ninguém perguntou o óbvio: o que justificava a escolha de um treinador que tinha no currículo um campeonato da terceira divisão pelo Swansea, uma Taça de Inglaterra pelo Wigan e um desperdício total do talento da seleção belga.

O encanto interpessoal foi tão brilhante que ninguém perguntou o óbvio: o que justificava a escolha de um treinador que tinha no currículo um campeonato da terceira divisão pelo Swansea, uma Taça de Inglaterra pelo Wigan e um desperdício total do talento da seleção belga.

Depois do martírio futebolístico que foi o reinado de Fernando Santos, era difícil Portugal praticar um futebol menos entusiasmante. E as coisas nem começaram mal. A equipa mostrou algumas boas ideias, mais criatividade e menos medo. Mas foi sol de pouca dura. Sob Martinez, a seleção foi jogando cada vez pior, cada vez com menos identidade, cada vez mais receosa, cada vez mais refém de um paradoxo impossível de resolver com sucesso: assumiu a pressão de ser a melhor, mas cheia de medo de abraçar com ambição o seu talento. Ainda assim, Portugal conquistou uma Liga das Nações, num momento em que, diz-se, o recém-chegado presidente da Federação, Pedro Proença, já ponderava mandá-lo embora. Ficou e agora cai com estrondo.

Podemos falar de muita coisa que correu mal e que tem a marca indelével do charmoso Martinez, por alguns batizado como Roberto Martírio, tal o futebol que as suas equipas apresentam.

Mas foco apenas em duas: a liderança e a gestão de recursos humanos, ambas ligadas.

A liderança falhou sobretudo porque foi falsa. Quando Martinez diz que somos candidatos a ganhar o Mundial e depois manda a equipa encolher-se contra Congos e Croácias (nem falo do pavor da Espanha), os jogadores sentem. Quando fazemos um mau torneio e Martinez fala de orgulho e de azar, não está só a insultar a nossa inteligência: está a causar frustração na equipa. Os jogadores sabem, como ninguém, quando a equipa está bem e quanto está mal. E sabem também, com um conhecimento e um instinto muito próprio, o que está mal e é preciso mudar. A pior coisa que pode acontecer é o líder dizer que está tudo excelente, no pasa nada, foi azar.

Nos recursos humanos, a gestão (?) de Cristiano Ronaldo fala por si. Martinez fez, na nossa equipa, o que já tinha feito na Bélgica: jogam os grandes nomes, as estrelas, os que têm status, independentemente da sua forma, do seu encaixe no modelo pretendido, da performance que demonstram. Na empresa Roberto & Martinez, o trabalho duro e a meritocracia não existem, só com retroativos com muitos anos

Nos recursos humanos, a gestão (?) de Cristiano Ronaldo fala por si. Martinez fez, na nossa equipa, o que já tinha feito na Bélgica: jogam os grandes nomes, as estrelas, os que têm status, independentemente da sua forma, do seu encaixe no modelo pretendido, da performance que demonstram. Na empresa Roberto & Martinez, o trabalho duro e a meritocracia não existem, só com retroativos com muitos anos. Quando Gonçalo Ramos marca nos pouquíssimos minutos que Martinez lhe deu e, no jogo seguinte, não sai do banco mesmo com a eliminação a chegar, nada faz sentido. Quando Cancelo é sempre titular apesar da fraca forma e de haver três ou quatro alternativas para o lugar, nada faz sentido. Quando Gonçalo Guedes é convocado porque “traz soluções diferentes para a equipa” e depois não faz um segundo de jogo, nada faz sentido. A mensagem que passa é que, para muitos jogadores, façam o que fizerem, a sua oportunidade não chegará. Em qualquer organização, isso é veneno nas condutas de ar condicionado.

A falha na liderança e na gestão de recursos levou à implosão da cultura da equipa. O resultado dificilmente poderia ser outro.

Pedro Proença

Pedro Proença fez mal em manter Martinez após a vitória na Liga das Nações. É sempre difícil despedir um treinador nesses momentos, mas a história está cheia de exemplos em que esse receio teve mau resultado. Tal como Fernando Santos deveria ter saído após a vitória no Euro 2016 – que aconteceu apesar dele – também Martinez devia ter saído mesmo com o troféu da Liga das Nações. Um líder tem de ter convicções e ser coerente. Proença, alegadamente, tinha a convicção de que era preciso mudar, mas não teve a força para ser coerente. O que se passou neste Mundial não é surpresa, provavelmente nem para o próprio líder da Federação.

À frente da casa do futebol português, tem uma opção decisiva a tomar: vamos continuar a trabalhar para os likes das redes sociais, para os milhões em patrocínios à boleia do fenómeno Cristiano Ronaldo, para o marketing? Ou vamos tratar o projeto desportivo como o foco, criando uma identidade futebolística que, ganhando ou perdendo, nos emocione e motive?

Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo é o líder da equipa no campo, de braçadeira. Fez um Mundial fraco, como muitos outros dos nossos jogadores, mas fez provavelmente o melhor Mundial que um jogador da sua idade, nestas circunstâncias, poderia fazer. Não chega. Mas custa-me ver Ronaldo sair como vilão e, pior ainda, como principal culpado, por esta má prestação coletiva.

Cristiano quer jogar sempre e todos os minutos, como todos os jogadores querem. E não quer por achar que tem o direito divino. Acho mesmo que ele, pela sua mística e por tudo o que fez, quer jogar porque acredita que vai resolver. A fé é forte, mas não dá para tudo.

O grande responsável por esta situação é Martinez, como antes foi Fernando Santos. Nunca tiveram a coragem de deixar de fora o maior símbolo do futebol português, que é seguido com devoção quase religiosa por milhões em todo o mundo. Mas o papel de um treinador, de um líder, é esse, fazer escolhas difíceis e assumi-las. Se essa imposição vinha de cima, da própria FPF, então o treinador não manda na sua equipa, e não tem condições para continuar a ser treinador.

No meio de tudo isto, Ronaldo é o menos culpado. Joga porque o metem a jogar. Está em campo com a mesma fé de que vai resolver, como tantas vezes fez, mesmo que o corpo já não o permita e a sua presença iniba claramente o jogo coletivo da equipa. Podia ter lido os sinais e ter-se retirado? Sim, podia e devia.

Mas é injusto que esteja a ser exposto, em minutos intermináveis de frustração, a este desgaste público.

Cristiano é o símbolo maior do futebol português e o que fez no desporto é incomparável. Não merece que o seu legado fique manchado por uma sensação amarga da qual ele não é o maior responsável.

Como em muitas coisas no país, na nossa seleção falta liderança e gestão. Não sei se o nosso modelo poderá ser a organização exemplar da Noruega ou o talento ao serviço do coletivo da Espanha. Mas é preciso encontrar a cola que una as nossas capacidades e faça do todo algo superior à soma das partes.

E isto pede responsabilidade, filosofia, cultura e rigor. Desde o presidente da federação ao jogador que vive o sonho de representar o seu país em campo.

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