Meio milhão por hora

Lucros de banca sólida não são uma notícia má, são a diferença entre um sistema que aguenta a próxima crise e um que volta a bater à porta do contribuinte.

O Diário de Notícias descobriu que os cinco maiores bancos “lucraram mais de meio milhão por hora” no primeiro semestre. É um género jornalístico: pega-se num agregado grande, divide-se por 8.760 horas, e obtém-se indignação instantânea. Funciona com tudo. O Estado português arrecada impostos a mais de dez milhões de euros por hora. O SNS gasta perto de dois milhões por hora.

Nenhum destes números diz seja o que for sobre se é muito ou pouco. O que o número diz de facto, quando se lhe devolve o denominador que interessa: os 2,4 mil milhões de lucro semestral remuneram cerca de 35 mil milhões de capital próprio que os acionistas têm investido nos bancos. Dá uma rentabilidade anualizada na casa dos 14% a 15% — segundo o Banco de Portugal, o ROE do sistema no primeiro trimestre foi de 13,65%. Acima da média europeia de 10,7%? Sim, e ainda bem.

O custo do capital de um banco europeu ronda os 10%, o que significa que a banca portuguesa está finalmente, ao fim de quinze anos, a ganhar acima do que custa o capital que emprega. Mas o mais grave na notícia não é o que faz às contas, é o que faz à memória.

Há anos bons e anos maus. Entre 2011 e 2013, o BCP acumulou perto de 2,8 mil milhões de prejuízos; a CGD fechou 2016 com o maior prejuízo de sempre de uma empresa portuguesa, 1,86 mil milhões. Os bancos financiavam-se numa guerra de depósitos a mais de 5%, com a República a pagar 17% a 10 anos — enquanto do outro lado do balanço tinham carteiras de crédito à habitação com spreads fixados em 0,3% sobre a Euribor.

Durante anos, cada hipoteca dessas foi uma transferência de riqueza do banco para o devedor. Não me lembro de nenhuma manchete a contar quanto é que os bancos perderam por hora a subsidiar as prestações da classe média. E quando os anos maus levaram tudo à frente, quem pagou? Os acionistas do BPN, do BES e do Banif perderam todo o capital — zero, expropriação completa pelo risco que correram.

Os que sobreviveram fizeram aumentos de capital gigantescos para se manterem de pé. E os contribuintes? Segundo o Tribunal de Contas, o Estado gastou 29,6 mil milhões com a banca entre 2008 e 2021 e recuperou 7,5 — um saldo de 22 mil milhões contra o contribuinte, quase um PRR inteiro.

Ainda hoje pagamos mais de 600 milhões por ano só em juros dessa fatura. Já que o DN gosta da unidade: são 70 mil euros por hora, todas as horas, incluindo esta. Ao ritmo dos lucros “escandalosos” de hoje, os cinco bancos precisariam de mais de quatro anos de resultados integrais só para igualar o que a crise custou ao erário público.

Lucros de banca sólida não são uma notícia má, são a diferença entre um sistema que aguenta a próxima crise e um que volta a bater à porta do contribuinte. O que não é honesto é fabricar animosidade quando o capital é decentemente remunerado e esquecer os anos em que ardeu. Isto não é literacia financeira.

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