Mercado de Fusões e Aquisições: entre o otimismo e o calculismo

  • Marta Romano de Castro
  • 16 Junho 2022

O calculismo resultante do conflito na Ucrânia é acompanhado por um otimismo generalizado do mercado e por uma multiplicidade de oportunidades nos mais diversos setores.

No final de 2021 as expectativas para os primeiros seis meses de 2022 eram de um aumento da atividade de fusões e aquisições, nomeadamente em setores como as energias renováveis, imobiliário, construção, telecomunicações e Tecnologias, decorrente de uma maior previsibilidade de concentração dos fundos comunitários (no âmbito do PRR) nestes setores.

Após um período de pandemia em que a economia se retraiu, as perspetivas para 2022 eram animadoras, como se comprovou no início de fevereiro deste ano com a projeção de crescimento da economia europeia. Segundo os dados da Comissão Europeia era esperado que esta retomasse a trajetória de subida já no próximo trimestre, com um crescimento de 4% em 2022.

Com a invasão da Ucrânia pela Rússia a 24 de fevereiro e o início de um conflito, que ainda não tem fim à vista, é expectável que possa haver um natural abrandamento quer ao nível do crescimento das economias europeias, quer do mercado global de fusões e aquisições.

De acordo com o Wall Street Journal algumas empresas estão a levar mais tempo a analisar potenciais negócios, uma vez que este conflito, e a incerteza que dele advém, tem resultado num maior calculismo da parte dos investidores, e com ele um aumento das diligências exigidas para avaliação dos riscos financeiros e legais.

Os processos de due diligence adicionais poderão ser uma das soluções para inverter o abrandamento no mercado, ao assegurarem uma avaliação mais profunda dos riscos que os impactos indiretos do conflito possam ter nas projeções efetuadas, mitigando os mesmos através da revisão da base para o cálculo do preço optando por um earn out futuro de forma a não penalizar os investidores.

Apesar destes procedimentos adicionais que poderão ser necessários para a realização das transações, mantém-se um grau de otimismo elevado entre os players do setor em Portugal, pelas boas indicações que têm sido dadas por alguns importantes setores da economia, como por exemplo o Turismo, e pelas previsões do Banco de Portugal e do Conselho de Finanças Públicas que, em março, ainda que com uma revisão em baixa, continuam a apontar para um crescimento da economia portuguesa na ordem dos 4,9% e 4,8%, respetivamente.

Perspetivam-se várias oportunidades num conjunto importante de setores do mercado nacional, com destaque para o energético que, apesar de tradicionalmente ter um papel importante no mercado de M&A, poderá ter uma ainda maior dinâmica neste ano, face ao conflito na Ucrânia mas também à transição energética e climática que tem sido uma prioridade de várias organizações e que é, inclusivamente ,um dos pilares do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Além da energia, também o setor da tecnologia, com a urgência da transformação digital nas empresas e a implementação do 5G, continua a demonstrar uma grande força ao nível das transações de M&A, juntamente com a construção e as infraestruturas, impulsionado pelo investimento decorrente do PRR e pela possível (e expectável) operacionalização do anunciado Plano Ferroviário Nacional.

A juntar a estes setores, importa referir também a importância dos investimentos em unidades de participação dos Fundos de Investimento que continuarão com saldo positivo em 2022, sendo que só este ano a valorização já ronda os 700 milhões de euros.

Assim, olhando transversalmente para as perspetivas de M&A, o calculismo resultante do conflito na Ucrânia é acompanhado por um otimismo generalizado do mercado e por uma multiplicidade de oportunidades nos mais diversos setores. Há que saber (e conseguir) aproveitá-las.

  • Marta Romano de Castro
  • Sócia da Abreu Advogados

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