Milagre no Lusitânia Expresso

Portugal é membro da União Europeia, mas a situação na Europa oscila entre a estagnação económica e a estupefacção política. As assinaturas soberanas não têm o mesmo valor na Alemanha e em Portugal.

Portugal até pode ser o “Milagre da Europa”, mas ninguém é obrigado a acreditar em todas as ficções. O Presidente da República cobre-se com o manto da glória e abre a porta ao restabelecimento da “normalidade”. O primeiro-ministro não esconde o optimismo redondo e gongórico sobre a evolução da coisa. No seu íntimo político, o primeiro-ministro entende as medidas de confinamento como uma forma de “fascismo sanitário”. Sonha com as crianças na praia em Junho, as terapias ocupacionais nos lares para a cidadania sénior, as esplanadas compostas de turistas, enfim, o fluxo permanente e sustentável de receitas para as habilidades da governação.

No fundo, o primeiro-ministro busca a retoma do poder capturado pelos técnicos de saúde, tudo literalmente a bem do espírito e do corpo da Nação, tudo literalmente no exercício saudável de um “progressismo económico” ao serviço dos que menos podem e dos que menos têm. Cabe ao Presidente da República o papel paternalista de “Pai da Pátria”, incutindo no cérebro dos portugueses uma espécie de mentalidade zen, a crença no destino da Nação eleita e protegida, com um discurso num tom que oscila entre a homilia dos convertidos e o jamboree dos escuteiros.

Este optimismo é desproporcional relativamente à realidade em Portugal e no Mundo, convida a facilitismos, desmente a existência de tubarões brancos, abelhas assassinas, lobisomens, demónios, desmente enfim o ancestral mito do Monstro que se esconde algures para nos perseguir a todos. Se não fosse preocupante, tremendo, desconcertante, podíamos afirmar que Portugal está transformado num jardim-de-infância com dois extraordinários contadores de histórias. Comovente.

Depois vem a comunicação social. O espírito crítico evaporou-se ou sufocou nos pulmões obstruídos pela ausência da respiração e da liberdade. Subitamente o sentimentalismo adolescente, o assistencialismo informativo, a propaganda branca, invade-nos em vagas sucessivas de imagens de borboletas e descrições do paraíso no final deste tempo desagradável e dramático.

Na superfície da televisão digital, em cores superiores à de qualquer realidade, Portugal encontra o consultório de um psiquiatra, os conselhos de um psicólogo, a experiência de um ex-recluso, o modo pós-capitalista para lidar com o confinamento, a solução vegan para todas as ansiedades.

Somos um povo solidário, trabalhamos todos em prol do nosso semelhante, somos capazes de encontrar um fruto frito na via láctea, somos capazes de lavrar os oceanos, ensinar um crocodilo a falar a partir do confinamento de um apartamento exíguo, um apartamento alimentado a cheques mensais que se enganaram no código e ficaram por entregar. Há qualquer coisa de Soviético, qualquer coisa de Fascista, qualquer coisa de Totalitário, na mensagem dos media, cores e sons que disfarçam o medo da infecção com uma versão progressista da intoxicação democrática.

Depois há o Mundo. A fobia dos outros, o trauma da doença, o medo da morte, a besta dos acontecimentos. A recessão económica com números estratosféricos, a dívida pública com tendências infernais, a nacionalização dos salários, a nacionalização dos prejuízos, o choque simétrico de uma pandemia que, com a força de uma externalidade negativa, exige as assinaturas soberanas para evitar o colapso iminente da economia liberal e global.

Depois há o confronto entre a Globalização e o Multilateralismo, a tensão entre a Economia e o Humanismo, tudo convergindo na ideia de que a Economia é uma Ciência Moral que está a provocar uma espécie de “choque antropológico” sem precedentes na memória das últimas gerações. O fosso entre produtores e consumidores tem hoje uma dimensão onde cabe a História de toda a Humanidade, ou dito de outro de modo, onde flutuam no vácuo as ideias de interdependência e de fragilidade económica, as sombras discretas que sempre assinalam um qualquer fim de ciclo. Vive-se um período político e economicamente impensável, um tempo em que tudo o que é sólido se evapora no ar, um contexto existencial que exige novas respostas e sobretudo outras respostas. Quem se apresenta com a prosápia do optimismo arrisca o ridículo da ingenuidade, da inconsciência ou da desonestidade. A nova situação exige uma “nova gramática”, não a apologia dos milagres ou do excepcionalismo nacional.

Portugal é membro da União Europeia, mas a situação na Europa oscila entre a estagnação económica e a estupefacção política. As assinaturas soberanas não têm o mesmo valor na Alemanha e em Portugal. Os encargos económicos com a actual crise são uma narrativa que se vai prolongar no tempo, ao mesmo tempo que as nações da Europa, pela ausência de uma autoridade concertada e de uma transição organizada, irão experimentar o plano inclinado da decadência, do desemprego, da instabilidade política, da agitação social. A Europa tem de decidir da natureza da respectiva razão de ser, se pretende ser um Projecto Político ou um Projecto Económico. Se for um Projecto Económico, cada país paga a sua dívida e gera a equivalente irrelevância e decadência. Se for um Projecto Político, chegou então o momento de pensar seriamente na mutualização da dívida da União com a emissão de Bonds Europeus. Existe um óbvio risco moral, mas será certamente uma dissonância política incalculável nada fazer e assistir à fragmentação nacional de um Projecto Histórico.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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