Mota-Engil, um legado de inspiração

No 80.º aniversário da Mota-Engil, Carlos Mota Santos detalha a história do grupo, o que o fez global, e recorda o “mentor” António Mota.

Um legado de inspiração… É este o tema que escolhemos para celebrar oitenta anos de história. E não foi escolhido ao acaso. Porque ao olharmos para trás, para tudo o que estas décadas construíram, percebemos que a nossa história é, antes de mais, uma fonte de inspiração para todos os que fazem a Mota-Engil.

Mas seria pouco dizer apenas isso. Este legado é muito mais do que inspiração.

Quando recordo o caminho deste Grupo desde 1946 — o ano em que o meu avô, Manuel António da Mota, fundou a Mota & Companhia —, encontro um conjunto de lições que nos trouxeram até aqui e que nos hão de projetar para o nosso centenário, daqui a vinte anos. Permitam-me partilhar cinco delas.

A resiliência

Alguém que escapou à pobreza quase certa, partindo de um país então miserável para a longínqua e inexplorada Cabinda, não é apenas um empreendedor. Foi alguém que provou que o espírito de sacrifício e a resiliência são capazes de dobrar o destino.

Aprendemos com ele uma verdade que nunca esqueceremos: nunca devemos deixar que a inevitabilidade nos conduza ao futuro. O futuro constrói-se. Não se aceita.

E se há palavra que atravessa estes oitenta anos, é esta. Resistimos a guerras, a revoluções, a crises financeiras que derrubaram gigantes. A cada sobressalto, levantámo-nos maiores do que estávamos. A resiliência, nesta casa, não é uma virtude que se invoca nos discursos — é um músculo que se exercita todos os dias, em cada obra, em cada continente.

O trabalho

Os valores do trabalho e da produtividade são o que nos distingue. A capacidade de execução, a qualidade da nossa obra — é aí que se mede o nosso sucesso.

Nada do que somos é obra do acaso. E muito menos da sorte. Tudo é fruto do esforço, da persistência, da resiliência e de muito, muito trabalho.

Há uma frase que o meu avô gostava de repetir e que o meu tio fez questão de nos transmitir: mais do que dinheiro, herdámos trabalho. É essa, talvez, a herança mais verdadeira desta família — não o que se recebe, mas o que fica por construir.

Cada geração da Mota-Engil recebeu da anterior, não um descanso merecido, mas uma obra inacabada. E assim teremos de continuar.

A ambição

Nunca a ambição foi vista como defeito na Mota-Engil. Foi, e continua a ser, um ensinamento que passa de geração em geração: a ambição de querer mais, de ser mais e melhor, de crescer — e de incutir essa vontade em cada um dos nossos colaboradores.

Num país que tantas vezes tem medo de ser ambicioso, somos a prova de que a ambição não basta, mas é condição indispensável para o sucesso.

Quando o meu avô olhou para o mar e decidiu atravessá-lo rumo a África, fê-lo sem garantias, sem rede, sem ninguém que lhe dissesse que era possível.

A ambição foi a sua única certeza. E foi essa mesma ambição que, décadas mais tarde, nos levou onde outros viam apenas risco. Continuamos a fazê-lo da mesma forma, com Ambição alinhada com os valores de respeito e de compromisso com quem em nós confiou, numa postura inabalável que nos tem permitido construir laços para a vida.

Hoje, a presença de muitos sócios e parceiros que aqui se juntaram a nós em Lisboa, atravessando oceanos e milhares de quilómetros, demonstram bem a amizade que nos une e a confiança que se consolidou a cada ano, e a cada Obra feita em conjunto.

O sucesso

O sucesso é bom. O sucesso é o resultado da resiliência, do trabalho e da ambição. Mas o sucesso é também, é sobretudo, aquilo que aprendemos com as derrotas e com os insucessos. No fim do dia, o que verdadeiramente importa é que cada vitória seja a alavanca para novas metas e novas ambições.

Não vos vou contar que estes oitenta anos foram uma linha reta. Não foram. Houve concursos que perdemos, obras que nos custaram caro, decisões que, com o tempo, percebemos que teríamos tomado de outra forma.

Mas foi precisamente aí, no erro e na queda, que mais aprendemos. O verdadeiro fracasso não é cair — é ficar no chão. E esta empresa, posso garantir-vos, nunca ficou no chão. Levantou-se sempre, e levantou-se sempre a olhar mais longe do que antes.

A última lição, o humanismo…

Esta história de 80 anos não seria a nossa sem aquilo que nos distingue de todas as outras empresas ambiciosas, resilientes e bem-sucedidas. Essa diferença está no espírito humanista do seu fundador — a fundação mais sólida da Mota-Engil.

Ser Mota-Engil é ser humanista. É trabalhar não apenas em prol dos nossos mais de cinquenta mil colaboradores, mas também das comunidades onde o Grupo está presente.

Do México ao Brasil, de Cabinda a Moçambique, de Amarante ao Algarve — em todas as nossas geografias, a nossa atuação tem um propósito: criar riqueza, gerar emprego e melhorar as condições de vida das comunidades que nos acolhem.

Quando chegamos a um país, não chegamos para extrair. Chegamos para construir e para ficar. Formamos pessoas, criamos competências locais, abrimos escolas e estradas que ficam muito depois de a obra terminar. Para milhares de famílias, em três continentes, a Mota-Engil não é o nome de uma empresa — é o primeiro emprego, é a casa que se conseguiu construir, é o filho que pôde estudar.

É essa a obra da qual mais nos orgulhamos. Porque o betão envelhece, mas a dignidade que damos às pessoas permanece. Esta é a Obra de um Grupo empresarial, complementada com a Ação de uma Fundação da qual nos orgulhamos – a Fundação Manuel António da Mota. Este é o nosso legado. Esta é a nossa responsabilidade.

Aquilo que somos hoje

Permitam-me que vos diga, com o orgulho de quem o vive todos os dias, o que é hoje a Mota-Engil.

Somos um grupo global de infraestruturas, presente em 23países e em três continentes. Construímos as estradas, as ferrovias, os portos e os aeroportos que aproximam pessoas e economias. Erguemos barragens e redes de energia. Operamos no ambiente, na gestão de resíduos e no tratamento de água. Estamos na mineração, nas concessões, nos serviços industriais de engenharia. Onde há uma infraestrutura essencial à vida das pessoas, é provável que lá esteja a marca da Mota-Engil.

Do Trem Maya, no México, à expansão ferroviária africana; das grandes obras de transporte na América Latina aos projetos que ligam comunidades inteiras ao progresso — em cada um deles está a mesma exigência, a mesma qualidade de execução, a mesma assinatura da Engenharia portuguesa. E os resultados acompanham essa ambição.

Fechámos o ano de 2025 com o melhor resultado da nossa história, e contamos já em 2026 com uma carteira de encomendas recorde de mais de dezassete mil milhões de euros que suportará a nossa Ambição.

Não são números para exibir. São a prova de que o nosso modelo de gestão funciona, e de que a confiança que depositam em nós tem retorno.

FOCUS 2030, o caminho para o centenário

Mas um Grupo empresarial com a nossa história não vive do que fez. Vive daquilo que ainda há de fazer. Por isso apresentámos, este ano, o nosso novo plano estratégico — o FOCUS 2030.É um plano ambicioso, como não poderia deixar de ser no Grupo Mota-Engil.

Propomo-nos quase duplicar o nosso volume de negócios, dos atuais 5,3 mil milhões para 9 mil milhões de euros até 2030, com uma rentabilidade reforçada e uma disciplina financeira que nos torna mais sólidos a cada ano que passa. Crescimento, diversificação e disciplina financeira — são estes os três pilares que nos guiarão.

Mas o FOCUS 2030 é, acima de tudo, mais do que um plano a cinco anos. É o primeiro passo de um caminho que nos levará a 2046 — ao ano em que esta casa celebrará cem anos de vida.

Ao aproximarmo-nos do nosso centenário, honramos o legado que nos define e projetamo-lo no futuro. Cada meta que aqui traçámos é um degrau nessa escada que nos há de levar ao centenário, fortes, independentes e fiéis àquilo que sempre fomos.

Os desafios do nosso tempo

Celebramos estes oitenta anos num mundo que mudou e que continua a mudar a uma velocidade vertiginosa. Vivemos tempos de incerteza geopolítica, de guerras que regressaram às portas da Europa, de tensões comerciais e de um protecionismo que ameaça as cadeias de valor de que todos dependemos.

Vivemos também o tempo de grandes transições — energética, digital e climática.

Transições que não esperam por ninguém e que exigem das nossas empresas mais investimento, mais inovação e mais coragem para decidir num cenário que raramente nos dá certezas.

O mundo não vai abrandar para nos dar tempo. Ou acompanhamos o ritmo, ou seremos ultrapassados por quem o acompanha.

Portugal não está à margem destes desafios. Enfrentamos uma demografia que envelhece. Enfrentamos a fuga de talento que tantas vezes formamos, com esforço e com mérito, para depois o vermos partir e enriquecer outras economias. E enfrentamos a tentação recorrente de diminuir a nossa ambição ao tamanho dos nossos receios.

Permitam-me, neste ponto, uma observação franca. Um país não se constrói adiando decisões. E Portugal tem-se habituado, com demasiada frequência, a discutir eternamente os mesmos temas, ano após ano, década após década, sem que deles resultem as decisões estratégicas que o futuro exige. Debate-se muito e decide-se pouco.

Os grandes projetos de um país — as infraestruturas que servem gerações, a aposta na energia, na inovação, na competitividade — não se compadecem com a indecisão permanente.

Exigem visão de longo prazo, exigem coragem política e exigem a humildade de reconhecer que adiar uma decisão é, quase sempre, tomar a pior delas. Quem constrói sabe-o melhor do que ninguém: nenhuma obra se ergue sobre hesitações. Mas é precisamente nos tempos difíceis que se reconhecem as casas que sabem resistir.

Foi assim em 1946, e foi assim em cada crise que atravessámos desde então. A adversidade nunca foi, para a Mota-Engil, um motivo para recuar — foi sempre um convite para crescer.

Um exemplo a multiplicar

Reparem no que este grupo representa: somos líderes do setor das infraestruturas em Portugal, a 11.ª maior construtora europeia, a 2.ª da América Latina e a maior construtora europeia em todo o continente africano. Uma empresa nascida em Amarante que se tornou uma referência mundial.

Representamos aquilo que Portugal tem de melhor. Portugal tem tudo para ser um campeão neste mundo. Tem boa gente, quadros preparados, empreendedores de excelência, um espírito internacional. Somos, por natureza, cidadãos do mundo. Não nos deixemos iludir por mesquinhices que nos toldam e diminuem.

Não pactuemos com um certo discurso que, em nome do politicamente correto, demoniza o sucesso e a criação de riqueza — como se prosperar fosse uma culpa, e não uma conquista. Não nos convençamos de que somos menos do que os outros. Não nos enganemos: somos tão bons como os melhores. Celebremos o sucesso. Promovamos as nossas empresas e as nossas pessoas — porque serão elas a fazer-nos vencer.

A Mota-Engil não pode ser uma exceção. Tem de ser um exemplo. Um exemplo que Portugal precisa de multiplicar — em cada empresa que se atreve a sonhar grande, em cada empreendedor que arrisca, em cada português que recusa acreditar que estamos condenados a ser menos. Que sejamos muitos. Que sejamos um país inteiro.

Uma palavra final

Permitam-me terminar como começámos: com a memória. Porque celebramos estes oitenta anos com uma ausência que pesa em cada um de nós.

No final do ano passado partiu o Engenheiro António Mota, meu tio, meu mentor líder histórico deste Grupo que presidiu durante mais de vinte e sete anos, e a quem a Mota-Engil deve, em grande parte, aquilo que hoje é. Foi ele quem transformou a empresa da família numa multinacional. Foi ele quem nos ensinou que a exigência mais elevada se conjuga sempre com a maior das humanidades.

Gostava de ser tratado como “o mais velho” — e era-o, no sentido mais nobre da palavra: a voz da experiência, o conselho sereno, a referência a que todos regressávamos nas horas de decisão.

Não vos esconderei a tristeza que esta perda nos deixou. Seria desonesto fazê-lo numa noite como esta. Mas digo-vos, com a mesma franqueza, que essa tristeza não nos enfraquece — fortalece-nos.

Porque há lutos que nos diminuem e há lutos que nos obrigam a ser maiores. O nosso é destes. A melhor forma de honrarmos o Engenheiro António Mota não é com o silêncio do pesar, mas com a continuidade da obra — erguendo-nos à altura daquilo que ele sempre esperou de nós. E é com essa promessa no coração que quero terminar.

Oitenta anos depois, continuamos a ser aquilo que sempre fomos: uma família, uma casa, uma forma de estar no mundo. Não somos uma empresa que por acaso é portuguesa. Somos uma empresa que é grande porque é portuguesa — feita da têmpera, da resiliência e da ambição deste povo.

E se há coisa de que esta casa um se orgulha, é de não se limitar a representar Portugal lá fora. A Mota-Engil eleva o nome de Portugal. Leva-o a três continentes, escreve-o em pontes, estradas e caminhos-de-ferro que ficarão de pé muito depois de todos nós. Onde quer que esteja uma obra nossa, está Portugal mais alto.

E enquanto houver uma obra para erguer e um horizonte para alcançar, esta casa não vai parar. Como canta o nosso Jorge Palma — enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar; enquanto houver ventos e mar, não vamos parar. E haverá sempre, para a Mota-Engil, estrada para andar.

Nota: Este texto é uma versão editada do discurso de Carlos Mota Santos no encontro dos 80 anos do grupo.

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