Na economia das plataformas, o futuro do áudio joga-se na distribuição

  • Miguel Pereira
  • 18 Junho 2026

Numa economia cada vez mais dominada por plataformas, quem garantir presença nos pontos certos de acesso continuará a capturar valor e a manter uma relação relevante com as audiências.

Os Radiodays Europe 2026 confirmaram de forma clara uma mudança estrutural: o áudio continua a crescer, mas o contexto em que é consumido está a mudar de forma estrutural.

Durante anos, o principal desafio da rádio foi competir pela atenção. Hoje, o desafio é outro: garantir que continua acessível num ecossistema cada vez mais fragmentado e mediado por plataformas.

Em Portugal, o áudio continua a ter uma escala muito relevante. De acordo com a 2.ª vaga de 2026 do Bareme Rádio da Marktest, 82,6% dos residentes no Continente com 15 e mais anos ouviram rádio pelo menos uma vez por semana. Mas essa escala já não se constrói da mesma forma.

O acesso ao áudio já não acontece apenas através de interfaces tradicionais, mas cada vez mais através de sistemas operativos, assistentes de voz, agregadores e ambientes como o automóvel. Quem controla estes pontos de acesso — e, muitas vezes, os dados e os mecanismos de recomendação — passa a ter um papel determinante na relação com o utilizador.

Esta mudança não é apenas tecnológica. É económica. Numa lógica de plataformas, a distribuição torna-se um fator crítico na criação de valor. A capacidade de chegar ao utilizador final, de ser facilmente descoberto e de garantir presença nos momentos relevantes de consumo passa a ser tão importante quanto o próprio conteúdo.

Ao mesmo tempo, o crescimento do áudio digital está a reforçar esta transformação. De acordo com a IAB Europe, o investimento em áudio digital na Europa ultrapassou os mil milhões de euros em 2024, crescendo 18,3% face ao ano anterior.

Para os broadcasters, isto significa que a relação direta com a audiência deixa de ser garantida. Mas isso não reduz o papel da rádio, pelo contrário.

Num contexto em que a distribuição é cada vez mais mediada, reforça-se a importância dos seus principais ativos: conteúdo relevante, proximidade e confiança. A rádio continua a ter uma relação única com as audiências, mas precisa de garantir que está presente nos novos pontos de acesso.

O automóvel é um bom exemplo desta transformação. Continua a ser um dos contextos onde o consumo de áudio é mais forte, sendo consistentemente apontado como um dos principais momentos de escuta em estudos internacionais, mas é também um dos que está a evoluir mais rapidamente.

Para as novas gerações, a experiência digital é o ponto de partida: simples, imediata e integrada. Se o acesso à rádio não for intuitivo nesse ambiente, deixa de ser uma escolha óbvia. Não porque perdeu relevância, mas porque perdeu visibilidade no momento de escolha.

Ao mesmo tempo, assistimos a uma convergência crescente entre conteúdo, dados e tecnologia. A inteligência artificial está a acelerar esta transformação, não através de grandes disrupções, mas sobretudo através de casos de uso concretos que permitem escalar produção, personalizar experiências e melhorar a descoberta de conteúdos.

A inteligência artificial começa também a funcionar como uma nova camada de interface e distribuição, e não apenas como ferramenta de produção.

Mais do que tecnologia, o foco está na capacidade de execução.

Outro sinal relevante é que a inovação está cada vez mais próxima das equipas, seja em redação, programação ou produto, e menos concentrada em estruturas centrais. Isso acelera a adoção e aproxima a tecnologia da realidade operacional.

Neste contexto, temas como metadata, discoverability e experiência do utilizador deixam de ser questões técnicas e passam a ser fatores críticos de competitividade.

Para mercados como o português, este momento representa uma oportunidade de acelerar, tirando partido da escala atual da rádio e adaptando-a aos novos modelos de distribuição.

Mais do que reinventar a rádio, trata-se de garantir que continua acessível nos novos contextos de consumo. Isso implica investir em distribuição, em experiência e na relação direta com o utilizador, adotando a tecnologia de forma pragmática e alinhada com a operação.

O principal takeaway é claro. A rádio não está a perder relevância, está a mudar de contexto. Numa economia cada vez mais dominada por plataformas, quem garantir presença nos pontos certos de acesso continuará a capturar valor e a manter uma relação relevante com as audiências.

  • Miguel Pereira
  • VP Audio Platforms na Bauer Media Audio Portugal

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