Não estar cotado não é desculpa para não ter bom Governance
É tempo das grandes e médias empresas não cotadas refletirem sobre a recusa em definir o seu modelo de Governance e perceberem os custos do modelo de gestão que essa recusa implica.
Tradicionalmente, um Grupo Empresarial Familiar tende a concentrar energias num modelo de negócio robusto e numa equipa de quadros chave que vão constituir a sua identidade competitiva e a sua preocupação de criação de valor assenta tipicamente num portfolio de produtos diferenciado e competitivo, em posições sólidas em mercados com bom potencial de crescimento e numa elevada reputação alinhada com os valores da empresa e da Familia.
Mas há uma consciência crescente com dois pilares centrais até há pouco tempo desprezados ou empurrados para um plano muito secundário: o Corporate Governance e o Modelo de Organização de Topo. O desenvolvimento de um Modelo de Organização de Topo claro, completo e bem alinhado com as necessidades do negócio é geralmente adoptado apesar de raramente bem executado. No entanto, o maior problema está nas profundas reservas de grandes ou médias empresas não cotadas às boas práticas de Corporate Governance porque as associam às complexas e pesadas obrigações impostas pelo mercado de capitais aos grupos empresariais cotados.
Esta formulação não faz, de facto, sentido aplicar em médios ou grandes grupos familiares não cotados, mas o que acontece é que acaba por servir de pretexto para abandonarem completamente a aplicação dos mais básicos conceitos de Corportate Governance, o que é um erro grave e perigoso. Então como resolver este impasse?
Acontece que existem hoje práticas de Corporate Governance largamente disseminadas em empresas não cotadas com benefícios inequívocos. Essas práticas, as medidas que as materializam e o seu valor acrescentado variam obviamente de caso para caso – mas não faltam exemplos de empresas que beneficiaram com a adoção de práticas pragmáticas e customizadas de Corporate Governance e que retiraram daí importantes benefícios para a valorização do seu negócio e, naturalmente, para o fortalecimento do legado a passar à geração seguinte. Para desmistificar o conceito de Corporate Governance, muitos autores nesta área, nos quais nos incluímos, têm agregado cada vez mais Corporate Governance e Organização de Topo num único conceito, que podemos denominar simplesmente de Governance e que assenta em cinco princípios básicos.

A ARBORIS tem aplicado este conceito com sucesso em grandes e médias empresas no sentido de avaliar o potencial de melhoria das suas práticas de Governance (incluindo recorde-se o Modelo Organiozacional de Topo!) e ajudar a concretizar esse potencial definindo e implementando as medidas de melhoria adequadas, o que significa em particular…
- Entender muito bem a situação de partida do Grupo em cada dimensão de Governance.
- Identificar e caracterizar as medidas aplicáveis ao seu caso específico do Grupo face a melhores práticas comparáveis em médias empresas.
- E conceber um plano de implementação bem alinhado com as características da organização que mereça o acordo do Presidente e dos principais protagonistas da organização.
Por outras palavras, um trabalho desta natureza, que deve envolver de forma próxima todos os Administradores e Quadros de primeira linha para criar um sentido de ownership comum do resultado final, passa por dar resposta a quatro questões-chave:
- O que se pode aprender de melhores práticas de grupos comparáveis e que benefícios podem essas práticas aportar ao Grupo em termos líquidos face ao trabalho e custo envolvidos?
- Que elementos ou medidas concretas se considera que fazem de facto sentido implementar no Grupo face à natureza do negócio, aos valores do Grupo e da Família e ao ambiente de trabalho, ao longo de um horizonte temporal que se quer adequado, mas sem concessões ao inevitável sentido de urgência que marca qualquer processo de transformação bem sucedido?
- Que implicações relevantes vão ter estes elementos ou medidas na organização, em particular na emergência de responsáveis com desempenho pobre a afastar e quadros de alto potencial a promover?
- Como deve ser implementado o processo de evolução do modelo de Governance do Grupo para retirar os benefícios pretendidos, com total apoio dos Acionistas e da organização e mantendo fidelidade aos valores dos Acionistas e da Organização?
Do que fica exposto, o modelo de Governance “ideal” numa empresa de raiz familiar depende de uma série de fatores que vão variar de caso para caso. Não obstante, os inúmeros estudos realizados sobre o tema e a própria experiência dos Sócios da ARBORIS, o crescimento e a valorização de um Grupo empresarial de raiz familiar a médio e longo prazo não se consegue sem um modelo de Governance robusto.
O processo para construir esse modelo partindo da situação atual não pode deixar de incorporar a experiência de melhores práticas comparáveis nem naturalmente de ter em consideração as características, capacidades, limitações e aspirações do Grupo. E é um um processo que exige o suporte de assessores externos com experiência, senioridade, sensibilidade… e muita capacidade de criar o consenso necessário para o sucesso final da implementação das medidas escolhidas.
Em conclusão, as reservas de grandes ou médias empresas não cotadas à adoção das pesadas práticas de Corporate Governance de empresas cotadas são justificadas. Mas isso não pode servir de pretexto para ignorar totalmente Corporate Governance, um erro grave e perigoso.
A agregação de Corporate Governance e Organização de Topo num único conceito, simplesmente Governance, permite aperfeiçoar o modelo organizacional de topo e adotar práticas de Corporate Governance que façam sentido e acrescentem valor. Não faltam empresas que beneficiaram com a adoção de práticas pragmáticas e customizadas de Corporate Governance e que retiraram daí importantes benefícios.
É tempo das grandes e médias empresas não cotadas refletirem sobre a recusa em definir o seu modelo de Governance e perceberem os custos, o atraso de desenvolvimento e o amadorismo do modelo de gestão que essa recusa implica. E perceber, como tantas excelentes grandes e médias empresas em Portugal e na Europa já perceberam, que não estar cotado não é desculpa para não ter bom Governance.
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