O ‘apagão’ da água que sobressaltou Inglaterra
No final de 2025, durante muitos dias seguidos, milhares de famílias no sudeste de Inglaterra abriram as suas torneiras sem que dali saísse água. Outras receberam água imprópria para consumo.
Escrevo a 16 de janeiro de 2026. Moro em Lisboa, capital de Portugal, Estado-Membro da União Europeia. Vejo, diariamente, como o trabalho conjugado de tantas pessoas, empresas e instituições (do Estado, das autarquias, de privados) significa que há, por regra, controlo sobre a qualidade da água nas nossas torneiras e que temos água segura para beber. Os dados são claros: em 2024, Portugal registou, pelo décimo ano consecutivo, o indicador de 99% de água segura na torneira dos consumidores. 225 concelhos (mais de 80%) apresentaram qualidade de água excecional e 51 concelhos água segura acima de 95%.
Os dados portugueses, assim escritos, surgem quase como se fossem imutáveis e garantidos. Mas não são: ter água segura nas torneiras servidas pelo sistema de abastecimento público é uma missão contínua que exige preparação, planeamento, investimento e muito muito trabalho diário e de longo prazo.
Esta realidade portuguesa é partilhada com outros Estados europeus, sendo o Reino Unido um exemplo no que respeita a qualidade da água nas torneiras dos sistemas públicos. E, ainda assim, no final de 2025, durante muitos dias seguidos (entre final de novembro e 20 de dezembro), milhares de famílias no sudeste de Inglaterra abriram as suas torneiras sem que dali saísse água. Outras receberam água imprópria para consumo, sujeita a um aviso de boil water. Em resultado, escolas e hotéis foram encerrados, suspendeu-se a atividade económica e a vida diária passou, súbita e inesperadamente, a depender da distribuição de água engarrafada de emergência. Esta situação prolongou-se durante várias semanas seguidas.
Poderia ser apenas ficção ou fake news, mas não; aconteceu num país europeu desenvolvido, sem escassez hídrica, com operadores privados sofisticados e um regulador ambiental experiente no controlo da qualidade da água para consumo humano (o Drinking Water Inspectorate).
Estão ainda por apurar as razões para este apagão da água inglês (com tempos tão difíceis de recuperação e consequências sociais e económicas por quantificar). O operador e responsável pelo serviço referiu como causa as alterações climáticas, a alteração abrupta de padrões de consumo e a insuficiência das tarifas para cobrir o investimento necessário para evitar este cenário. O regulador sublinhou que o operador não implementou as medidas que se impunham no tratamento da água, designadamente a instalação de uma unidade de filtração e um controlo operacional modernizado ao invés do que estava implementado que, além de pouco frequente, era arcaico (manual).
Independentemente da identificação da causa, há, para já, uma lição a retirar deste major incident que teve origem numa estação de tratamento de água (uma ETA) inglesa: o setor da água tem de trabalhar, em primeiro, para garantir a premissa de água na torneira com qualidade e em continuidade. Claro que não podemos ser alheios à definição de tarifas eficientes e acessíveis, mas a política tarifária tem de se integrar numa estratégia maior que promova a renovação e a modernização dos sistemas de tratamento e distribuição de água, bem como da recolha e tratamento das águas residuais.
Esquecer a ordem dos fatores e não cuidar da prevenção, do investimento nas infraestruturas essenciais de tratamento da água, do controlo operacional preventivo – e não reativo – pode, sem dúvida, mostrar a fragilidade dos dados da qualidade da água para consumo humano em qualquer país desenvolvido e significar que o que temos hoje não estará cá para amanhã.
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