O ataque aos dados clínicos
As próximas vítimas na luta da privacidade podem ser os seus dados clínicos. E a consequência imediata será um aumento dos custos no acesso à saúde e serviços com ela relacionados.
Não faltava mais nada. A Google vai lançar uma aplicação de inteligência artificial para “ajudar” os utilizadores a “encontrar respostas” para problemas de pele. O argumento oficial é que a combinação da inteligência artificial com a câmara do smartphone dos utilizadores vai “desbloquear novas formas de manter as pessoas informadas sobre a sua saúde”. Se a Google fosse uma empresa honesta, este anúncio seria feito nos seguintes termos: “Como queremos vender mais dados de utilizadores para multiplicar ainda mais os nossos lucros e explorar a condição de desigualdade das sociedades atuais, usamos a desculpa da tecnologia para criar uma aplicação inútil que tem potencial para ser muito popular. Não estamos minimamente preocupados com a saúde dos cidadãos, o que queremos é convencê-los a cederem gratuitamente imagens da sua própria pele para que possamos lucrar com isso. Se por acaso estes dados se virarem contra o seu próprio interesse, o problema é seu e ninguém o manda ter confiado em nós – até porque esta aplicação não tem qualquer relevância clínica nem substitui informação médica credível”.
A Google, tal como muitas outras empresas tecnológicas, tem-se apropriado dos dados privados relativos à saúde dos utilizadores de tecnologias digitais, e agora quer dar o próximo passo e juntar a isso imagens da sua pele. Tudo começou há anos, com a recolha abusiva de dados feita pelas pulseiras de fitness e pelos trackers de saúde, que ocorreram em simultâneo com aplicações que visavam a saúde dos utilizadores (como a infame relativa ao Covid-19). Agora continua numa tentativa de ampliar a exploração do melhor negócio do mundo: criar gratuitamente uma enorme base de dados, ao mesmo tempo que aperfeiçoa uma ferramenta de inteligência artificial e ainda aumentar os seus perfis de utilizadores para perpetuar a dependência do capitalismo de vigilância que criou.
Estará a Google disposta a partilhar com os utilizadores os lucros que vai gerar com esta aplicação? Quando conseguir melhorar a sua aplicação de inteligência artificial e a vender, vai dar ações aos utilizadores? Ou vai ao menos oferecer smartphones aos utilizadores que vão ser alvo de ações de publicidade dirigida graças às imagens que vão partilhar? A indústria farmacêutica, que é tão acusada de ser maligna, tem ao menos o hábito de pagar aos sujeitos que usa nos seus testes clínicos. As tecnológicas nem isso – até cobram para que possamos usar os seus produtos. E estas aplicações são efetivamente nocivas para sociedade porque perpetuam os ciclos de desigualdade, contribuindo para que algumas doenças sejam mais recorrentes em certas camadas da população. Neste caso, o problema é essencialmente racial: do total de imagens usadas no pacote de treino da aplicação, só 3.5% eram de pessoas negras. A coisa já é tão repetida que não pode ser coincidência: é mesmo promoção ativa da desigualdade em nome da manutenção da hierarquia vigente. Já só cai quem quer.
A inteligência artificial é, sem qualquer dúvida, uma amiga da medicina. As tecnologias digitais serão parceiras extremamente úteis para antecipar diagnósticos, propor tratamentos e encontrar soluções para doenças que até agora são incuráveis. Mas o cuidado com os dados e a proteção dos cidadãos tem de ser a maior preocupação. Os sinais que estão a aparecer são extremamente preocupantes.
No Reino Unido, é o próprio sistema de saúde público que se propõe vender todos os dados clínicos dos cidadãos a terceiros. Usando como argumento a pandemia de Covid-19 e a necessidade de oferecer às autoridades públicas melhores dados clínicos, o serviço de saúde pública britânico (NHS) vai criar novas bases de dados com todo o histórico clínico de cada utilizador – que depois poderá vender os dados clínicos a quem os queira comprar. Imagina-se que as seguradoras adorariam estratificar os seus produtos e recusar acesso a quem demonstre ter um quadro clínico instável, tal como as empresas que operam na área da saúde teriam todo o interesse em disponibilizar os seus produtos a quem mostrasse poder ser-lhes suscetível. Já no ano passado o governo britânico tinha vendido o acesso aos dados dos seus pacientes a uma empresa americana conhecida pelas suas práticas obscuras: a Palantir, de Peter Thiel, um dos ideólogos de Donald Trump que defende o monopólio das grandes empresas tecnológicas americanas. As práticas do GDPR limitam este tipo de situações ocorra na União Europeia, mas nem essa legislação protege os cidadãos contra práticas abusivas por parte das empresas que não estão minimamente interessadas em servir os seus utilizadores. A saúde é uma das áreas mais sensíveis de cada cidadão e aquela onde a desigualdade pode ter efeitos mais dramáticos. Por isso é essencial ser muito crítico e avaliar bem os riscos antes de ceder à tentação comercial e abdicar da privacidade.
Ler mais: Não sendo especialista em questões de saúde, tratei de me aconselhar com quem entende verdadeiramente do assunto no que toca a uma boa sugestão de leitura. Este The Digital Doctor: Hope, Hype, and Harm at the Dawn of Medicine’s Computer Age foi-me recomendado como boa referência para contextualizar este período de transição tecnológica que a medicina vive.
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