O escritório deixou de ser obrigação, agora tem de se justificar
A presença deixou de ser um dado adquirido e passou a ser uma escolha. E essa escolha depende, cada vez mais, do valor percebido.
Durante décadas, o escritório foi um dado adquirido: um destino fixo, cinco dias por semana, onde o trabalho acontecia por norma. Hoje, essa lógica já não se sustenta. A decisão recente de empresas como a Amazon de reforçar políticas presenciais a tempo inteiro reacendeu um debate que parecia resolvido: qual é, afinal, o papel do escritório? Não apenas onde trabalhamos, mas porquê?
Os números mostram que estamos perante uma mudança clara no modelo de trabalho. Segundo a JLL, os modelos híbridos caíram de 77% em 2022 para 56% em 2024. Este recuo não significa, no entanto, um regresso simples ao passado. Pelo contrário, revela uma questão crescente entre o que as empresas pedem e o que os profissionais valorizam. O “Workforce Preference Barometer 2025” indica que o equilíbrio entre vida profissional e pessoal é hoje a principal prioridade para a maioria dos trabalhadores, sinalizando uma mudança estrutural nas expectativas em relação ao trabalho.
Ao mesmo tempo, as gerações mais jovens, que representam uma fatia crescente da força de trabalho, não rejeitam o escritório. Valorizam-no, mas por razões diferentes das gerações anteriores. Procuram visibilidade, reconhecimento, aprendizagem informal e, sobretudo, um sentido de pertença. No fundo, não é a presença física em si que está em causa, mas sim o valor que dela retiram. Isto obriga a uma mudança de perspetiva: o escritório deixa de ser um local de execução de tarefas e passa a ser um espaço de experiência e de conexão.
É aqui que muitas empresas enfrentam o verdadeiro desafio. Obrigar ao regresso pode resolver questões imediatas de coordenação ou cultura, mas dificilmente responde às motivações profundas dos profissionais. O escritório passou a competir diretamente com a casa, e, em muitos casos, com vantagem para esta última. Sem deslocações, com maior autonomia e melhor integração entre vida pessoal e profissional, o trabalho remoto redefiniu o padrão mínimo de conveniência.
Neste contexto, o espaço físico precisa de oferecer mais. Mais do que uma secretária e uma ligação à internet, precisa de justificar a deslocação. Isso implica repensar o próprio conceito de escritório: não como um lugar onde se vai porque se tem de ir, mas como um ambiente ao qual se escolhe pertencer. Espaços que promovem colaboração espontânea, mas também concentração; que oferecem flexibilidade sem perder identidade; que criam comunidade, e não apenas ocupação.
O debate sobre o futuro do trabalho tem sido frequentemente reduzido a uma dicotomia entre remoto e presencial, mas essa é uma simplificação que já não serve a realidade. O que está verdadeiramente em causa é a intencionalidade. Como desenhar experiências de trabalho que façam sentido para as pessoas e, ao mesmo tempo, sirvam os objetivos das organizações? Como transformar o escritório num ativo estratégico, e não numa obrigação herdada?
A resposta passa por reconhecer que o contrato entre empresas e profissionais mudou. A presença deixou de ser um dado adquirido e passou a ser uma escolha. E essa escolha depende, cada vez mais, do valor percebido. O escritório não desapareceu, mas também não é garantido. Hoje, mais do que nunca, tem de se justificar. Todos os dias.
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