O Industrial Accelerator Act da União Europeia: Oportunidades, Protecionismo e o Leão no Inverno
O IAA, por si só, não poderá resolver os elevados custos da energia, o impacto pernicioso de mercados financeiros fragmentados e o envelhecimento da população na UE.
No filme de 1969, dirigido por Anthony Harvey, adaptando uma peça de James Goldman, Lion in Winter, uma já muito oscarizada Katharine Hepburn, Leonor da Aquitânia, responde a um muito barbudo (e sempre excelente) Peter O’Toole, o leão no inverno, no ocaso do seu lendário reinado, Henrique II, Plantageneta, intrigado com o semblante sorridente da rainha e rival: “It’s the way I register despair. There’s everything in life but hope”.
Este é o clima funesto, sob sorrisos de circunstância, que se parece ter instalado na União Europeia (“UE”), uma espécie de leão no inverno, em declínio económico e demográfico acelerado, uma perceção hétero e autoimposta, do discurso de JD Vance na Conferência de Munique, em Fevereiro de 2025, às parangonas dos relatórios Letta e Draghi, Estas perceções desconsideram a esperança que emana do reduzido nível de desemprego (5,8% de acordo com dados Eurostat de janeiro de 2026), inflação controlada (menos de 2% na zona euro, de acordo com dados do Banco Central Europeu), da balança comercial positiva em termos de comércio de bens (em dezembro de 2025 o excedente era de EUR 12,6 mil milhões em relação ao resto do mundo) e do índice de Gini, que mede a desigualdade, entre os mais reduzidos do mundo (em média 29, segundo dados do Banco Mundial)
Mas a sombra de desespero no sorriso dos líderes da UE, em resultado das projeções económicas e pela sucessiva marginalização, sobretudo política, a que têm sido sujeitos nos últimos anos, tem-se transformado numa sucessão de iniciativas da Comissão Europeia (“CE”), em matéria de inovação, defesa, política industrial, simplificação administrativa. Apesar desta aparente fúria reformista, à boa maneira da UE, não podemos deixar de notar que, em janeiro de 2026, estavam apenas implementadas 15,1% das recomendações do relatório Draghi.
Neste âmbito, a CE adotou, na passada semana, a muito aguardada proposta de legislação de aceleração industrial, o Industrial Accelerator Act (“IAA”), uma proposta legislativa para aumentar a procura de tecnologias e produtos hipocarbónicos produzidos na UE, com o objetivo de aumentar a quota-parte da indústria transformadora no PIB da UE para 20 %, até 2035.
A proposta incentiva, igualmente, uma maior reciprocidade na contratação pública, proporcionando igualdade de tratamento aos países que oferecem às empresas da UE acesso aos seus mercados, em consonância com o relatório Draghi.
Embora não enjeite o investimento direto estrangeiro, o IAA estabelece condições para grandes investimentos em setores estratégicos superiores a EUR 100 milhões, em que um único país terceiro controla mais de 40 % da capacidade de produção mundial. Esses investimentos devem criar empregos de elevada qualidade, impulsionar a inovação e o crescimento e gerar transferência de tecnologia para o espaço da UE. Devem também garantir um nível mínimo de emprego na EU de 50 %, assegurando que as empresas e os cidadãos beneficiem, juntamente com os investidores, do acesso ao mercado único.
A proposta de regulamento inclui, ainda. fatores de preferência em contratos públicos e nos regimes de apoio público relacionados com produtos produzidos na UE e com produtos hipocarbónicos, para impulsionar a procura de produtos industriais europeus.
O regulamento enfrentará ainda as sucessivas batalhas típicas do processo legislativo da UE, que envolverão os contributos do Parlamento Europeu e do Conselho da União Europeia antes da sua adoção e entrada em vigor.
Para além das batalhas burocráticas, as batalhas literais no contexto geopolítico mundial agudizam a constatação dos riscos económicos e políticos da dependência da indústria europeia dos combustíveis fósseis importados, o que reforça a pertinência da proposta da IAA, ainda que possam persistir dúvidas quanto à adequação desta à finalidade a que se propõe.
O IAA, por si só, não poderá resolver os elevados custos da energia, o impacto pernicioso de mercados financeiros fragmentados e o envelhecimento da população na UE. Alguns críticos realçam, inclusivamente, que esta legislação insiste numa ideologia verde que é, no entender destes, parte do alegado problema de competitividade da EU, encaminhando o dinheiro dos contribuintes não para a indústria da UE, mas para os produtos com materiais descarbonizados e tecnologias não poluentes produzidas neste bloco económico. A forma que a CE parece ter encontrado para resolver as reservas da procura em relação ao preço mais elevado dos “produtos verdes”, é a criação de procura com base em fundos públicos, o que não é isento de censura, de um ponto de vista económico.
Outros consideram que a abordagem “Made in Europe”, como tipicamente tem lugar nas políticas protecionistas, pode resultar num incremento de custos, tendo em conta, por exemplo, que a produção de baterias elétricas, ainda depende de inputs de economias asiáticas, pelo que faria mais sentido uma abordagem “Made with Europe”, reforçando a base industrial na EU em cooperação com parceiros internacionais.
Para os operadores económicos, as tentativas de reforma da ordem económica da UE misturam incerteza e o entusiasmo de novas oportunidades, num bloco económico que se tem revelado menos inovador, mas cuja sofisticação e capacidade económica não podem ser menorizadas, antes pelo contrário, pelo que se torna indispensável monitorizar, de forma próxima, os desenvolvimentos neste âmbito e sinalizar, nos fóruns próprios, as insuficiências das medidas propostas.
Regressando ao clássico de Anthony Harvey, e ao desespero sorridente da rainha, perante o instalar do inverno, “We’re both alive”, consola-a Henrique, “and for all I know that’s what hope is…”
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
O Industrial Accelerator Act da União Europeia: Oportunidades, Protecionismo e o Leão no Inverno
{{ noCommentsLabel }}