O jornalismo merece, a assinatura logo se vê

Aos que encontram numa entrevista ou numa notícia uma boa razão para ler e, de seguida, para nos pedir um acesso de borla, faço uma proposta revolucionária. Façam uma assinatura.

O bom jornalismo tem muitos defensores e uma curiosa dificuldade em encontrar quem o queira financiar. Todos, ou quase todos, reconhecem a importância de uma redação independente, de jornalistas preparados e de notícias rigorosas e queixam-se, criticam, quando tal não se verifica. Sobretudo quando a notícia é sobre a sua empresa, a entrevista é consigo ou a reportagem e investigação confirmam aquilo que sempre pensaram. Nesses dias, o jornalismo é indispensável, mas a assinatura, pelos vistos, pode esperar.

A decisão do ECO de reforçar o modelo freemium, com uma parte dos conteúdos de acesso livre e outra reservada a assinantes, permite observar esta diferença entre o entusiasmo pela profissão e a sua relevância para a própria Democracia e a disponibilidade para pagar pelo seu trabalho. Há quem dê uma entrevista e peça depois acesso gratuito para a ler, há quem encontre uma notícia que lhe interessa e procure alguém na redação que possa abrir uma exceção. O interesse está demonstrado, a utilidade também, falta apenas explicar por que razão o custo deve ficar escondido.

Durante anos, podia argumentar-se que os portugueses não tinham o hábito de pagar regularmente por conteúdos. Essa barreira cultural está hoje muito diluída. Quem quer e pode, paga mensalmente por um serviço de streaming, pela música, pelo armazenamento digital, por aplicações e por dezenas de outros serviços. A assinatura deixou de ser uma ideia estranha ou uma despesa incompreensível. O problema já não é a ausência de hábito, é a convicção, ainda demasiado confortável, de que o jornalismo deve ser uma exceção.

No caso do ECO, uma assinatura mensal custa cinco euros, correspondente a cerca de 17 cêntimos por dia. É menos do que custa um café, uma garrafa de água ou muitas das pequenas despesas que fazemos sem pensar. O valor diário ajuda a pôr a discussão em perspetiva: Não se trata de pedir um esforço extraordinário, mas de reconhecer que o jornalismo profissional tem um preço e que esse preço pode ser inferior ao de muitas coisas que consumimos diariamente sem hesitar.

Vale a pena olhar para o pedido de quem deu uma entrevista. A disponibilidade para responder às perguntas resulta, sempre, de interesse mútuo, e de um trabalho dos dois lados. Um jornalista teve de estudar o assunto, preparar as perguntas, confrontar as respostas com os factos e editar a entrevista. E o entrevistado também beneficia de chegar aos leitores do meio a quem dá esse entrevista. Se a decisão de responder em entrevista fosse suficiente para dispensar uma assinatura, teríamos um modelo de negócio bastante original. Quanto mais empresários, gestores e decisores ouvisse um jornal, menos potenciais assinantes teria.

Cada leitor sabe das suas prioridades e das suas possibilidades, portanto, a decisão de não assinar é absolutamente respeitável. O que merece ser questionado é o hábito de pedir uma borla sem embaraço, como se o trabalho dos outros fosse naturalmente gratuito. Pedir uma assinatura para ler uma entrevista em que se participou, solicitar que alguém “abra uma exceção” para ler um qualquer Especial ou um Exclusivo ou procurar um acesso emprestado não é uma demonstração de esperteza. É uma forma particularmente clara de desvalorizar o trabalho jornalístico. E quando isso é feito por um gabinete de comunicação de uma empresa ou de um ministério ou de um partido, ou até de uma redação concorrente (também acontece, por mais estranho que possa parecer), ainda é mais alucinante.

Talvez tenha chegado o momento de promovermos uma estigmatização social desses pedidos. Não de quem não pode pagar, nem de quem decide legitimamente não pagar porque quer ler outras coisas, mas de quem pode, quer ler e, ainda assim, se sente perfeitamente confortável a pedir que outros financiem aquilo que quer consumir. Ninguém acharia normal pedir a um restaurante que oferecesse a refeição depois de a servir, ou a uma plataforma de streaming que abrisse gratuitamente uma conta. No jornalismo, porém, continua a existir quem trate a assinatura como uma gentileza dispensável, mesmo quando reconhece a utilidade do produto.

Naturalmente, cabe-nos demonstrar todos os dias que o ECO merece ser pago. A assinatura exige utilidade, informação própria, capacidade de antecipar temas e coragem para fazer perguntas incómodas. Exige também um acesso simples, sem obstáculos desnecessários. Quem paga tem o direito de ser exigente e de cancelar se o jornal falhar. Mas o trabalho necessário para corresponder a essa exigência tem um custo, mesmo quando a notícia chega ao telemóvel em poucos segundos. A facilidade de distribuição tornou o jornalismo mais acessível, mas o investimento em jornalismo não é gratuita.

Aos que encontram numa entrevista ou numa notícia uma boa razão para ler e, de seguida, para nos pedir um acesso, faço uma proposta revolucionária: que esse interesse seja também uma boa razão para assinar. Cinco euros por mês, cerca de 17 cêntimos por dia, e se for uma assinatura anual de 55 euros, são 15 cêntimos por dia, é o preço de reconhecer que o jornalismo não aparece por acaso. E, se não quiserem assinar, deixem pelo menos de pedir uma borla como se o jornalismo fosse o único conteúdo pelo qual ainda não se espera que alguém pague.

Este Editorial está aberto e acessível a todos os leitores, beneficia o infrator que pede a borla, mas pode ser suficientemente desconfortável para pôr fim aos pedidos ou, desejavelmente, para ser o início de uma assinatura.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

O jornalismo merece, a assinatura logo se vê

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião