O maior Mundial de sempre (dentro e fora de campo)

  • Diogo Curto Antunes
  • 17 Junho 2026

Desde 2006, cresceu mais de quatro vezes o valor gerado em campeonatos do mundo de futebol. Este torneio marca um novo máximo financeiro, mas também um distanciamento face ao adepto comum.

Antes mesmo de a bola ter começado a rolar no Estádio Azteca, no jogo inaugural, o Campeonato do Mundo de Futebol de 2026 já tinha entrado para a história. Pela primeira vez, 48 seleções disputam um Mundial, num total de 104 jogos distribuídos por três países e dezasseis cidades anfitriãs. O aumento de 50% no número de participantes e a passagem de 64 para 104 jogos representam a maior expansão da história da competição.

A dimensão desportiva, porém, não será a única em destaque. Com receitas sem precedentes, este será também o Mundial mais lucrativo de sempre e uma autêntica plataforma económica capaz de mobilizar patrocinadores, operadores de media, cidades anfitriãs, federações, clubes e milhões de adeptos em todo o mundo.

Neste contexto, não é por acaso que a edição mais ambiciosa de sempre se realiza nos Estados Unidos, Canadá e México. A escolha dos três anfitriões reflete a crescente importância estratégica de uma região que combina algumas das maiores economias do mundo com um enorme potencial de crescimento para o futebol.

Se durante décadas os Estados Unidos foram vistos como um mercado promissor para a modalidade, hoje essa promessa parece estar mais próxima de se concretizar do que nunca. O crescimento da Major League Soccer, à boleia de Lionel Messi e outros jogadores de topo, a crescente relevância comercial do futebol no panorama desportivo norte-americano e a expansão do investimento americano na indústria refletem essa evolução. Segundo dados da Football Benchmark, mais de 25 clubes das cinco principais ligas europeias encontram-se atualmente sob controlo maioritário de investidores dos Estados Unidos, demonstrando a crescente atratividade económica do setor.

Assim, é natural que esta edição apresente algumas características particularmente associadas ao mercado norte-americano. Um exemplo disso, que o leitor poderá já ter reparado, é a introdução de pausas de hidratação que acontecerão independentemente da temperatura. Estas interrupções criam simultaneamente um novo espaço de exposição comercial para patrocinadores e operadores de media, tanto nos estádios como nas transmissões televisivas.

É cada vez mais evidente que o maior mercado mundial de media, entretenimento e patrocínio está a ajudar a transformar o futebol num fenómeno económico de dimensão sem precedentes

Talvez nunca venhamos a chamar “soccer” ao desporto-rei pela dimensão desportiva que os Estados Unidos possam vir a alcançar dentro das quatro linhas. No entanto, é cada vez mais evidente que o maior mercado mundial de media, entretenimento e patrocínio está a ajudar a transformar o futebol num fenómeno económico de dimensão sem precedentes.

As projeções de receita para o Campeonato do Mundo evidenciam esta tendência. No Mundial de 2006, disputado na Alemanha, a FIFA gerou cerca de 2,3 mil milhões de dólares em receitas. Duas décadas depois, o Mundial de 2026 deverá gerar entre 8,5 e 9,5 mil milhões. Ainda que parte deste salto reflita também duas décadas de inflação, o crescimento real é inegável. Esta evolução ajuda a explicar porque é que este evento se tornou uma plataforma económica cada vez mais relevante para um conjunto alargado de intervenientes no ecossistema da modalidade.

Parte desta receita é redistribuída pelas federações participantes. Todas as equipas que participam nesta fase final recebem 10 milhões de dólares pela qualificação, sendo que esse prémio pode chegar aos 51 milhões, no caso do próximo campeão do Mundo. Ainda assim, a disputa pelo troféu continua fortemente condicionada pela concentração de talento nas principais seleções.

A título de exemplo, de acordo com os dados do Guia do Mundial da Football Benchmark, a seleção francesa apresenta um valor agregado de plantel superior a 1,5 mil milhões de euros, enquanto a Jordânia não atinge os 20 milhões. De forma particularmente ilustrativa, o astro espanhol Lamine Yamal vale, individualmente, mais do que os plantéis completos de 27 das seleções participantes.

Da mesma forma, são as grandes ligas europeias as que mais beneficiarão do Programa de Benefício para Clubes da FIFA (FIFA Club Benefits Programme, em inglês), um fundo que redistribui 355 milhões de dólares entre os clubes com atletas representados na fase de qualificação e na fase final do Mundial. Por si só, as “Big Five” representam cerca de 40% dos atletas presentes no Mundial, ficando com uma enorme fatia deste apoio.

O Mundial tornou-se mais inclusivo com a expansão para 48 seleções, mas não deixa de refletir uma realidade que caracteriza o futebol moderno: a capacidade de gerar valor continua fortemente concentrada em alguns mercados, ligas e clubes de referência.

Tive a oportunidade de acompanhar presencialmente o EURO 2024 na Alemanha e uma das características mais marcantes da competição foi a facilidade com que milhares de adeptos se conseguiram deslocar entre cidades, assistir a diferentes jogos e viver o torneio como um festival itinerante de futebol. Pelos relatos de quem acompanhou a seleção portuguesa na Alemanha em 2006, a experiência foi semelhante nesse aspeto.

O Mundial de 2026 será inevitavelmente diferente. A dimensão geográfica da América do Norte criará desafios logísticos incomparavelmente maiores. Viajar entre cidades anfitriãs implicará frequentemente percorrer milhares de quilómetros, recorrendo a voos internos e a estadias mais prolongadas. Para muitos adeptos, acompanhar a sua seleção ao longo de todo o torneio exigirá um investimento financeiro significativamente superior ao que seria habitual numa competição organizada num único país.

Além disso, a introdução de mecanismos de “dynamic pricing” e de uma plataforma oficial de revenda de bilhetes reflete uma sofisticação crescente na forma como o evento é monetizado. Ao indexar o preço à procura e ao trazer a revenda para dentro de um circuito oficial, captura-se valor que tradicionalmente se dispersava pelo mercado paralelo, uma lógica que há muito é familiar em setores como a aviação e que chega agora ao maior evento desportivo do planeta. Nesse sentido, já no final do ano passado, a associação que representa os adeptos ingleses (Football Supporters’ Association) alertava que um adepto que pretenda acompanhar a sua seleção com os bilhetes mais acessíveis (Categoria 4), do primeiro jogo até à final, gastará pelo menos 3.180 dólares, mais do dobro do que seria necessário no Mundial de 2022, no Qatar.

O adepto continua a estar no centro do espetáculo, mas a experiência que o rodeia é hoje mais global, mais sofisticada e, muitas vezes, mais dispendiosa do que em qualquer momento da história da competição.

O Mundial de 2026 ficará marcado pelos seus recordes, mas o seu verdadeiro significado vai além dos números. Este torneio simboliza a transformação do futebol numa indústria global, capaz de mobilizar recursos e audiências numa escala sem precedentes, sem perder aquilo que o tornou especial desde a sua criação: a capacidade de unir países inteiros em torno de uma equipa, de uma bandeira e de um objetivo comum. Para Portugal, que também já olha para um Mundial que se prevê ainda maior, a esperança é que, entre todos os recordes económicos e organizacionais, haja espaço para criar memórias dentro das quatro linhas. Porque são elas que ficam para a história.

  • Diogo Curto Antunes
  • Analista na Football Benchmark e Assistente Convidado na Nova School of Business and Economics

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

O maior Mundial de sempre (dentro e fora de campo)

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião