O melhor presente do Dia da Criança não tem laço ou embrulho e nem se esgota em 24 horas
Hoje há pais que vão comprar um brinquedo, outros vão abrir uma conta poupança no banco e outros vão investir no futuro dos filhos. Daqui a 20 anos, a diferença entre eles não será pequena.
Hoje, algures neste momento, há um pai ou uma mãe a passar por uma loja de brinquedos com a sensação de estar a fazer uma boa coisa pelos filhos. E estão, de alguma forma. Mas há uma decisão financeira que a maioria nunca toma neste Dia Mundial da Criança nem em nenhum outro, e que, ao fim de uma década ou mais vale muito mais do que qualquer coisa que caiba numa caixa enfeitada com papel de embrulho e um laço.
O Banco de Portugal e o INE publicaram há poucos dias o Inquérito à Situação Financeira das Famílias 2024. Trata-se de um documento que espelha em números o que os portugueses fazem com o seu dinheiro e que confirma o que estava à vista de quem quisesse ver: as famílias ficaram 29% mais ricas em termos reais desde 2020, quase exclusivamente porque a casa onde vivem vale mais.
Os ativos financeiros, esses que dependem de decisões ativas e informadas, encolheram 2% em termos reais no mesmo período. Significa que o património da maioria das famílias enriqueceu pela valorização da casa onde vivem, por conta de uma crise na habitação, e não por terem gerido melhor o dinheiro que sobra todos os meses.
Depositar dinheiro numa conta poupança infantil durante 18 anos é, na prática, entregar ao filho menos poder de compra do que o que lá foi colocado. O bolo cresce no papel, mas a inflação faz o trabalho inverso, em silêncio.
As crianças que celebram hoje este dia não vão ter essa sorte. Para elas, a casa não é um ponto de partida, mas um destino cada vez mais inacessível. Por isso, o que se faz com o dinheiro que sobra todos os meses e com os “presentes” de aniversário e de festividades como este importa mais do que nunca.
Porém, as famílias que até têm essa atenção, a resposta que a maioria dá a essa questão tem, quase sempre, o nome de uma conta poupança infantil, aberta no mesmo banco onde se paga o crédito à habitação, com o nome da criança e uma taxa de juro que o banco prefere não destacar, exatamente ao lado do depósito a prazo da famílias que pouco ou nada rende há largos anos.
Essa taxa de juro que o banco prefere não colocar em letras garrafais na publicidade tem nome: penalização real. É assim que o governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, descreve o que acontece à generalidade das poupanças dos portugueses. “A remuneração à poupança neste país é muito baixa, quer seja a nível de depósitos a prazo quer seja em PPR”, disse recentemente numa entrevista ao programa Conversa Capital da Antena 1 e Negócios, acrescentando que “quem poupa é penalizado a nível real”. Significa que depositar dinheiro numa conta poupança infantil durante 18 anos é, na prática, entregar ao filho menos poder de compra do que o que lá foi colocado. O bolo cresce no papel, mas a inflação faz o trabalho inverso, em silêncio, sem notificações, sem que ninguém seja responsabilizado.
Essa realidade é tão certa numa conta poupança infantil como num depósito a prazo tradicional. Nos últimos 10 anos, por exemplo, a taxa de inflação anualizada todos os meses superou, em termos medianos, 63 pontos base a taxa de juro dos novos depósitos (maioritariamente depósitos a um ano), segundo dados do Banco de Portugal e do INE. O resultado desta diferença é avassalador na carteira das famílias.
O estudo “Global Investment Returns Yearbook 2026”, elaborado pelos professores Elroy Dimson, Paul Marsh e Mike Staunton para o UBS, com base em 126 anos de história de 35 mercados financeiros, torna esse quadro ainda mais nítido: os títulos de curto prazo e com elevada liquidez — o melhor proxy de um depósito a prazo em termos de risco — perderam 0,9% ao ano em termos reais nos últimos 20 anos.
Significa que o dinheiro que ficou “em segurança” no banco valeu, na hora do levantamento, menos do que quando lá foi depositado, não em termos nominais, mas em poder de compra efetivo. É este o custo silencioso que ninguém explica quando se abre uma conta infantil. A inflação não aparece nos extratos bancários, não manda notificações, mas está sempre a trabalhar.
Investir o dinheiro das crianças quando o tempo vale mais do que o capital
O ISFF agora divulgado revela que em 2024, 74,6% dos ativos financeiros das famílias portuguesas estavam aplicados em depósitos: 24,7% à ordem e 49,9% a prazo, incluindo Certificados de Aforro e do Tesouro. Ações, fundos de investimento e obrigações representavam apenas 14,4% do total. E o dado que resume o estado das coisas é que 86% das famílias dizem não estar dispostas a assumir qualquer risco financeiro nas suas poupanças. Nenhum. O equívoco que leva a este número preocupante está na definição de risco.
Risco não é apenas perder dinheiro na bolsa, mas também não crescer o suficiente para manter o poder de compra. A volatilidade, as subidas e descidas do valor de uma ação ao longo do tempo, por exemplo, assusta porque é visível. A inflação não assusta porque é invisível, mas são dois lados da mesma equação, e ignorar um deles não o elimina. E é aqui que investir para crianças muda completamente de figura, por uma razão tão simples que é fácil de subestimar: o tempo.
O que distingue investir para uma criança de investir para um adulto de 55 anos não é o produto, é o horizonte temporal. E o tempo, nas finanças, é o único ativo que não se compra, não se recupera e não se empresta.
- Os 126 anos de história do “Global Investment Returns Yearbook 2026” são perentórios: as ações geraram uma rendibilidade anualizada real de 5,3% ao ano a nível global neste período. As obrigações ficaram pelos 1,7% e os instrumentos de curto prazo — os depósitos no seu equivalente de mercado — renderam 0,5% ao ano.
- Nos últimos 20 anos, a diferença acentuou-se: as ações mantiveram 5,6% reais anuais; as obrigações desceram para 1,3%; e os instrumentos de curto prazo entraram em território negativo, com -0,9% ao ano.
Uma criança que nasça hoje tem (pelo menos) 18 anos antes de precisar desse dinheiro para uma entrada numa casa, para começar um negócio, para ter simplesmente opções que os pais não tiveram. Dezoito anos é tempo mais do que suficiente para que os ciclos de mercado se compensem e para que o “milagre” da capitalização faça o trabalho pesado.
Hoje há pais que vão a uma loja comprar um brinquedo. Outros vão abrir uma conta poupança no banco e uma minoria vai abrir uma conta numa corretora e comprar unidades de um fundo de índice global em nome do filho. Passados vinte anos, a diferença entre os três grupos não será simbólica.
Um investimento inicial de 1.000 euros com reforços mensais de 100 euros por mês num fundo de ações global, a uma taxa real de 5% ao ano (e nominal de 7%, por exemplo), vale ao fim de 18 anos cerca de 46.585 euros. A mesma estratégia aplicada num depósito a prazo à taxa média dos últimos 10 anos (0,25%) fica pelos 23.137 euros. A diferença de mais de 23 mil euros não vem do talento do investidor, mas apenas de ter escolhido o veículo certo e de ter tido paciência para não tocar no dinheiro. A volatilidade, essa que assusta as famílias, é o preço de entrada para este resultado. Não é o inimigo. É o custo da viagem.
Os próprios dados do ISFF 2024 confirmam que os jovens percebem isto, pelo menos intuitivamente: as famílias com menos de 35 anos são o grupo com maior peso em ativos transacionáveis — 17,9% dos ativos financeiros. São também, paradoxalmente, o grupo com riqueza mediana mais baixa (36.200 euros), maior taxa de arrendamento (46% não são proprietários da casa onde vivem) e maiores restrições no acesso ao crédito (perto de 20%). Têm a consciência que os pais não tiveram, mas não tiveram o tempo que os pais tiveram. É um argumento mais do que suficiente para que os filhos comecem antes.
Existe uma medida concreta que pode mudar esta equação de forma estrutural. Chama-se Conta de Poupança e Investimento (CPI) e a Comissão Europeia, por iniciativa da comissária portuguesa Maria Luís Albuquerque, aprovou o quadro legal para a sua criação em setembro do ano passado.
A ideia é simples: contas individuais que permitem investir em ações, obrigações, fundos e ETF, com vantagens fiscais, sem valores mínimos de entrada e com custos controlados para pequenos e grandes investidores.
Há uma semana, o presidente da CMVM, Luís Laginha, admitiu que a proposta do regulador que lidera “está em fase muito adiantada” e que acredita que esta figura pode traduzir-se num dos “mais importantes contributos” para resolver a “excessiva concentração de poupança em instrumentos de remuneração reduzida ou negativa”.
Hoje há pais que vão a uma loja comprar um brinquedo. Outros vão abrir uma conta poupança no banco e uma minoria vai abrir uma conta numa corretora e comprar unidades de um fundo de índice global em nome do filho. Passados vinte anos, a diferença entre os três grupos não será simbólica. Será a diferença entre um filho que entra na vida adulta com margem para escolher e um filho que começa do zero.
Há presentes que cabem numa caixa e presentes que só se abrem anos mais tarde. Os primeiros fazem a tarde de hoje, os segundos fazem a vida de depois porque o tempo não se recupera e as crianças merecem que os adultos tomem as decisões certas enquanto ainda há margem para as tomar.
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