O mercado de capitais pode promover a recuperação e resiliência da economia portuguesa?
As empresas mais inovadoras e com maior capacidade de criação de riqueza estão cotadas. As economias com maior capacidade de crescimento recorrem mais ao mercado de capitais.
Cerca de 60% dos IPOs que se realizaram nos últimos três anos nos mercados Euronext foram concretizados por PME com uma capitalização bolsista inferior a €150M, tendo estas angariado em média aproximadamente €25M e atraído investidores internacionais. Estas operações permitiram financiar o desenvolvimento do negócio e acelerar o crescimento, mas permitiram também preservar nos accionistas de referência, nos founders e na equipa de gestão, o controlo e a prossecução da sua visão, estratégia e identidade.
Estas são características únicas face às restantes alternativas de financiamento, que fazem do mercado de capitais uma ferramenta essencial para o desenvolvimento empresarial e económico e que se torna ainda mais relevante se pensarmos nas especificidades da nossa economia. A reduzida criação de riqueza e a consequente diminuta poupança nacional condicionam a capacidade de investimento, limitando a inovação, a entrada em novos mercados ou novas áreas de negócio, promovendo um ciclo vicioso difícil de quebrar.
Por isso é tão importante o recurso ao mercado de capitais. As empresas mais inovadoras e com maior capacidade de criação de riqueza estão cotadas. As economias com maior capacidade de crescimento, oportunidades de emprego qualificadas e mais resilientes, recorrem mais ao mercado de capitais.
O mercado de capitais é também a fonte de financiamento mais democrática. Sim, porque os investidores de mercado são verdadeiramente indiferentes a nomes, e agnósticos a amizades, valorizando apenas as valências técnicas das empresas, a diferenciação dos seus serviços e produtos e a visão estratégica e liderança da sua equipa de gestão. E confiando nestes atributos, e assim na sua capacidade de criação de valor, confiam-lhes também o seu capital, numa partilha de risco, que assumem, e de reputação, que lhes conferem. Contribuem assim não só financeiramente mas também com esse capital de confiança para o desenvolvimento e crescimento das empresas em que investem.
Por isso, e em particular no momento em que enfrentamos uma nova crise e se debate como promover a “recuperação e resiliência” da economia Portuguesa, o financiamento através do mercado de capitais é um tema demasiado importante para não estar na agenda de todos.
Porque o que condiciona desde há muito as empresas Portuguesas é na verdade a sua capacidade de investimento, essencial para a sua competitividade, para crescer e reter clientes, para abrir novos mercados ou negócios, ou para desenvolver inovação. Investimento que deverá ser suportado num balanço forte e capitalizado.
É certo que existem outras fontes de financiamento. Mas considerando as especificidades de cada opção, importa reflectir se queremos prosseguir o mesmo modelo, cujos resultados conhecemos, ou se queremos promover uma alteração estrutural da economia Portuguesa. Podemos nada fazer, pondo em risco a competitividade e capacidade de crescimento. Podemos continuar a promover o endividamento, mantendo nos accionistas a totalidade do risco e limitando a capacidade de investimento. Podemos até optar pelo investimento directo estrangeiro, cedendo o controlo e assistindo à gradual integração em grupos internacionais, aculturação, adopção das marcas internacionais e exportação das competências de valor acrescentado para outros países, ao invés de afirmar internacionalmente as empresas nacionais e preservar em Portugal centros de competências. Ou não.
É claro que o mercado de capitais não é para todos (seja pelas necessidades de investimento ou características intrínsecas da empresa, do accionista e da gestão); é claro que é exigente; é verdade que não obstante a crescente internacionalização das empresas nacionais, a dimensão do mercado local ainda condiciona frequentemente a dimensão das empresas nacionais (embora nem sempre tenha de ser assim, e muitas vezes já não o seja). Mas tendo presentes os exemplos de operações de empresas europeias, certamente também algumas empresas Portuguesas o poderiam fazer. E seria desejável que o fizessem.
Perguntava se pode o mercado de capitais promover a recuperação e resiliência da economia Portuguesa, o seu crescimento. Pelas razões que referi, claramente que sim. Como então convocar todo o ecossistema, toda a sociedade até, para uma alteração que deverá ser estrutural? Um tópico essencial para ter na agenda sobre a recuperação das empresas Portuguesas e o crescimento da economia nacional.
Nota: Por opção própria, a autora não escreve segundo o novo acordo ortográfico
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