Editorial

O ministro zangado que fica na história

O ministro das Finanças está zangado, com os que o criticam fora e, sobretudo, dentro do Governo e do PS. Mário Centeno fica na história, mas a forma como sair, a bem ou a mal, depende de si.

Mário Centeno fica na história da política financeira em Portugal. Quaisquer que sejam as críticas, algumas delas certeiras, outras que deveriam ser dirigidas a António Costa, é o ministro que vai levar as contas do país ao excedente orçamental. E é, talvez, por isso que se sente injustiçado ou, como diz o ditado popular, parece que “alguém lhe deve e não lhe paga”. É o que se lê na entrevista de fim de semana ao Expresso, dirigida aos críticos fora e, sobretudo, dentro do Governo e do PS.

Mário Centeno pôs na proposta de orçamento para 2020 um excedente orçamental de 0,2%, que seria de 0,6% se não fossem os 600 milhões para o Novo Banco. E propõe-se reduzir o peso da dívida pública no PIB para 116,2%. O caminho dos últimos quatro anos foi, em muitas dimensões, tortuoso. Deixa mais despesa estrutural, que financiou com receita conjuntural, e por isso a redução do défice está longe de estar terminada. Com uma dívida pública de 252 mil milhões de euros, é absolutamente prematuro abrir a discussão sobre um eventual excesso de ambição na redução do défice. sobretudo daqueles que dizem, e bem, que o gelo em que pisamos continua a ser muito fino.

Na entrevista ao Expresso, Centeno (quase) abriu o livro. Foi mal-educado com Rui Rio, criticou os seus colegas de Governo que o pressionam nos jornais, manteve o tabu sobre a saída do Governo, recusou conflitos de interesse em relação ao Banco de Portugal e recusou falar sobre o Eurogrupo (porque a possibilidade de vir a ter aquele cargo em ‘full time’ pode vir a ser uma realidade). Mas não só: Revelou de forma óbvia que está contra as mudanças nas PPP e disse desconhecer o que estava em causa nas negociações do Novo Banco… curiosamente, ou talvez não, dois dossiês nas mãos de Pedro Siza Vieira.

O que se lê, para lá de tudo, é a reação de um homem zangado. Incompreendido. Acima de tudo, injustiçado. Ofendido até. O país e o partido devem-lhe alguma coisa, e não estão a saldar essa dívida. Não percebeu que a sua popularidade como ministro das Finanças foi a exceção. Centeno foi, nestes anos, um ‘outliar’, mas Centeno estava convencido que lhe agradeceriam os trabalhos, quando na verdade até, ou sobretudo os que lhe estão mais próximos, nunca gostaram do seu sucesso, especialmente quando isso lhe trouxe popularidade que foi além da do próprio primeiro-ministro.

Centeno vai sair do Governo, vai sair mais cedo do que tarde, já tem um sucessor natural, Pedro Siza Vieira, que está a acumular áreas que estavam nas mãos do ministro das Finanças. Mas vai depender mais de Centeno se a sua saída será feita a bem ou a mal.

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