O Mundial 2030 está aí à perna

O Mundial está aí à perna. Se servir para justificar betão, ajustes diretos e fantasias de grandeza, então já sabemos como acaba: a festa passa, a fatura fica.

Para um fã de futebol, na semana do arranque do Mundial 2026, não aproveitar para escrever sobre o certame seria uma oportunidade perdida. Não me perdoaria. Contudo, por muito que adorasse, o único espaço em que tenho competências para comentar a tática, o sistema ou as ideias de cada equipa é à mesa de um café. Não querendo massacrar o leitor com tiradas polémicas e mal fundamentadas, fico-me, apenas, por desejar que no próximo 20 de julho possamos ver o caneco a chegar a Portugal.

Feita esta introdução, o tema de hoje é mesmo o próximo Mundial. Não porque este esteja perdido, mas porque mesmo que não pareça, em 2030 será por aqui. Já nem falo da organização 3+3, com centro em Espanha, Marrocos e Portugal e grupos a serem disputados também na Argentina, Paraguai e Uruguai. Nem falo tampouco do muito limitado número de jogos que aqui se vão disputar. Escrevo porque conheço a nossa natureza, sei que, daqui a um ou dois anos, tornar-se-á desígnio nacional e aí nada nem ninguém impedirá gastos ou exageros.

Não somos novos nestas andanças. Eu, sim, sou novo demais para me lembrar da Expo ou do Euro 2004, mas anos volvidos sou capaz de ver os elefantes brancos que sobraram. Tenho idade para me lembrar da Eurovisão, da loucura nacional com as primeiras edições da Web Summit ou, mais claramente, da cegueira coletiva aquando das Jornadas Mundiais da Juventude. Somos especialistas em deixar tudo para o fim e, quando a data se aproxima, não medir esforços.

Com o avizinhar da data, os apelos por novas infraestruturas chegarão. Novos projetos megalómanos tornar-se-ão sinónimo da nossa própria identidade e já sabemos que quem avisar para os excessos será um velho do Restelo, desmazelado com a nossa imagem externa. Para receber estrangeiros, fazemos de tudo. Tudo para inglês ver.

Serve este texto, a quatro anos do evento, para alertar para estes desvarios. Temos estádios e a larguíssima maioria da infraestrutura está construída. Não precisamos de mais monos de betão espelhados pelo país. Utilize-se esse dinheiro, se existir, para construção essencial ao desenvolvimento: restaurem-se caminhos de ferro, invista-se nas escolas ou nos hospitais. Será certamente mais bem empreendido.

Por fim, seremos inundados com números sobre os benefícios do Mundial para a nossa economia. Apelo a que sejamos céticos. O evento acontecerá em junho/julho concentrado entre Lisboa e o Porto. Nesta altura, os hotéis, por defeito, já estariam cheios, pelo que o efeito parece ser de substituição. Não sei se os adeptos são melhores ou piores turistas que o nosso turista normal médio – o que consumirem a mais de cerveja talvez consumam a menos de produtos de luxo – mas, de qualquer das formas, a diferença não será absurda.

Claro que pode haver impactos económicos positivos. Não os nego. A questão é que o ganho diferencial pode ser concentrado em alguns (poucos) setores e parte dele absorvido pela entidade organizadora, quando os custos são maioritariamente nacionais, sem descurar as indústrias que possam perder com a substituição de turistas. Se a este problema de propriedade dos ganhos somarmos as dúvidas quanto aos ganhos de substituição, torna-se evidente que a questão não é simples. Análise semelhante pode ser feita para as Jornadas.

Claro que há ganhos indiretos como, por exemplo, reconhecimento internacional. Mas um país que já organizou eventos similares no passado e é um dos polos turísticos europeus não tem falta de visibilidade. Diria que os ganhos marginais são decrescentes e, a este nível, próximos de zero.

Em 2030, não precisamos de provar que sabemos organizar eventos. Já o fizemos. Precisamos, isso sim, de provar que aprendemos alguma coisa com eles. Que sabemos distinguir investimento de vaidade ou retorno económico de mera propaganda. O Mundial está aí à perna. Se servir para justificar betão, ajustes diretos e fantasias de grandeza, então já sabemos como acaba: a festa passa, a fatura fica.

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