O mundo aos pés de Xi
O Presidente chinês vai aproveitando um mundo cada vez mais fragmentado para elevar o seu próprio poder. Será exagero dizer que a sua influência é já maior que a de Joe Biden?
A vida corre bem a Xi Jinping e ao Partido Comunista Chinês. Melhor do que alguma vez sonharam há um par de anos.
A cada conflito que se inicia, a China beneficia. A Rússia já era uma potência em decadência. Após a invasão da Ucrânia, e com as várias vagas de sanções aplicadas pelo Ocidente, Moscovo tornou-se um satélite político de Pequim. As exportações chinesas para a rússia dispararam, substituindo produtos ocidentais. A China passou a ser o maior importador de petróleo russo, a preços de saldo.
A reação do Ocidente ao conflito ucraniano ajudou também Pequim a ganhar influência junto dos países do chamado Sul Global, ressentidos com a supremacia que os EUA procuram impor. Um sentimento agora ampliado pelo apoio dos EUA, do Reino Unido e da UE a Israel na guerra em Gaza, mesmo que condenando a violência da ofensiva.
A China aproveita para explorar a duplicidade de critérios do Ocidente: na Ucrânia está do lado do povo invadido, no Médio Oriente do povo invasor. Para a Ucrânia envia armamento para travar o massacre, para Israel envia o armamento usado para o cometer.
Nem tudo corre como Xi Jinping quer. Os EUA vão respondendo às práticas comerciais predatórias da China com tarifas aduaneiras mais elevadas e lançando sanções para impedir o acesso aos microprocessadores mais avançados. Nada que tire demasiado o sono ao líder chinês, que sempre se pode contentar com a contemplação de um país cada vez mais fragmentado, cultural e politicamente.
Foi neste contexto que Xi Jinping fez a sua primeira visita à Europa em cinco anos. À Europa não, a três países escolhidos a dedo: França, Sérvia e Hungria.
A primeira paragem foi França, cujo Presidente tem sido o maior defensor de uma maior autonomia estratégia da Europa em relação aos EUA, firmemente vocalizada na visita à China no ano passado.
Emmanuel Macron ofereceu Cognac ao presidente chinês e recebeu a garantia de que não serão aplicadas tarifas sobre as bebidas espirituosas francesas. Prometeu também apoiar o apelo de Macron a uma trégua nos conflitos mundiais durante os Jogos Olímpicos. Um é quase simbólico, o outro inconsequente.
Macron foi também o anfitrião de um encontro com Ursula von der Leyen. A presidente da Comissão Europeia voltou a ameaçar com medidas duras caso a China mantenha práticas comerciais desleais, sem que Xi Jinping tenha mexido um músculo. O mercado chinês é demasiado importante para as grandes economias da UE.
Inalterada manteve-se também a posição em relação ao conflito na Ucrânia, com o Presidente Chinês a repetir que não enviará armamento para a Rússia ou equipamento que possa ser usado com esse fim. Nada mais.
A paragem seguinte, na Sérvia, serviu para condenar a NATO pelo bombardeamento que em 1999 atingiu a embaixada russa em Belgrado.
Seguiram-se dois dias na Hungria, para cimentar relações com o líder que mais boicota a política externa da UE, nomeadamente na resposta à Rússia, elevado agora por Xi ao segundo nível mais importante da China na relação com outros países. Viktor Órban também poderá vir a ser útil para boicotar retaliações comerciais contra a China. Ou para emperrar o funcionamento da NATO, tendo já travado até ao limite a entrada da Suécia.
A visita serviu certamente os interesses de Xi Jinping, não os da União Europeia, que viu mais uma vez exposta a sua incapacidade e divisão. O primeiro saiu fortalecido, a segunda enfraquecida.
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