O mundo vai acabar (amanhã!)

Já partilhou este texto? Não se esqueça que o mundo vai acabar (amanhã!). Porquê? Isso agora não interessa nada, não há tempo a perder. Conto consigo para partilhar esta informação dramática!

Folgo em saber que está a ler este artigo ainda a tempo. O mundo vai acabar, de ciência certa, ou muito provavelmente, não importa agora, amanhã. Pouco ou nada poderemos fazer para o evitar, a menos que leia este artigo até ao fim e siga as recomendações. Entretanto, não há tempo a perder, partilhe de imediato este texto em todas as redes e plataformas ao seu alcance e encaminhe para o maior número de amigos. Obrigado, não custa nada, se todos fizermos a nossa parte talvez ainda seja possível evitar o apocalipse.

A principal causa, ao que julgo saber, li num relatório internacional, ou talvez “na internet”, não importa agora, que está a provocar esta espécie de shutdown planetário é o consumo desenfreado e a disseminação indiscriminada de informações de fontes não fidedignas e de notícias falsas. Por isso, a primeira coisa a fazer, ou talvez a segunda, não se esqueça de partilhar o artigo, é estar atento a títulos e imagens sensacionalistas, palavras que parece que gritam (!), textos que não indicam fontes credíveis ou que possam ser responsabilizadas, factos ou dados que não possam ser consultados ou escrutinados por outras fontes de informação. Espere. Talvez não seja suficiente.

Parece que as verdadeiras notícias falsas se dissimulam adotando o aspeto de informação que nos é familiar – “Para a mentira ser segura e atingir profundidade, deve trazer à mistura qualquer coisa de verdade” – terá dito um guru da comunicação digital em Davos. Ou terá sido o António Aleixo? O youtuber? Isso agora não interessa nada. Não há tempo a perder.

Dizem-me, neste momento, que, no meio de tanta informação, se não gritarmos que o mundo vai acabar (amanhã!) ninguém nos vai ouvir ou ler (ou ver?). É assustador, por isso é mesmo importante que leia este texto até ao fim. Foi no meio deste tufão de informação que ao que parece durante a campanha para as eleições presidenciais americanas de 2016 foram digeridas incautamente doses massivas das chamadas fake news.

Calma! Não se apressem a dizer “só mesmo na América!”, porque, segundo consta, o mesmo também poderá terá acontecido na campanha para o refendo do Brexit no Reino Unido e até na Europa (mesmo!), com interferência nas eleições na Alemanha, em França e no reboliço político que se vive em Espanha (ou será na Catalunha?).

Por isso não é de estranhar que o debate rapidamente tenha passado das redes sociais e das páginas dos jornais para as instâncias políticas. Quando se discute a qualidade da informação, discute-se a qualidade da democracia. Quando se discute a liberdade de informação, discute-se a essência da democracia. A liberdade e o acesso plural a fontes de informação está presente como requisito até mesmo nas definições que alguns consideram minimalistas ou meramente procedimentais de democracia. Entretanto, não se distraia, não se esqueça que o mundo vai acabar (amanhã!), isso não é coisa pouca.

Acresce que, quando se juntam qualidade e liberdade de informação e riscos de interferência externa, as fronteiras da democracia (literal e metaforicamente) poderão estar em causa. “Vêm aí os Russos, Vêm aí os Russos”, alguém se lembra? Mas pode não ser brincadeira. O Presidente Macron já anunciou a intenção de legislar para evitar as fake news, a Alemanha foi a primeira a avançar como uma lei que visa o controlo e a punição do hate speech e também das fake news, a Comissão Europeia foi desafiada pelo Parlamento Europeu a pensar como é que este problema pode ser resolvido. No dia de São Francisco de Sales (24 de janeiro), padroeiro dos jornalistas, foi o Papa Francisco que alertou para os riscos da lógica da desinformação e para as fake news em particular.

O tema é mesmo importante e desafia os fundamentos da democracia liberal – “Se tivesse de decidir se deveríamos ter um governo sem internet, ou internet sem governo, não hesitaria um momento em preferir o último” – terá twittado Barack Obama. Ou terá sido Thomas Jefferson? Que ao tempo já era bastante bom em resolver grandes questões em menos de 140 caracteres (135 neste caso).

O debate ainda agora começou e as escolhas são complexas. Quer dizer que as respostas podem não caber num tweet? “Seca”. Mas temos de ser rápidos! Já partilhou este texto? Não se esqueça que o mundo vai acabar (amanhã!). Porquê? Isso agora não interessa nada, não há tempo a perder. Conto consigo para partilhar esta informação dramática!

  • Docente do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

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