O novo luxo é escolher a intensidade da carreira

  • João Bernardo Gonçalves
  • 1 Outubro 2026

Acredito que o novo luxo profissional será outro: escolher a intensidade da nossa carreira. E isso vai obrigar os Recursos Humanos a mudar.

Durante décadas, o trabalho pediu demasiado às pessoas. Agora corremos o risco de pedir ao trabalho que nunca nos peça demasiado.

Já conseguimos acabar com a cultura do “quem sai mais tarde trabalha mais”. Fizemos bem em falar de saúde mental, em exigir melhores lideranças e em perceber que ninguém deve ter de escolher entre uma carreira e ver os seus filhos crescer.

Não acredito, porém, que o futuro seja uma espécie de trabalho sem atrito, desenhado à medida de todas as nossas preferências, onde qualquer desconforto é imediatamente interpretado como um defeito da organização.

Trabalhar continuará, por vezes, a ser difícil. Ou muito difícil. E ainda bem.

Há projetos que correm menos bem, chefes que nos dizem coisas que não gostamos de ouvir, promoções que não chegam quando queremos, clientes difíceis e semanas em que temos de dar o dobro. Depois há aqueles momentos em que alguém aposta em nós antes de estarmos preparados e somos obrigados a crescer depressa.

A carreira acontece aí mesmo.

O desafio não é encontrar uma carreira ideal. É aceitar que existem carreiras diferentes.

Há pessoas que aceleram durante alguns anos e depois abrandam. Outras fazem precisamente o contrário. Há especialistas extraordinários que não querem gerir equipas e devem poder ser pagos como líderes. Há profissionais que recusam uma promoção porque, naquele momento da vida, ela não faz sentido. E outros que levantam a mão para assumir tudo aquilo que vier à rede.

Podemos querer acelerar ou privilegiar outras dimensões da nossa vida. Nenhuma dessas escolhas é moralmente superior à outra.

O que continuamos a fazer mal é aceitar as consequências dessas escolhas.

Queremos legitimamente mais liberdade. Mas continuamos pouco confortáveis quando a conversa chega ao que fazemos com ela.

Acredito que o novo luxo profissional será outro: escolher a intensidade da nossa carreira. E isso vai obrigar os Recursos Humanos a mudar.

Durante demasiado tempo, a principal pergunta foi: “qual é o teu próximo passo?”. Talvez devêssemos começar a perguntar também: “que vida queres ter nos próximos três anos?”.

Parece pessoal. Mas é profundamente profissional.

Se as pessoas tiverem maior liberdade para fazer percursos diferentes, as organizações e os RH terão de se ajustar para estar mais preparados. Isso implica algo que raramente gostamos de discutir. Diferenciação.

Nem todas as pessoas vão querer a mesma intensidade, assumir o mesmo grau de responsabilidade ou gerar o mesmo impacto. E isso não é um problema. É uma consequência natural da liberdade. Está tudo bem.

Agora, se vamos dar às pessoas mais liberdade para escolher, temos também de recuperar a coragem para as diferenciar. Não através da antiguidade, do número de horas ou da disponibilidade permanente. Mas através do valor criado.

Falamos, portanto, de uma meritocracia baseada no impacto que cada pessoa tem no “ecossistema” da empresa. Não apenas no que entrega, mas também no que faz acontecer à sua volta.

Porque tratar desempenhos diferentes como se fossem iguais é apenas má gestão.

Os RH terão de aprender a gerir estas diferenças sem as transformar em desigualdades e, ao mesmo tempo, ter a coragem de reconhecer quem cria mais valor.

Uma coisa é certa para mim: o futuro do trabalho será mais individualizado e meritocrático.

Não trabalhar mais. Não trabalhar menos. Poder escolher quanto queremos dar.

  • João Bernardo Gonçalves
  • Executive Manager da Michael Page

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