Editorial

O país político está a mudar (e Montenegro pôs-se fora desta mudança)

Seguro ganhou a primeira volta das presidenciais, Ventura também ganhou, mesmo que perca na segunda volta, e Montenegro perdeu e anuncia que está fora do que vem a seguir.

Afinal, depois de uma última semana louca de campanha, os portugueses escolheram mesmo António José Seguro e André Ventura para a segunda volta das presidenciais, como antecipava o tracking poll. Há vencedores e vencidos, mas antes será necessário ainda percorrer as próximas três semanas, até 8 de fevereiro, para perceber as consequências destas presidenciais na relação entre Belém e São Bento e também a da própria governabilidade quando Luís Montenegro hipotecou o Governo e a sua autoridade política à eleição de Marques Mendes.

Há uma conclusão evidente: Se se anunciava já o fim do bipartidarismo, estas presidenciais suscitam desde já uma pergunta legítima: Quem lidera a direita em Portugal? Esta pergunta é incómoda, especialmente, para o primeiro-ministro, qualquer que venha a ser o próximo presidente da República. Estes resultados são mérito dos próprios candidatos, demérito de outros, mas também de um estrondoso erro de avaliação política do primeiro-ministro, primeiro quando não foi capaz de unir o PSD, depois quando, em desespero, envolveu o Governo e uma sucessão de ministros nesta campanha.

O que escrevi no último Login?

  • Montenegro transformou as presidenciais num teste pessoal à sua liderança. A partir desse momento, o resultado deixou de ser apenas uma fotografia do sistema político e passou a ser um referendo indireto ao peso político do primeiro-ministro e às condições efetivas para o cumprimento desta legislatura (…) Se Mendes falhar de forma inequívoca, se não chegar à segunda volta, Montenegro passa automaticamente a ser um dos derrotados da noite. Isso fragiliza a sua autoridade no Parlamento, encoraja a oposição a testar a governação, desde logo de Ventura, e alimenta leituras internas no PSD sobre a eficácia da sua liderança“.

É claro que, perante este resultado, a discussão entre esquerda e direita é no mínimo redutora. Há mais do que isso: Seguro é um social-democrata, um socialista moderado, mas Ventura é mesmo de direita ou é, em tantas matérias, ainda mais estatista, um político da direita iliberal, com uma veia nacional-socialista? É de uma certa direita, sim, que encerra muito socialismo.

Neste quadro, mais complexo do que parece o simplismo do debate em que Ventura já anunciou que o vai pôr, há obviamente quem já esteja fora dele: Luís Montenegro. Na noite da derrota, tentou proteger o Governo dos escombros destas presidenciais, mas como também ficou claro, a vida mudou. O que impressiona se tivermos em conta que o PSD ganhou as legislativas e as eleições autárquicas último ano.

As próximas três semanas vão ser duras para Seguro, e quem dá a vitória por certa deve pensar duas vezes. Há mais de dois milhões de votos que estão livres, por responsabilidade direta de Montenegro, mas também (incompreensivelmente) de João Cotrim Figueiredo. Seguro terá de ser mais claro, vai ser confrontado com o seu passado ao lado de Sócrates, vai debater-se com a necessidade de fazer escolhas em matéria de políticas públicas. E provavelmente vai ter de sujar as mãos no confronto com Ventura, queira ou não.

Vamos ter dois discursos nas próximas três semanas, para captar os mais de dois milhões de votos que ficam livres:

  • Seguro vai centrar o debate entre moderados, liberais, democratas até, e os radicais, extremistas, não-democratas.
  • Ventura vai centrar o debate entre socialistas e não socialistas, entre socialistas e a união da direita.

Luís Montenegro governamentalizou as eleições presidenciais, mas agora pôs-se de fora de um dos períodos mais importantes da vida política em Portugal da última década, vai ter as próximas semanas para refletir sobre as condições de governação. Depois de dia 8 de fevereiro, a história vai ser outra, e vai acelerar. Outra vez.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

O país político está a mudar (e Montenegro pôs-se fora desta mudança)

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião