O país que se esqueceram de contabilizar

Isto quer dizer que depois da semana passada os portugueses ficaram mais pobres? Não! Mas quer dizer que eram mais pobres do que pensavam.

Só foi apanhado de surpresa com a revisão em alta da população imigrante, e consequentemente da população residente, quem quis. Os indicadores andavam por aí e as implicações disso mesmo foram sendo apontadas por vários ao longo dos últimos anos e meses. Neste texto, que se pretende conciso, não entrarei na discussão técnica e metodológica relativa à nova forma como o INE contabiliza os residentes. Importa apenas apontar que a nova metodologia parece afinar a precisão dos números.

Os indicadores económicos e estatísticos têm muitos defeitos. Se eu tiver dois frangos e o leitor não tiver nenhum, alguém passa fome, mas a média diz que ambos temos jantar. O PIB não é perfeito, é difícil de contabilizar, falha na contabilização das economias paralela e doméstica, não espelha desigualdades ou pode não refletir o desenvolvimento de um país. Não obstante, é dos melhores indicadores que temos para medir a riqueza de uma nação. O PIB per capita, por definição, acumula estes problemas ao da contabilização da população de um território. Contudo, é com este indicador que medimos o nosso crescimento e a convergência para as economias com que nos devemos comparar.

Na realidade, há algum tempo que algumas figuras iam apontando para o efeito denominador. Se as estimativas da população fossem incorretas, um conjunto de variáveis estatísticas estariam, por consequência, erradas, entre as quais o nosso crescimento e a convergência, via PIB per capita. E assim foi. Se é uma fraude, pouco importa. O que deve importar às pessoas é que estávamos enganados quanto à nossa posição relativa. Todos aqueles discursos bonitos sobre o crescimento exemplar da nossa economia eram manifestamente exagerados, como, de resto, muitos portugueses suspeitavam.

É claro e deve ser notado que também o numerador será revisto em alta, ou seja, as estimativas do PIB estão subvalorizadas, mas é improvável que o indicador estatístico da riqueza por pessoa não diminua. Isto quer dizer que depois da semana passada os portugueses ficaram mais pobres? Não! Mas quer dizer que eram mais pobres do que pensavam. Quer dizer que se houve ações dos agentes políticos com base na crença de uma economia fulgurante, essas decisões foram com base em informações erradas ou, pelo menos, enviesadas.

Não importa por quantos países vamos ser agora estatisticamente ultrapassados. Na verdade, já tínhamos sido sem nos apercebermos. Esta revisão, sim, deve fazer-nos repensar o nosso modelo de crescimento. Podemos agora encarar o facto que pouco ou nada convergimos desde a pandemia. Então, sim, enganaram-nos.

E acho injusto que esta posição seja confundida com uma qualquer oposição à imigração, porque não é. É uma chamada de atenção para o facto de, durante estes, anos termos andado a fazer políticas públicas com os olhos tapados. As queixas sobre a crescente sobrelotação dos serviços públicos fazem agora sentido. Afinal, éramos muito mais sem nos adaptarmos a isso.

Como podemos integrar sem sabermos quem cá está? Pensemos no caso dos transportes. As mesmas carruagens, locomotivas e autocarros passaram a servir muito mais pessoas diariamente. É possível acreditar que a qualidade do serviço não piorou? Até agora, havia quem nos negasse que este fenómeno estivesse a acontecer. É válido questionar se os nossos políticos tinham consciência desta realidade, se houve estudos e se as políticas foram pensadas para um país que já não existia.

Este debate foi importante. Discutiu-se economia e convergência e espero que nos faça pensar sobre como podemos crescer mais. Em O Leopardo, Lampedusa relembra-nos que, por vezes, “é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma”. Portugal tem abusado desta estratégia de crescimento, tudo vai mudando e tudo vai ficando como estava.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

O país que se esqueceram de contabilizar

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião