O papel das universidades na construção de um futuro sustentável: entre a intenção e a transformação

  • Cláudia Ribeiro e Ana Carvalho de Matos
  • 27 Fevereiro 2026

A questão que se impõe é clara: estarão as universidades a assumir plenamente o seu papel na construção de um futuro mais sustentável?

Num contexto marcado por fenómenos climáticos extremos, erosão costeira, crises energéticas e um agravamento das desigualdades sociais e territoriais, a ação climática deixou de ser uma agenda paralela para se tornar uma prioridade estrutural. A este cenário somam-se fragilidades nacionais que amplificam os riscos e dificultam respostas eficazes: uma economia de baixa produtividade, dependente de setores vulneráveis; um território crescentemente desigual entre litoral e interior; uma população envelhecida e jovens qualificados que continuam a emigrar; e uma governação frequentemente lenta e fragmentada na execução de políticas públicas. Sem transformação estrutural, não haverá transição sustentável.

É neste quadro exigente que as instituições de ensino superior ocupam uma posição singular: são espaços de produção de conhecimento, formação de lideranças e experimentação de soluções. A questão que se impõe é clara: estarão as universidades a assumir plenamente o seu papel na construção de um futuro mais sustentável?

A resposta não é linear. Por um lado, a sustentabilidade ganhou visibilidade nos currículos, na investigação e nos discursos institucionais. As Nações Unidas, através da Agenda 2030 e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, criaram um enquadramento mobilizador que muitas universidades adotaram como referência estratégica. Em particular, o ODS 13 — Ação Climática trouxe para o centro do debate académico a urgência de integrar mitigação, adaptação e literacia climática na formação superior.

Contudo, integrar a sustentabilidade nos documentos estratégicos não é o mesmo que transformá-la num princípio orientador transversal. O verdadeiro desafio reside em ultrapassar a lógica de iniciativas pontuais e avançar para uma mudança estrutural consistente. Isso implica ir além da sensibilização e assumir a sustentabilidade como eixo estratégico de competitividade nacional. Exige formar capital humano capaz de integrar critérios ambientais e sociais nas decisões financeiras, empresariais e públicas; reforçar a transferência de conhecimento para o tecido produtivo, transformando investigação em inovação aplicável; e produzir evidência que influencie políticas públicas e decisões económicas. Mais do que centros de reflexão, as universidades devem afirmar-se como infraestruturas críticas de desenvolvimento, capazes de acelerar a modernização do modelo económico e fortalecer a resiliência do país.

O potencial transformador do ensino superior é, pois, inegável. No entanto, a distância entre intenção e transformação continua a ser significativa. Estratégias ESG (Environmental, Social and Governance) institucionais existem, relatórios multiplicam-se e os rankings verdes ganham visibilidade. Mas algumas questões decisivas permanecem: o financiamento acompanha essa ambição? As parcerias estabelecidas são coerentes com os compromissos assumidos? Os currículos foram efetivamente reformulados ou apenas ajustados? A investigação produzida influencia decisões económicas e políticas públicas ou permanece circunscrita ao espaço académico? A sustentabilidade não pode ser um departamento nem um selo reputacional; tem de funcionar como critério transversal de decisão, orientando prioridades, recursos e escolhas estratégicas.

É precisamente neste ponto que ganha relevância a forma como medimos impacto. Muitas universidades continuam a operar segundo métricas tradicionais de reputação académica que pouco valorizam impacto económico, social e territorial. Instrumentos como o Business School Impact System (BSIS), promovido pela EFMD, procuram inverter essa lógica ao avaliar de forma estruturada a contribuição económica e social das escolas de gestão — da criação de emprego qualificado à influência na inovação empresarial e nas políticas públicas. Trata-se de uma mudança de paradigma: medir impacto, e não apenas reputação. Em Portugal, a Faculdade de Economia da Universidade do Porto é atualmente a única escola de negócios com certificação BSIS, sinalizando um compromisso com a avaliação concreta do seu contributo para o desenvolvimento regional e nacional.

Num momento em que a ciência é inequívoca quanto à urgência da ação climática, as universidades não podem limitar-se a observar ou a comentar. Devem afirmar-se como laboratórios vivos de inovação sustentável, espaços de diálogo plural e motores de transformação sistémica. A questão já não é se têm capacidade para o fazer, mas se estão dispostas a alinhar estratégia, recursos e prioridades com essa ambição.

O futuro sustentável de que tanto se fala será, em grande medida, moldado nas salas de aula, nos centros de investigação e nas decisões estratégicas das instituições académicas. Num país que precisa de aumentar produtividade, reter talento e sofisticar o seu modelo económico, cabe às universidades decidir se querem ser espectadoras dessa mudança ou protagonistas ativos da transição — ambiental, económica e social.

  • Cláudia Ribeiro
  • Professora auxiliar, membro do conselho executivo e presidente do Comité da Sustentabilidade da FEP
  • Ana Carvalho de Matos
  • Responsável pela área de Responsabilidade Social e Sustentabilidade da Faculdade de Economia do Porto

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