O patrono da literacia financeira chumbou no teste básico que quer dar ao país

Álvaro Santos Pereira passa a vida a recomendar (e bem) investimentos a longo prazo aos cidadãos mas, na hora da verdade, apresentou-se no banco central com uma carteira longe desse desígnio.

A declaração de interesses que Álvaro Santos Pereira entregou ao Banco Central Europeu (BCE) talvez seja o documento mais inesperadamente pedagógico do ano. Não pelo que ensina, mas pelo que confessa.

O governador do Banco de Portugal, presidente do Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (CNSF) e fervoroso paladino da literacia financeira, apresentou-se a Frankfurt sem fundos de investimento, sem fundos cotados (conhecidos também como ETF), sem obrigações, sem um Plano Poupança Reforma (PPR), sem depósitos a prazo declaráveis, sem gestão discricionária de carteira.

À data de 31 de dezembro de 2025, a sua carteira tinha exatamente dois ativos: ações da Galp e da Jerónimo Martins, comprados, ambos, já depois de tomar posse e prontamente classificados, pelo BCE, como aquilo que não pode ter. Resultado: foi obrigado a desfazer-se deles. Em duas linhas: o homem que pede ao país para diversificar não diversificava; e o pouco que tinha, não podia ter.

Façamos então um exercício que o próprio CNSF até deveria homologar: uns conselhos não solicitados de finanças pessoais ao governador. Não para o ensinar a poupar — disso, presume-se, percebe — mas para o ajudar a fazer aquilo que tem dito, em sucessivos discursos, que os portugueses precisam de aprender. Afinal, foi o próprio quem afirmou que a literacia financeira “tem de ser uma prioridade total” para o país e que é tão importante “como termos literacia ao nível da matemática, da ciência e do português”.

Lição 1: diversificação não é comprar duas cotadas portuguesas

A primeira regra que qualquer manual decente do Plano Nacional de Formação Financeira (PNFF) 2026-2030 ensinará nas escolas é tão antiga como pouco glamorosa: não se mete o dinheiro todo no mesmo cesto. Tê-lo em dois cestos do mesmo galinheiro do PSI também não conta.

Galp e Jerónimo Martins — comprados a 17 e a 29 de dezembro de 2025 — não são uma carteira, são uma aposta de patriotismo cotado, com viés setorial concentrado entre o petróleo e artigos para a despensa lá de casa. Espera-se mais imaginação de quem assina os boletins económicos do banco central. Compare-se, sem maldade, com o que entregaram em janeiro os colegas do Conselho do BCE.

  • Christine Lagarde , presidente do BCE, declara seis fundos diversificados da Oddo BHF — um moderado, um europeu, um small cap, um americano mid cap, um global de convertíveis — mais um BNP Paribas multi-PEP. Não é uma maravilha de minimalismo, mas é uma carteira.
  • Luis de Guindos, vice-presidente do BCE, vai pelos fundos monetários da CaixaBank e da Mutuactivos.
  • Piero Cipollone confessa, com a humildade dos prudentes, que tem gestão discricionária, ou seja, entrega o volante a um profissional para evitar exatamente o tipo de aceleração que aconteceu na Avenida Almirante Reis em dezembro.

Nenhum deles é Warren Buffett, mas todos têm aquilo que o governador português não tem: um plano que não cabe num post-it.

Quando o governador anuncia que a literacia financeira é um dos quatro pilares da sua visão estratégica para 2026-2030 e três meses antes entrega uma declaração que parece descarregada de um manual de como não fazer, a aula passa a ser dada com sinal trocado. Não é dramático. É só pena.

E depois há o caso embaraçoso do seu antecessor. Mário Centeno, que entregou a sua declaração final em dezembro de 2025, exibe uma carteira que parece tirada do livro que falta no PNFF: Vanguard FTSE All-World High Dividend Yield ETF, iShares MSCI ACWI ETF, fundos de obrigações da Morgan Stanley em euros, fundos monetários, um Schroder e um UBS Strategy Fund.

Os legados de cotadas nacionais — Benfica, Galp, Martifer, Navigator, NOS, Pharol, REN — são, repare-se, legacy: vieram de antes do cargo, não foram comprados durante. Mais: as três compras que fez em 2025 foram, todas, ETF e fundos diversificados, executadas num único dia (14 de julho), como se um robo-advisor lhe tivesse passado a fatura. Pode-se discordar de Centeno em muita coisa; em literacia financeira pessoal, ele acaba de dar uma aula sem cobrar. Indolor.

Lição 2: o tempo gosta de quem o respeita

O segundo capítulo do manual é ainda mais simples. Investir em ações faz-se a longo prazo, com reforços disciplinados, automáticos, idealmente em veículos diversificados de baixo custo (ETF globais, fundos indexados com taxas de encargos correntes abaixo dos 0,3%).

O exercício é monótono, quase devocional: comprar todos os meses, sem olhar para o gráfico, deixar o “milagre da capitalização” fazer o seu trabalho silencioso. É o que está em qualquer livro de finanças pessoais. É o que o próprio Banco de Portugal sublinhou no Boletim Económico de março de 2026, quando notou que mais de metade dos portugueses não percebe que diversificar reduz o risco e que apenas 7,3% dos que poupam recorrem a ações ou fundos.

Ninguém está a acusar Álvaro Santos Pereira de informação privilegiada. O problema, em ética pública e em finanças pessoais, é outro: é a aparência, é o sinal, é a dissonância entre o que se prega e o que se pratica.

O governador, em cinco anos, terá um rendimento gerado do seu salário que muito ultrapassa o do português mediano. Tem a sorte rara de poder pensar a 30 anos, porque, ao contrário do leitor, não vai precisar do dinheiro para a primeira renda. E, ainda assim, escolheu duas compras one-off, na queda da Galp por causa do tal negócio na Namíbia, e na primeira sessão depois do bacalhau. Isto não é estratégia de longo prazo, é market timing doméstico, primo afastado do que, nos artigos didáticos, se costuma desaconselhar com letras grandes.

Uma sugestão singela, em vez de duas cotadas em duas semanas: um plano poupança automático, todos os meses, num ETF global indexado ao MSCI World ou ao FTSE All-World, com débito direto, sem olhar para a Bloomberg. Acrescente-se um fundo de obrigações em euros — o Morgan Stanley Euro Corporate Bond, por exemplo, fica bem na declaração e fica bem na carteira — e, se a regulação interna do Banco de Portugal permitir, um PPR 100% de ações com gestão dinâmica para a parte fiscal. É monótono. É chato. Funciona. E tem a vantagem suplementar de não vir a receber uma chamada incómoda de Lagarde.

Lição 3: o exemplo, no topo, paga juros compostos

Há uma componente que o PNFF 2026-2030 trata em letra pequena, mas que talvez merecesse um eixo só dela: dar o exemplo.

O plano fala em consolidar a literacia financeira como competência transversal nas escolas, em renovar a comunicação adulta, em criar uma plataforma digital com simuladores e e-learning, em certificar iniciativas para combater desinformação. Tudo bem desenhado, tudo necessário. Mas o capital reputacional de quem preside ao plano é, ele próprio, parte da pedagogia.

Quando o governador anuncia, no relatório do Conselho de Administração de 2025, que a literacia financeira é um dos quatro pilares da sua visão estratégica para 2026-2030 e três meses antes entrega uma declaração que parece descarregada de um manual de como não fazer, a aula passa a ser dada com sinal trocado. Não é dramático. É só pena.

Ninguém está a acusar Álvaro Santos Pereira de informação privilegiada — e este é, talvez, o argumento menos importante da semana. Comprar Galp na queda antes da recuperação não exige acesso ao gabinete do governador; basta um adolescente com um gráfico e dez minutos. O problema, em ética pública e em finanças pessoais, é outro: é a aparência, é o sinal, é a dissonância entre o que se prega e o que se pratica.

Se o presidente do CNSF, num cargo cuja remuneração e cuja responsabilidade lhe permitem montar a carteira mais aborrecida e exemplar do país, se apresenta sem fundos, sem ETF, sem PPR, sem nada, e completa o serviço com duas compras de cotadas portuguesas regulamentarmente vedadas, é difícil exigir, com a cara séria, que o vizinho do 3.º esquerdo da Cova da Piedade compreenda o juro composto.

Lição 4 (a mais barata): ETF é mais simples do que reverter

O Banco de Portugal disse que, sobre as transações das ações do governador, “o processo está terminado” e o assunto, em compliance, está resolvido. Em literacia financeira, está apenas a começar.

Sugere-se, com a deferência da casa, que o governador transforme este episódio na primeira aula prática do PNFF 2026-2030, em vez de o varrer para os rodapés. Pode até começar com a frase que resume tudo o que o cidadão precisa de saber: “diversifiquem, automatizem, pensem a 20, 30, 40 anos, e prefiram fundos de investimento (com gestão ativa ou passiva) a stock picking nacional, sobretudo se o vosso patrão for o BCE”.

Acrescente-se, depois, três detalhes técnicos: procurem produtos com baixas taxas de encargos, adotem reforços mensais por débito direto e, se o tempo escassear, adotem uma gestão discricionária dos vossos investimentos.

O exemplo, garantem todos os professores do mundo, vem de cima. Se vier mesmo, paga juros compostos.

Na hipótese remota de o governador querer um modelo de inspiração, está tudo na pasta da declaração de interesses 2026 do BCE. As páginas de Lagarde, Guindos e Cipollone servem para o que fazer com decoro. As de Centeno servem para o que fazer com método. As do governador português, essas, servem para outra coisa, talvez como caso de estudo no novo módulo do PNFF para adultos cujo capítulo será “como uma carteira sem nada também é uma carteira mal feita”.

Quanto ao resto de nós, contribuintes anónimos sem ações da Galp, sem cargo em Frankfurt e sem chamadas de Lagarde pela manhã, continuemos a fazer aquilo que o plano nos pede até 2030: diversificar, planear, automatizar, e nunca, jamais em tempo algum, comprar individualmente o que nos é proibido por escrito. O exemplo, garantem todos os professores do mundo, vem de cima. Se vier mesmo, paga juros compostos.

Declaração de interesses: Não detenho ações da Galp Energia nem da Jerónimo Martins nem, à data de publicação deste artigo, a paciência infinita exigida para reverter compras em compliance.

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