O “Polígrafo Governamental” é jornalismo? Fact Check: Falso!

  • José Bourbon-Ribeiro
  • 14 Agosto 2025

Não podemos confundir o papel do jornalismo com a responsabilidade do Estado em comunicar diretamente com os cidadãos sobre aquilo que decide em seu nome.

O Sindicato dos Jornalistas (SJ) veio a público manifestar o seu “desagrado com o polígrafo governamental”, após reunião com o ministro da Presidência, António Leitão Amaro. Nas palavras do sindicato, este instrumento coloca o Governo a “usar dinheiros públicos para se substituir aos jornalistas”, levantando ainda “questões éticas e deontológicas, nomeadamente com a autoria do mesmo”.

Com todo o respeito, não partilho desta visão. Pela observação distante e técnica que faço deste assunto, a ferramenta que o Governo criou não é jornalismo, nem creio que o pretenda ser. É comunicação de políticas públicas, uma função legítima, necessária e tantas vezes negligenciada em Portugal. Explicar com clareza o que muda numa lei, quais os efeitos de uma medida ou que implicações têm determinadas decisões políticas para a vida de cada um de nós não é propaganda, é serviço público.

O SJ insiste que “o Governo pretende substituir-se aos jornalistas, que são os únicos verificadores de factos – legal e deontologicamente habilitados para esse efeito”. Ora, aqui reside o equívoco. O jornalismo tem, e deve continuar a ter, um papel insubstituível no escrutínio democrático, na diversidade de vozes e na investigação independente. Mas não podemos confundir o papel do jornalismo com a responsabilidade do Estado em comunicar diretamente com os cidadãos sobre aquilo que decide em seu nome.

Não vejo o dito “polígrafo governamental” como uma ameaça, mas como um contributo. Num tempo em que a desinformação prolifera nas redes sociais, em que as fake news corroem a confiança e alimentam radicalismos, iniciativas que tragam clareza factual devem ser bem-vindas. Aliás, é precisamente quando o Estado falha em comunicar de forma simples e rigorosa que cresce o ruído, a dúvida e a desconfiança.

O SJ defende que o Governo deveria limitar-se a “fazer chegar as suas versões às pessoas, através de mediadores certificados, os jornalistas, desejavelmente em conferências de imprensa ou através dos meios legais e regulamentares à sua disposição”. O problema é que essa fórmula tradicional já não chega. A experiência mostra-nos que, por mais conferências de imprensa que se façam, a informação não circula de forma completa, clara ou suficiente para todos os cidadãos.

Tenho refletido sobre isto desde que li ‘Os Engenheiros do Caos’, de Giuliano da Empoli, e tenho procurado contribuir para encontrar o antídoto para este flagelo. A desinformação instala-se quando a comunicação oficial é frágil, opaca ou demasiado técnica. Quando o Estado comunica mal, abre-se espaço para a manipulação. Quando comunica bem, cumpre um dever democrático.

O “polígrafo governamental” não substitui os jornalistas nem o jornalismo livre porque não investiga nem confronta versões. Serve, pelo que tenho observado, para explicar legitimamente as decisões que o governo toma. E explicar as próprias decisões é uma das obrigações de qualquer Estado que se quer transparente e próximo dos cidadãos. A comunicação de políticas públicas não enfraquece a democracia, pelo contrário, fortalece-a.

  • José Bourbon-Ribeiro
  • Managing partner da Wisdom

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