O preço da pressão geopolítica

  • Virgílio Macedo
  • 16 Março 2026

Deixou de ser pano de fundo para passar a ser uma variável central nas decisões de investimento, financiamento e gestão de risco das empresas portuguesas.

A geopolítica deixou de ser pano de fundo para passar a ser uma variável central nas decisões de investimento, financiamento e gestão de risco das empresas portuguesas. O agravamento do conflito no Irão e, em particular, o risco de disrupção no Estreito de Ormuz, deslocaram o centro das preocupações dos empresários dos balanços e resultados para a segurança das cadeias de fornecimento, da energia e do financiamento. Este contexto é um verdadeiro teste de stress à resiliência da economia e à robustez da governação empresarial.

Num momento em que vários indicadores apontam para um abrandamento do crescimento em Portugal, com o ministro das Finanças a admitir um possível impacto económico negativo se a guerra se prolongar, a qualidade da informação financeira, dos processos de controlo interno e da gestão de risco passa do plano técnico para o centro da discussão.

O primeiro canal de impacto é o da energia. A tensão em torno do Estreito de Ormuz colocou os mercados energéticos em alerta e, mesmo que Portugal não dependa diretamente do Golfo Pérsico, os preços do petróleo e do gás formam-se em mercados globais. Basta a perceção de risco para pressionar em alta os preços dos combustíveis, do gás e da eletricidade.

As reservas estratégicas de petróleo e produtos refinados oferecem alguma almofada temporal, mas apenas servem para dar tempo para reagir, não garantem estabilidade tarifária. Para grande parte da indústria portuguesa, uma trajetória prolongada de energia mais cara traduz-se em margens comprimidas, menor capacidade de investimento e, em casos extremos, destruição de capacidade produtiva. Sem medidas de mitigação, esta pressão tenderá a refletir-se nos preços ao consumidor, reduzindo o poder de compra das famílias e alimentando novas pressões inflacionistas.

O segundo canal é o da logística, dos transportes e das cadeias de valor. O agravamento do risco geopolítico já se traduz em custos de transporte marítimo mais elevados, seguros mais caros e maior volatilidade nos prazos de entrega, com efeitos diretos para exportadores e importadores. Para uma economia aberta e integrada nas cadeias de valor europeias, como a portuguesa, atrasos sistemáticos e custos acrescidos significam perda de competitividade externa e menor capacidade de resposta aos mercados.

A estes fatores somam-se potenciais impactos no financiamento. Um conflito prolongado, se agravar o crescimento da inflação a nível internacional, poderá obrigar os bancos centrais a manter taxas de juro elevadas durante mais tempo. Isso significa crédito mais caro para empresas e famílias, num contexto em que muitas ainda estão a absorver o choque dos últimos anos e os efeitos recentes das tempestades.

Neste cenário, o papel da revisão de contas e da certificação da informação financeira ganha uma relevância acrescida. A revisão legal de contas é hoje uma atividade estratégica e tecnologicamente avançada, ligada à estabilidade do sistema económico, na medida em que assegura a fiabilidade da informação com que gestores, investidores, bancos, reguladores e o Estado tomam decisões. Face a choques geopolíticos, tornam-se centrais três dimensões: a identificação e quantificação dos riscos de mercado e a sua tradução em testes de imparidade, avaliações e projeções de continuidade; a transparência na divulgação de exposições relevantes, seja a mercados sensíveis, cadeias de fornecimento vulneráveis ou custos financeiros voláteis; e o reforço da governação, com conselhos de administração e comissões de auditoria preparados para discutir cenários adversos, planear e comunicar de forma clara com investidores, trabalhadores e restantes stakeholders.

Em fases de tensão económica, a tentação de adiar o reconhecimento de perdas ou omitir riscos relevantes pode crescer. É precisamente nestes momentos que a independência do revisor oficial de contas e a qualidade do relato financeiro são mais escrutinadas pelos mercados e pela sociedade. Uma cultura de controlo, ética e transparência constrói-se! Para ser posta em prática quando a crise chega.

A guerra no Irão é, acima de tudo, uma tragédia humana, mas também um choque económico com efeitos concretos nas empresas e nas famílias portuguesas. Não controlamos a origem deste choque, nem o seu impacto. Mas podemos controlar a qualidade da nossa resposta, que exige responsabilidade partilhada entre empresas, entre o Estado, o sistema financeiro e a Ordem dos Revisores Oficiais de Contas.

Se soubermos transformar a incerteza num incentivo para reforçar a governação, a transparência e a competitividade, Portugal poderá sair deste contexto com uma economia mais robusta, menos dependente da energia fóssil cara e mais preparada para os sobressaltos de um mundo em mudança, com alianças estratégicas, muita diplomacia e a cooperação entre nações.

  • Virgílio Macedo
  • Bastonário da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas

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