O primeiro de poucos cortes nos juros
Travagem na descida da inflação e subida de salários tiram margem ao BCE para corte mais significativo nas taxas de juro de referência.
Quase dois anos depois de ter iniciado uma subida vertiginosa dos juros, que levaram a taxa aplicável às operações principais de refinanciamento para um recorde de 4,5%, o BCE vai anunciar o primeiro corte na quinta-feira. Não o fazer frustraria uma expetativa alimentada pelo próprio banco central e teria consequências demasiado nefastas na confiança dos agentes económicos e destes na autoridade monetária.
A descida ainda não chegou, mas o seu impacto já se sente nas condições de financiamento. As Euribor, que servem de referência ao crédito à habitação, atingiram o ponto mais alto entre setembro e novembro, consoante o prazo do indexante, e desde então têm vindo a descer paulatinamente. Por exemplo, a Euribor a 12 meses, a mais usada nas hipotecas, atingiu um máximo de 4,228% no final de setembro e está agora nos 3,716%, caindo 0,512 pontos percentuais. Quem tem revisão da prestação em junho terá uma redução de até 21%, como noticia esta sexta-feira o ECO. Isto significa que o período de maior bonança na margem financeira para os bancos também já ficou para trás, no segundo semestre do ano passado.
Com mais dinheiro na caixa de empresas e famílias, a economia da Zona Euro tem mais fôlego para recuperar, e manter a dinâmica de retoma que vem a registar nos últimos meses.
O primeiro corte chega no mesmo dia em que arrancam as eleições para o Parlamento Europeu, que decorrem de 6 a 9 de junho, consoante os Estados-membros, sem que exista qualquer indicação de que esse tenha sido um critério para a decisão. O BCE tem demonstrado ser um banco central independente e capaz de resistir às pressões (e foram muitas nos últimos meses), apesar das diferentes sensibilidades trazidas pelos 26 membros do conselho, muitas vezes alinhadas com a visão que determinados países têm da política monetária. Um contraste que até ajuda à independência do banco central.
O confronto entre “pombas” e “falcões” vai manter-se daqui em diante, agora que o foco está no que poderá acontecer nas reuniões seguintes.
Klaas Knot, presidente do banco central holandês, que integra o grupo das aves de rapina, veio dizer esta semana que futuras decisões deverão ser centradas nas reuniões do trimestre, quando são atualizadas as projeções económicas. Ou seja, na melhor das hipóteses poderão ocorrer mais duas descidas: em setembro e dezembro. “As reuniões do conselho com novas projeções serão as reuniões-chave para as nossas decisões sobre taxas de juro”, afirmou num discurso em Londres.
Villeroy de Galhau, presidente do Banco de França, membro da equipa das “pombas”, defendeu um dia antes que o BCE não deve pôr de lado a possibilidade de realizar dois cortes consecutivos: em junho e julho. Nas palavras do próprio: “Por vezes leio que deveríamos cortar as taxas apenas uma vez por trimestre, quando novas projeções económicas estiverem disponíveis, e portanto excluir julho. Porquê, se [a decisão] é reunião a reunião e com base nos indicadores económicos? Não digo que devamos comprometer-nos já com julho, mas vamos manter a nossa liberdade sobre o momento e o ritmo”.
França precisa desesperadamente que as taxas desçam, face ao descontrolo em que entraram as contas públicas. O défice orçamental no ano passado foi de 5,5% do PIB (a dívida pública está em 110,6%) e a previsão para este ano é de 5,1%, número de que os grandes investidores desconfiam. A taxa de juro exigida nas obrigações francesas a 10 anos (3,167%) é já só marginalmente mais baixa do que a dos títulos de Portugal (3,282%).
A expetativa continua a ser que a inflação chegará ao objetivo de 2% do BCE, mas a “última milha” está a ser mais difícil de percorrer.
Ben Bernanke, antigo presidente da Reserva Federal, e Olivier Blanchard, ex-economista-chefe do FMI, publicaram este mês um paper que analisa as causas do disparo da inflação a partir de 2021, que na Zona Euro levou a taxa homóloga até um recorde de 10,6% em outubro de 2022, bem como da evolução mais recente.
“No início, a inflação acentuada que se verificou foi explicada por choques que afetaram direta e indiretamente os níveis de preços, incluindo o aumento dos preços das matérias-primas, a escassez de bens específicos, e, em alguns casos, a redução da oferta de trabalho. Os mercados de trabalho tornaram-se escassos, mas isso quase não desempenhou um papel no disparo da inflação”, concluem os autores, que integraram um projeto com 10 dos principais bancos centrais.
“No entanto, os efeitos inflacionistas dos mercados de trabalho restritivos são persistentes. À medida que os choques nos preços (por exemplo, na energia e alimentos) se inverteram, as pressões salariais em mercados de trabalho aquecidos tornaram-se uma fonte mais importante de inflação“, escrevem os dois economistas. Donde, chegar às metas de inflação dos bancos centrais poderá exigir níveis de desemprego um pouco mais elevados, reduzindo a pressão para o aumento dos salários.
O caminho será acidentado. Soube-se esta semana que a inflação na Alemanha acelerou em maio para 2,8%, na primeira subida em seis meses, puxada pelos serviços. E os salários saltaram 3,8% em termos reais no primeiro trimestre, a maior subida desde 2008. Um artigo publicado este mês no blog do BCE aponta que o crescimento das remunerações deverá manter-se elevado este ano na Zona Euro, ainda que abaixo do recorde de 5,2% registado em 2023.
Dados que cimentam a probabilidade de que o corte de junho seja o primeiro de poucos, mantendo as taxas de juro estruturalmente mais elevadas.
O ajustamento tem sido feito sem causar demasiada dor — os EUA escaparam a uma receção dada como certa e a Zona Euro emerge de uma leve contração — e, a menos que exista um novo choque económico, não há razão aparente para pensar que isso irá mudar.
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