O primeiro-ministro vai à praia
Se o custo da política é maior, o cargo torna-se menos atrativo, apanhando apenas gente com um preço de reserva inferior. Claro, sobra a alternativa de arranjarmos uns eremitas.
Podia ser o título de uma nova aventura d’Os Cinco? Podia, mas infelizmente não é. É mesmo a crónica da aventura de um qualquer jornalista do Correio da Manhã que resolveu levar a silly season demasiado à letra. Não devo precisar de ser mais direto, pois não?
No fim do dia, a ida do Primeiro-Ministro à praia foi tema um pouco por todos os OCS. Em primeiro lugar, se é verdade que a indicação de São Bento de que Montenegro não iria de férias foi pouco mais do que populismo barato, também é verdade que foi indicado que usufruiria de alguns dias avulsos para descansar. O líder de governo, como qualquer outro cidadão, também deve poder repousar, da forma que bem quiser. Ou deve trabalhar 24 horas, 365 dias por ano? A bem do país, não.
Em última instância, José Luís Carneiro ter tido a falta de noção de falar sobre o tema é descer ao nível zero da política. O que é que o líder do PS tem que ver com o facto de o PM decidir descansar um fim de semana ou até apenas uma tarde? Não vale tudo e, se os socialistas querem ser levados a sério, não usar o argumentário do Chega pode ser um bom começo. Fica a ideia.
Em segundo lugar, o país anda a adiar a discussão da privacidade dos líderes políticos há já muito tempo. Muitos dirão que os abusos sempre existiram e o jornalismo dos anos 80 e 90 lembra-nos casos diversos. É verdade. Contudo, parece-me que sobrevoar casas com drones e andar à caça na praia com fins políticos ultrapassam alguns limites.
Fui crítico do discurso de José Pedro Aguiar-Branco no 25 de Abril, no qual, manifestamente exagerando, transformou a necessidade de clareza numa devassa da vida privada. A lisura na vida pública é um bem em si mesmo e ajuda-nos a descobrir ou evitar futuras promiscuidades. Serei sempre um defensor da transparência. Paparazzi na praia não são é a minha definição de transparência.
Da mesma forma, não nos devemos esquecer que, se ser político é sinónimo de que vão remexer em toda a vida passada e pedir faturas e recibos do pavimento da casa, também estamos a aumentar excessivamente o custo de entrar na política. Esta deriva, para a qual em muito têm contribuído boa parte da comunicação social e a aceleração dos ciclos mediáticos, leva a uma de três alternativas. Ou aceitamos que os governantes são apenas políticos de carreira que conhecem e aceitaram desde cedo as regras do jogo, ou os únicos que conseguiremos recrutar fora da bolha serão progressivamente piores. Isto porque,se o custo é maior, o cargo torna-se menos atrativo, apanhando apenas gente com um preço de reserva inferior. Claro, sobra a terceira alternativa de arranjarmos uns eremitas.
Pode ser que confundir transparência com voyeurismofaça com que um dia consigamos finalmente o político perfeito: sem passado, sem família, sem opiniões e, de preferência, sem vida. Até lá, deixem o homem ir à praia.
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