O que ainda não estamos a discutir sobre as ‘soft skills’
As competências humanas não são periféricas. São o que torna o conhecimento inteligível, útil e verdadeiramente transformador.
Chamam-lhes soft skills. Mas talvez não haja designação mais imprecisa para um conjunto de competências que são, hoje, essenciais à formação integral dos cidadãos, à qualidade das relações profissionais e à capacidade de adaptação a contextos exigentes e em mudança. Comunicação, pensamento crítico, empatia, resiliência, colaboração, resolução de problemas — nada disto é “suave”, nem acessório.
São competências exigentes, transversais e estruturantes, com impacto direto no desempenho, na aprendizagem ao longo da vida e na coesão das equipas. E, no entanto, continuam frequentemente ausentes dos currículos formais. Ou são tratadas como domínios paralelos, sem reconhecimento pleno.
O debate internacional sobre esta nomenclatura tem vindo a intensificar-se. Termos como core skills, foundation skills ou life mastery skills procuram recentrar a discussão. Não se trata apenas de linguagem. Nomear é valorizar — e o que se designa como soft tende a ser relegado para segundo plano, em contraste com as chamadas hard skills, associadas ao domínio técnico-científico.
Em Portugal, o debate é ainda incipiente. Mas há sinais encorajadores. Em junho, o jornal ECO destacou a crescente valorização destas competências num encontro promovido pelo BCSD – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. Neste, líderes de sustentabilidade de 57 empresas identificaram as soft skills — como empatia, pensamento sistémico, negociação e comunicação — como cruciais para a liderança executiva; mas já em fevereiro tinha referenciado o tema, numa entrevista intergeracional, em que o CEO do Super Bock Group reconheceu que a capacidade de aplicar o conhecimento, comunicar eficazmente e adaptar-se é hoje mais valorizada do que a posse de saber técnico.
Apesar disso, as soft skills continuam a ser ensinadas de forma difusa, muitas vezes entregues ao acaso. Integradas no que se convencionou chamar currículo oculto, são raramente objeto de ensino estruturado, avaliação rigorosa ou reconhecimento formal. O problema não é apenas pedagógico — é estrutural. A falta de intencionalidade nesta área alimenta desigualdades e acentua o desfasamento entre a formação e as exigências do mundo profissional.
Há quem defenda que a expressão soft skills deve permanecer, sublinhando o seu caráter relacional e a sua importância no bom funcionamento das organizações. É um argumento legítimo. Mas a linguagem nunca é neutra. O que se chama soft tende a ser percebido como acessório — e, por isso, relegado. Esta ambiguidade semântica contribui para que estas competências continuem a ser tratadas como atributos pessoais, inatos ou laterais, em vez de capacidades exigentes, passíveis de desenvolvimento, ensino e avaliação.
Enquanto persistirem nesse limbo conceptual — desejadas, mas não formalmente integradas —, continuarão ausentes dos planos de estudo, invisíveis nos critérios de avaliação e subvalorizadas nos espaços de decisão. E uma educação que marginaliza o essencial compromete o seu próprio propósito.
Mais do que uma mudança de nome, o que está em causa é uma mudança de paradigma. Ensinar estas competências exige estrutura, continuidade e uma visão curricular que não dissocie conhecimento técnico de maturidade humana. Exige também sensibilidade social: ignorar este desafio é penalizar os estudantes que, por não dominarem os códigos relacionais implícitos, veem a sua progressão travada, mesmo quando demonstram excelência técnica. A justiça curricular passa também por aqui.
Formar para a cidadania e para a vida profissional exige mais do que transmitir conteúdos. Implica cultivar pensamento, consciência, comunicação e cooperação. As competências humanas não são periféricas. São o que torna o conhecimento inteligível, útil e verdadeiramente transformador.
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