O que temos a aprender com a excelência no futebol
Portugal pode competir nas indústrias mais exigentes do mundo quando forma e recruta bem, quando investe com critério e deixa os melhores criarem.
Esta semana, escrevo ainda com a eliminação da seleção nacional frente a Espanha em pano de fundo. No íntimo, admito, apetecia-me falar dos erros do selecionador, das responsabilidades da federação e de tudo aquilo que, depois de uma derrota, o país se apressa a discutir. Mas não venho acrescentar mais uma voz ao ruído. Há comentadores muito mais conhecedores e indicados para esse exercício.
Contudo, hoje quero mesmo falar sobre desporto e sobre excelência. Historicamente, somos dos melhores à escala global em várias modalidades: futsal, futebol de praia ou hóquei em patins. Sem desmerecer o mérito destas conquistas, ajuda o facto de serem desportos sem tradição na maior parte do globo. Mas a questão é que não ficamos por aqui. O sucesso retumbante no futebol é absolutamente improvável. Somos 11 milhões. À escala global, somos um país de média dimensão. O futebol, em contraste, é o maior entretenimento do mundo e uma das maiores indústrias globais.
Nos últimos 65 anos, vencemos quatro Ligas dos Campeões (ou Taças dos Campeões Europeus) e duas Ligas Europa (ou Taça UEFA), vencemos um Europeu e duas Ligas das Nações. Ao nível individual, três jogadores venceram, no total, sete Bolas de Ouro e outros três atingiram um pódio. Tanto sucesso não faz sentido, não é razoável. O futebol é jogado em praticamente todo o mundo. Qual é a razão do êxito?
Seja por investimento público em infraestruturas, seja pela concentração clubística que permitiu que ganhássemos escala, seja pelo ambiente cultural que se espelha nas nossas infâncias e nas escolas, tornámos isto possível. Temos uma rede ímpar de captação de talento, por onde praticamente todos os jovens passam. O potencial encontrado é, assim, canalizado por estruturas científicas e especializadas para o seu desenvolvimento. Aqui, a qualidade e capilaridade da formação são essenciais para transformar o talento em rendimento e resultados.
Fomos capazes, nesta indústria, de montar uma cadeia de valor bem oleada, com reduzido desperdício e onde somos capazes de competir em rendimento absoluto com as maiores potências globais. Alguns leitores poderão pensar que estarei a menosprezar elementos culturais, mas tenho um contra-argumento.
Se até temos alguma cultura de ciclismo de estrada com Joaquim Agostinho, José Azevedo, Rui Costa ou, mais recentemente, João Almeida, é indiscutível que essa tradição não existe no ciclismo de pista. São, por isso, indissociáveis as incríveis vitórias de Iúri Leitão do investimento infraestrutural no Centro de Alto Rendimento de Sangalhos. Da mesma forma, quando se aplicam noutros desportos princípios de recrutamento similares aos do futebol, também se obtêm resultados e, aqui, veja-se o caso do andebol. Nestes casos, a cultura nasce a partir destes sucessos.
Que quero dizer com isto tudo? Que não há razões para derrotismos. A nossa dimensão não deve ser impedimento para nada. O desporto de alta competição é a prova viva de que com boa formação, com liberdade de ação dos agentes, bons enquadramentos legais e com investimentos bem pensados, mesmo nas indústrias mais densas e complexas podemos ser competitivos.
Porque é que não aplicamos estes princípios ao resto da nossa economia? A escola deve estar no centro, com o conhecimento mais atual como base. É preciso dar liberdade aos agentes económicos para investirem, para abraçarem o risco, porque, num ambiente competitivo, é a única maneira de singrar. Infelizmente, em Portugal, nada disto é possível. Continuamos, segundo a Tax Foundation, o 3º país da OCDE fiscalmente menos competitivo para as empresas. Não há milagres.
Muitas vezes, ouvimos discursos que menorizam a importância do futebol. Às vezes, com razão. Mas perderíamos menos tempo a irritar-nos com o seu protagonismo se tentássemos perceber por que razão funciona melhor do que quase tudo o resto. O futebol português é a prova de que Portugal pode competir nas indústrias mais exigentes do mundo quando forma e recruta bem, quando investe com critério e deixa os melhores criarem.
Se exigíssemos à economia metade do que exigimos a um selecionador nacional, talvez o país estivesse noutro campeonato. Em última análise, o triste é aceitarmos, enquanto país, uma mediocridade que nunca perdoaríamos dentro de campo.
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