O retorno económico do espaço estará na saúde?
A verdadeira corrida espacial do século XXI poderá não ser para Marte, mas para liderar as tecnologias que transformarão a saúde na Terra.
Quando pensamos em exploração espacial, vêm-nos à memória foguetões, astronautas, cosmonautas e as imagens das missões Apollo dos anos 60, com Neil Armstrong e o seu famoso “small step” na Lua. Mas ao analisar o impacto económico dessas missões, o maior retorno não terá sido a chegada à Lua, mas o “giant leap” tecnológico que a tornou possível. Na verdade, o programa Apollo funcionou como um motor de inovação, transformando setores inteiros da economia. Tecnologias desenvolvidas para chegar à Lua, como, por exemplo, avanços na miniaturização de sistemas informáticos, ajudaram a criar as bases para os smartphones atuais e para inúmeras aplicações que continuam a gerar produtividade e valor económico na Terra.
Nas últimas décadas, a Estação Espacial Internacional (ISS) tornou-se um dos principais laboratórios para estudar os efeitos do espaço sobre os organismos vivos. A bordo da ISS, os astronautas passam grande parte do seu tempo a executar experiências científicas que nos permitem estudar, por exemplo, como organismos se adaptam à microgravidade ou à radiação. Esta atividade científica é importante para suportar a vida em missões longas, como a ida a Marte, mas o retorno com maior impacto para a sociedade e para a economia poderá estar num melhor entendimento de como envelhecemos ou de como podemos acelerar a recuperação após traumatismos musculares, por exemplo. Em microgravidade, observamos perda acelerada de massa muscular e óssea, alterações imunológicas e mudanças metabólicas semelhantes às observadas durante o envelhecimento. O espaço torna-se, assim, uma condição experimental única para estudar processos biológicos de forma acelerada e gerar conhecimento aplicável à saúde humana, não só para astronautas, mas também para pessoas na Terra.
Neste ponto, a biotecnologia no espaço tem semelhanças com a Fórmula 1. É cara e difícil, e o maior valor para as construtoras está na aceleração da inovação que depois chega à indústria automóvel, e nunca apenas nas vitórias em pista.
A questão não é quando Portugal terá astronautas. A questão é se Portugal conseguirá transformar a economia espacial numa plataforma de inovação para a saúde, a biotecnologia e a economia do conhecimento. Tal como o maior legado do programa Apollo não foi a Lua, o maior retorno dos investimentos espaciais das próximas décadas poderá não estar na órbita terrestre.
Nesta analogia, fazer ciência no espaço, com as restrições e condições que daí advêm, permite-nos desenvolver tecnologia, processos e materiais que depois podem ser aplicados à saúde humana em contexto mais alargado. Um exemplo são as tecnologias de saúde remota: para acompanhar astronautas em órbita, foram desenvolvidos sistemas de telemedicina, monitorização contínua, suporte remoto à decisão clínica e produção local de equipamentos por meio de impressão 3D. Muitas destas soluções têm hoje aplicações diretas em zonas remotas ou no acompanhamento de doentes crónicos.
Na última década, Portugal tem reforçado a sua posição na exploração espacial europeia, com mais investimento nos programas da Agência Espacial Europeia (ESA) e desenvolvimento de capacidades científicas, tecnológicas e industriais próprias, impulsionadas pela Agência Espacial Portuguesa. O resultado é um ecossistema nacional que já inclui infraestruturas para missões espaciais, estudos análogos e investigação biomédica essencial para a exploração espacial.
Um exemplo concreto: desde 2025, chegam ao Gulbenkian Institute for Molecular Medicine (GIMM) amostras biológicas recolhidas em missões da ESA e em estudos análogos na Terra, para estudo no recém-instalado ESA Biobank. A este esforço junta-se o Centro de Estudos de Medicina Aeroespacial (CEMA) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), que forma investigadores em medicina espacial, fisiologia humana e investigação clínica. É este ecossistema que o Science and Space Symposium – Biomedical Research Beyond Earth, em Lisboa, se propõe discutir.
A questão não é quando Portugal terá astronautas. A questão é se Portugal conseguirá transformar a economia espacial numa plataforma de inovação para a saúde, a biotecnologia e a economia do conhecimento. Tal como o maior legado do programa Apollo não foi a Lua, o maior retorno dos investimentos espaciais das próximas décadas poderá não estar na órbita terrestre. Poderá estar em novos medicamentos, em melhores sistemas de saúde e em tecnologias capazes de melhorar a qualidade de vida de milhões de pessoas.
Os mercados ligados à longevidade, saúde digital, monitorização remota e medicina de precisão são também mercados capazes de gerar empresas, propriedade intelectual e emprego altamente qualificado, fatores decisivos para a competitividade das economias do conhecimento, e estas são precisamente áreas em que a ciência espacial já toca e para as quais continuará a ser um motor de inovação.
Se assim for, a exploração espacial deixará de ser apenas um instrumento científico ou de prestígio nacional. Passará a ser uma estratégia de competitividade económica, e a verdadeira corrida espacial do século XXI poderá não ser para Marte, mas para liderar as tecnologias que transformarão a saúde na Terra.
O Science and Space Symposium, organizado pelo GIMM, GIMM Care, FMUL e Agência Espacial Portuguesa, realiza-se a 21 e 22 de outubro, em Lisboa. Pode inscrever-se aqui.
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