O reverso do negócio do futebol

Não podemos continuar a ter uma Liga Profissional, onde o Benfica, o Sporting e o FC Porto chegam a concentrar, sozinhos, perto de 75% a 80% do total absoluto de espectadores.

O diagnóstico do futebol profissional em Portugal há muito que deixou de ser puramente desportivo para se tornar um caso grave de insolvência económica latente. Sob a capa dos sucessos esporádicos além-fronteiras e da inesgotável capacidade de exportar talento, esconde-se um ecossistema financeiramente anémico, bipolar e profundamente insustentável. A realidade que enfrentamos neste encerramento de época não faz mais do que expor as feridas abertas de um modelo de negócio completamente esgotado, onde os clubes da chamada “classe média” caminham perigosamente na corda bamba da sobrevivência, enquanto o topo se reconfigura sob novas e exigentes regras de gestão por forma a terem alguma competitividade na esfera internacional.

É imperativo, antes de mais, felicitar o regresso do campeão. O título conquistado pelo FC Porto é o triunfo de uma visão que demonstra a qualidade e a urgência de uma gestão integrada nos eixos económico, financeiro e desportivo. Não foi um caminho linear. Depois de um primeiro ano de mandato manifestamente difícil e eivado de erros naturais de transição, André Villas-Boas percebeu a tempo que o romantismo corporativo e o papel de “bem-comportado” não ganha campeonatos em Portugal. O presidente dos azuis e brancos mudou a agulha, ajustou a estratégia e assumiu o comando do clube com o pragmatismo, o pulsar de bancada e o estilo acutilante que outrora caracterizaram Pinto da Costa. Villas-Boas percebeu que, para salvar o clube da asfixia financeira herdada, precisava do motor desportivo a carburar no máximo, provando que o rigor contabilístico e a ambição competitiva não são conceitos mutuamente exclusivos, mas sim umbilicalmente ligados. O FC Porto campeão é hoje o exemplo de que a regeneração é possível, desde que haja coragem para romper com os vícios do passado.

Contudo, este oásis de sucesso portista contrasta violentamente com o deserto em redor. Os exemplos recentes que pontuam a nossa Liga são o sintoma evidente de uma doença estrutural profunda que nenhuma vitória em campo consegue camuflar. Veja-se o caso do Estrela da Amadora, forçado a recorrer a um Processo Especial de Revitalização (PER), batendo à porta dos credores para garantir um balão de oxigénio que evite a exclusão imediata das competições profissionais através de perdões de dívida agressivos (perda de cerca de 90% do passivo). Mas desengane-se quem pensa que a asfixia se cinge aos emblemas de menor dimensão ou de contextos periféricos.

A norte, o Vitória Sport Clube, apesar de conseguir apresentar resultados líquidos positivos à boleia de prestações europeias e de vendas extraordinárias de ativos, convive com a dura realidade de um capital próprio severamente negativo, na casa dos 24 milhões de euros. É a definição clássica e técnica de uma situação de falência, totalmente mascarada por uma dependência absoluta, crónica e perigosa das mais-valias do mercado de transferências. Retire-se o carrossel financeiro das vendas de jogadores e o que resta em Guimarães é um défice operacional recorrente de quase 9 milhões de euros. Se isto acontece a um histórico com a massa associativa do Vitória, o peso institucional e a força comercial do Vitória, o que sobra para o resto de uma Liga que joga perante bancadas vazias e sobrevive de adiantamentos de receitas e operações ruinosas de “factoring”?

O pecado original deste cenário de penúria assenta na assimetria pornográfica dos direitos televisivos. Portugal continua a ser uma aberrante e incompreensível exceção no panorama europeu ao permitir a negociação individual dos contratos audiovisuais. Esta teimosia perpétua o rácio de desigualdade mais acentuado do continente, onde os três “grandes” absorvem a esmagadora fatia do bolo e deixam apenas migalhas para os restantes competidores legitimarem a farsa de um campeonato equilibrado. O processo de centralização dos direitos, imposto por lei, surge como a última tábua de salvação da indústria, mas avança sob um clima de enorme tensão e resistência. O debate atual na Liga Portugal já coloca cenários extremos em cima da mesa, como a possibilidade de o próprio organismo assumir o papel de operador e lançar a “Liga TV”, caso o leilão a investidores internacionais falhe em atingir as metas planeadas. Há um medo latente instalado nos clubes do topo, cientes de que uma distribuição mais equitativa lhes retirará fundos preciosos no imediato. Diria que lhes falta a visão de estadistas e verdadeiros cuidados do valor do negócio para perceber que uma liga previsível e com figurantes falidos destrói o valor de mercado de todo o produto a médio/longo prazo.

Para reinventar este modelo, não precisamos de inventar a roda, basta olhar para o “benchmark” europeu que funciona. A Premier League inglesa construiu o seu império global com base numa distribuição centralizada ferozmente equitativa, onde o último classificado recebe uma verba que lhe garante competitividade e dignidade desportiva. Em Espanha, a LaLiga transformou-se radicalmente ao centralizar os direitos e, acima de tudo, ao implementar o sistema de “Controle Económico”: um teto salarial preventivo que impede os clubes de inscreverem atletas se violarem os limites baseados nas suas receitas operacionais reais, e não em promessas de vendas futuras.

Em Portugal, a estratégia de salvação tem de passar obrigatoriamente por replicar estes pilares: uma centralização televisiva com uma forte componente solidária e um controlo financeiro prévio e rigoroso (não permitindo, por exemplo, qualquer divida à AT ou Segurança Social), e uma estreita articulação com o regulador bancário do ponto de vista de monitorização dos fluxos financeiros, através de contas “escrow”, para os clubes em sistema de vigilância financeira. Por último, é também urgente pôr fim à opacidade das estruturas de propriedade de muitas SADs (quem é o seu último beneficiário efetivo?) e implementar um sistema de auditorias externas por forma a se detetar a falência quando o doente já está na morgue.

O futebol português já não consegue disfarçar a sua miséria económica com o brilho das suas estrelas de exportação ou com a saudável exceção de um FC Porto que soube reinventar-se a tempo. Continuar a empurrar o problema com a barriga, permitindo que os clubes sobrevivam à base de expedientes jurídicos, perdões fiscais e equilíbrios acrobáticos de tesouraria, é assinar a certidão de óbito da nossa competitividade externa a médio prazo.

Não podemos continuar a ter uma Liga Profissional, onde, de acordo com os relatórios e anuários oficiais da Liga Portugal e da EY, o Benfica, o Sporting e o FC Porto chegam a concentrar, sozinhos, perto de 75% a 80% do total absoluto de espectadores que entram nos estádios portugueses ao longo de uma temporada inteira da Primeira Liga. Ou a Liga e os grandes clubes assumem o custo imediato de uma reforma solidária e estrutural que salve a “classe média”, ou o campeonato nacional transformar-se-á, a muito breve trecho, num deserto desprovido de interesse comercial e reputacional, onde gigantes financeiramente exaustos jogam contra fantasmas insolventes num espetáculo decadente que o mercado internacional simplesmente deixará de comprar.

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

O reverso do negócio do futebol

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião