O risco de protegermos demasiado o nosso dinheiro
Nem todas as poupanças devem ser tratadas da mesma forma. O que protege o dinheiro de que podemos precisar amanhã pode limitar aquele de que só precisaremos mais tarde na vida.
Há dinheiro que existe para crescer e há dinheiro que existe para nos deixar dormir descansados. O problema começa quando esperamos o mesmo dos dois.
Quando pensamos em investir, a rentabilidade tende a ocupar grande parte da nossa atenção. Comparamos taxas, procuramos alternativas e tentamos encontrar a aplicação que oferece melhores perspectivas. É natural que assim seja. Afinal, se decidimos não gastar hoje uma parte do nosso rendimento, esperamos que esse dinheiro tenha mais valor no futuro.
Só que nem todo o dinheiro que poupamos tem a mesma função. Uma parte pode ser necessária daqui a poucos meses, enquanto outra talvez só venha a ser utilizada dentro de 10 ou 20 vinte anos. Tratar estas duas poupanças da mesma forma significa ignorar uma das variáveis mais importantes de qualquer decisão de investimento, que é o tempo.
Num fundo de emergência, por exemplo, a rentabilidade não é o mais importante. Esse dinheiro existe para nos dar tempo e liberdade quando alguma coisa corre mal. Quando surge uma despesa inesperada ou uma quebra de rendimento, ter uma reserva disponível permite enfrentar o problema sem que a preocupação financeira se junte imediatamente àquilo que já correu mal.
Nesse momento, pouco importa saber se teria sido possível obter mais um ou dois pontos percentuais de rentabilidade. O que interessa é que o dinheiro esteja lá, possa ser utilizado imediatamente e não tenha perdido uma parte significativa do seu valor precisamente quando precisamos dele.
O risco não pode ser avaliado apenas pela possibilidade de o preço de um investimento cair. Também existe o risco de o dinheiro não crescer o suficiente para cumprir o objetivo para o qual foi poupado.
Procurar rentabilidade adicional num fundo de emergência pode, por isso, significar assumir um risco que não precisamos correr. A sua função não é enriquecer-nos, mas evitar que um imprevisto nos obrigue a recorrer ao crédito, a vender outros investimentos numa altura desfavorável ou a tomar decisões financeiras pressionados pela necessidade. Porém, com as poupanças de longo prazo, é frequente cair-se no extremo oposto.
Dinheiro que sabemos não ser necessário durante muitos anos permanece em depósitos ou aplicações de muito baixo risco porque qualquer possibilidade de perda, mesmo que temporária, provoca desconforto. O saldo mantém-se estável e essa estabilidade transmite uma sensação de segurança. Contudo, aquilo que parece seguro quando olhamos para o extracto bancário pode ser bastante menos seguro quando pensamos no que esse dinheiro permitirá comprar no futuro.
A inflação torna esta diferença particularmente importante. Ao contrário de uma queda nos mercados, ela não aparece no extrato bancário como uma perda. Ninguém vê desaparecer 2% ou 3% da sua conta todos os anos. O número pode até continuar a aumentar e, ainda assim, o poder de compra desse dinheiro estar a diminuir. É uma perda silenciosa e, talvez por isso, muito mais fácil de aceitar.
A procura de segurança pode, assim, tornar-se contraditória. Ao evitar qualquer possibilidade de perda no curto prazo, podemos estar a aceitar uma perda de poder de compra no longo prazo. Uma é visível e provoca desconforto. A outra acontece lentamente, quase sem darmos por ela.
O dinheiro para uma emergência deve estar preparado para nos proteger quando alguma coisa corre mal. O dinheiro destinado ao futuro precisa de ter oportunidade para crescer durante o tempo que lhe pudermos dar.
Naturalmente, isto não significa que todo o dinheiro de longo prazo deva ser colocado em ativos de maior risco. A capacidade para suportar perdas, a situação financeira de cada pessoa e os seus objetivos continuam a ser determinantes. O que significa é que o risco não pode ser avaliado apenas pela possibilidade de o preço de um investimento cair. Também existe o risco de o dinheiro não crescer o suficiente para cumprir o objetivo para o qual foi poupado.
É esta diferença que explica uma aparente contradição. Numa poupança que pode ser necessária amanhã, aceitar volatilidade em troca de maior rentabilidade pode ser imprudente. Se esse dinheiro só for necessário daqui a vinte anos, evitar permanentemente qualquer volatilidade pode ser igualmente inadequado. O mesmo investimento pode fazer sentido num caso e ser completamente desajustado no outro.
O tempo altera a forma como devemos olhar para o risco e, consequentemente, aquilo que podemos exigir ao dinheiro. Antes de perguntar qual é o melhor investimento, talvez exista então uma pergunta mais simples. Quando vou precisar deste dinheiro?
A resposta não nos diz exatamente onde investir, mas ajuda a perceber aquilo que devemos procurar. O dinheiro para uma emergência deve estar preparado para nos proteger quando alguma coisa corre mal. O dinheiro destinado ao futuro precisa de ter oportunidade para crescer durante o tempo que lhe pudermos dar.
Poupar é apenas o primeiro passo. Depois é preciso perceber o que esperamos desse dinheiro e investi-lo de acordo com esse objectivo. Afinal, tão importante como conseguir poupar é garantir que essa poupança nos será realmente útil quando chegar o momento de a utilizar.
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