O risco de seguir o consenso nos mercados
Num mercado obcecado com resultados imediatos, seguir o consenso tornou-se a opção mais segura. No entanto, essa segurança tem um custo que raramente é visível no momento em que se toma a decisão.
John Maynard Keynes afirmou um dia que, de acordo com a sabedoria popular, é melhor para a nossa reputação falhar de uma forma convencional do que ter sucesso de uma forma não convencional. A frase, tantas vezes citada, mantém uma actualidade quase desconfortável.
No mundo dos investimentos, continua-se a descrever com notável precisão os incentivos que moldam o comportamento de gestores, analistas e investidores, sobretudo num contexto em que o curto prazo se tornou o principal critério de avaliação.
Nas últimas décadas, os mercados financeiros evoluíram para um ambiente de monitorização permanente. A tecnologia permite acompanhar desempenhos em tempo real, comparar resultados de forma quase instantânea e reagir rapidamente a qualquer desvio face a um índice de referência. Esta transparência, em teoria positiva, trouxe consigo um efeito colateral relevante que passa pela compressão do horizonte temporal das decisões. É a partir daqui que o problema começa a tornar-se mais evidente.
A criação de valor no investimento em ações está frequentemente associada à capacidade de agir de forma contrária ao sentimento dominante do mercado.
Estratégias que, pela sua natureza, exigem tempo para produzir resultados são frequentemente abandonadas antes de terem oportunidade de demonstrar o seu valor. Mesmo investidores institucionais, que à partida deveriam privilegiar horizontes de longo prazo, acabam hoje condicionados por ciclos de avaliação demasiado curtos, pela pressão de resultados periódicos e pela comparação constante com entidades semelhantes. O resultado é uma procura quase permanente por desempenho imediato, muitas vezes em detrimento de uma análise mais profunda dos fundamentos.
Este enquadramento contrasta com uma das conclusões mais consistentes da literatura financeira. A criação de valor no investimento em ações está frequentemente associada à capacidade de agir de forma contrária ao sentimento dominante do mercado. Comprar ativos subavaliados em momentos de pessimismo generalizado, ou reduzir exposição quando o otimismo se torna excessivo, tem sido historicamente recompensador.
No entanto, este tipo de decisões raramente é confortável. Pelo contrário, tende a gerar períodos, por vezes prolongados, de resultados abaixo da média antes de se materializar. É precisamente nesse intervalo que muitas estratégias falham, não por estarem erradas, mas por não resistirem à pressão.
Um gestor que decide investir em setores penalizados ou em empresas temporariamente fora de moda sabe que, durante algum tempo, terá de explicar resultados fracos e justificar decisões impopulares. Num contexto em que a comparação com benchmarks e concorrentes é constante, essa divergência torna-se difícil de sustentar, mesmo quando a tese de investimento permanece válida.
Face a estes incentivos, a tentação de seguir o consenso é elevada. Alinhar com a narrativa dominante, replicar posições amplamente adotadas e ajustar rapidamente a carteira em função dos movimentos do mercado é, muitas vezes, a opção mais segura do ponto de vista profissional.
Alguns dos investidores mais bem-sucedidos da história partilham um traço comum que é a capacidade de ignorar o ruído de curto prazo e manter convicções fundamentadas ao longo do tempo.
Se os resultados forem negativos, a responsabilidade dilui-se. Se forem positivos, dificilmente serão excecionais, mas serão suficientes para manter a confiança dos clientes. O risco verdadeiro deixa de ser o de perder dinheiro e passa a ser o de se afastar demasiado do grupo.
Esta lógica tem implicações profundas para o funcionamento dos mercados. Quando um número significativo de participantes toma decisões semelhantes, não por convicção própria, mas por receio de divergir, a eficiência do mercado deteriora-se. Os preços afastam-se dos fundamentos, os ciclos tornam-se mais extremos e a volatilidade aumenta. Em vez de amortecer choques, o comportamento coletivo tende a amplificá-los.
Além disso, esta obsessão pelo curto prazo penaliza investimentos com retorno diferido, como a inovação, a transição energética ou a reestruturação empresarial. Projetos que exigem tempo e capital paciente tornam-se menos atrativos num ambiente em que qualquer desvio temporário é visto como um erro. A consequência é uma economia menos dinâmica e menos preparada para desafios estruturais.
Alterar este equilíbrio não é simples e não depende apenas dos gestores. Exige uma mudança cultural mais ampla. Investidores, conselhos de administração e estruturas de governação precisam de reconhecer que uma boa decisão não se mede apenas pelo resultado imediato, mas pela qualidade do processo e pela adequação ao horizonte temporal definido. Avaliar estratégias no final do período para o qual foram concebidas e não a meio do caminho, é essencial para permitir decisões verdadeiramente independentes.
Alguns dos investidores mais bem-sucedidos da história partilham um traço comum que é a capacidade de ignorar o ruído de curto prazo e manter convicções fundamentadas ao longo do tempo. Não porque acertem sempre, mas porque sabem que o erro faz parte do processo e que a consistência é mais importante do que a perfeição. Esta abordagem, no entanto, só é possível num contexto que aceite a divergência e tolere períodos de desconforto.
Assim, a reflexão de Keynes vai muito além dos mercados financeiros. Aplica-se à gestão empresarial, à política económica e a muitas outras áreas da sociedade. Enquanto continuarmos a privilegiar a aparência de segurança que o consenso oferece, em vez de valorizar a coragem de pensar de forma independente, continuaremos a tomar decisões defensivas.
Preservaremos reputações no curto prazo, mas será pouco provável que construamos valor duradouro continuando, assim, a falhar, ainda que de forma perfeitamente convencional.
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