O Telemóvel como Assistente Pessoal através da Inteligência Artificial?
A verdadeira revolução da IA ainda não chegou ao telemóvel. Vou começar a poupar dinheiro para comprar o telemóvel que disponibilizará esse serviço.
Nas férias de Verão, no Algarve, aproveito para me desforrar de algumas delícias que não sabem ao mesmo em Lisboa, tais como peixe grelhado na brasa, amêijoas, e outras coisas. O dono do restaurante que frequento habitualmente já conhece os meus gostos, pelo que basta chegar e responder afirmativamente à sua pergunta (depois de descrever o que tem, dentro das minhas preferências, faz-me uma sugestão). Enquanto cliente, este tipo de tratamento faz-me sentir muito bem, e é o que, regra geral, sonhamos poder ter em qualquer lugar que visitemos (o que, claramente, por agora, ainda não é possível).
A esmagadora maioria dos telemóveis atuais é do tipo smartphone (por oposição aos que tínhamos há umas décadas, com teclado físico), e permite-nos fazer coisas fantásticas, muito além do que é próprio de um telefone, que é simplesmente fazer uma chamada. Os telefones mais recentes já começam a ter instaladas versões incipientes de Inteligência Artificial (IA), mas estas permitem, basicamente, fazer no telemóvel o que fazemos num computador pessoal, como, por exemplo, processar texto ou imagens. A verdadeira revolução da IA ainda não chegou ao telemóvel.
Para que o telemóvel possa fazer o que faz o dono do restaurante que referi acima, é necessário desenvolver mais a tecnologia e fazer algumas escolhas no desenvolvimento não só dos telemóveis, mas também nas redes de comunicações móveis. Imaginemos a seguinte situação: saí do trabalho e entrei no carro para ir para casa. O carro, através da ligação ao meu telemóvel (por Apple CarPlay ou por Android Auto), informa-me que:
- o percurso vai ser via uma determinada loja (loja esta que já avisou que uma dada encomenda já chegou);
- devido a um acidente, não será pelo percurso mais direto;
- já não será necessário passar pelo supermercado pois a minha mulher fez as compras online;
- amanhã abre a bilheteira para um concerto de uma cantora que eu ouço muito no carro.
Esta situação, de um assistente pessoal implementado por IA no meu telemóvel, tem por detrás muito acesso e troca de informação entre o meu telemóvel (todas as apps que lá estão, com toda a informação que armazenam), o da minha mulher (em igualdade de circunstâncias), e ainda muita informação externa (por exemplo, de trânsito e de concertos). A sua implementação tem ainda desafios tecnológicos.
Atualmente, os nossos telemóveis têm uma capacidade de armazenamento e processamento de informação muito grandes, mas a implementação do assistente pessoal descrito acima implica que as apps do telemóvel registem muita informação durante a minha rotina diária, e que essa informação seja processada. Muito provavelmente, esse armazenamento e processamento de informação será parcialmente feito fora do telemóvel, para poupar a sua bateria; a situação atual de se colocar vídeos e fotos na cloud para não ocupar totalmente a memória do telemóvel terá de generalizar-se. É ainda preciso que o telemóvel possa aceder a toda a informação que temos, processá-la, trocá-la com informação externa, e gerar depois os resultados. De algum modo, isso já existe, com a Apple Siri e a Android Gemini.
As redes de comunicações móveis, nomeadamente a 5G na sua versão atual, já respondem parcialmente às necessidades através de velocidades de dados elevadas, de atrasos de transmissão baixos, e de qualidades de serviço elevadas para utilizadores que as paguem. No entanto, a implementação do assistente pessoal descrito acima envolve muito mais do que isso, pois vai ser necessário pesquisar muita informação e filtrar a que interessa, para além de processar alguma em tempo real, mudar a estrutura das redes e prepará-las para a “revolução da IA”, possibilitando a utilização de novos tipos de terminais (por exemplo, óculos multimédia inteligentes), entre outros aspetos. Além disso, as questões de segurança e privacidade ganham uma importância crescente relativamente aos nossos dados pessoais, que passam a ser disponibilizados às apps que os processam. Sem essa disponibilização, porém, não é possível implementar o assistente pessoal no telemóvel através da IA.
Pela minha parte, vou começar a poupar dinheiro para comprar o telemóvel que disponibiliza este serviço quando for comercializado. Vai libertar a minha memória e tempo para fazer coisas mais interessantes.
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