O tempo das decisões adiadas está a esgotar-se

  • Ana Trigo Morais
  • 18 Maio 2026

Mais do que um tema setorial, a reciclagem de embalagens é, hoje, um teste real à nossa economia e ao seu grau de maturidade e sustentabilidade a longo prazo.

Durante muito tempo, a reciclagem de embalagens foi entendida como algo positivo e importante, mas não central, e, nessa medida, esteve sempre associada à educação ambiental e ao comportamento individual, não sendo vista como um pilar económico ou estratégico. É uma leitura que tem vindo a mudar, mas não chegou ainda ao ponto em que deve estar.

Considero que a forma como gerimos, hoje, as nossas embalagens após o consumo é um dos testes mais exigentes à eficiência do nosso modelo económico. Um teste à capacidade de transformar investimento em resultados concretos e de assegurar que o valor das embalagens não se perde no fim do seu primeiro uso.

Numa economia cada vez mais pressionada, a não valorização de embalagens representa, de forma evidente, uma ineficiência económica, para além de um desafio ambiental. É neste contexto que a reciclagem deve ser entendida pelo que verdadeiramente é: uma infraestrutura.

Uma infraestrutura que permite transformar estes recursos em matéria-prima secundária, prolongando o seu valor no tempo. Uma infraestrutura que, tal como outras mais visíveis e mensuráveis, exige compromisso, planeamento e tomada de decisão para aplicar o investimento onde ele é realmente necessário.

Porém, esta infraestrutura tem uma particularidade que é fundamental: não funciona sem cada um de nós.

Ao contrário de outras infraestruturas, a reciclagem de embalagens começa em milhões de decisões individuais, todos os dias. Começa na forma como cada embalagem é separada e encaminhada para o respetivo ecoponto. É esta ação inicial que condiciona tudo o que vem a seguir. Sem essa participação, o sistema perde eficiência e o potencial de valorização destes resíduos reduz significativamente.

Portugal tem feito um caminho bastante relevante nesta área. É inegável. Soube construir um sistema que vai respondendo aos desafios da gestão das embalagens, que envolve empresas, entidades públicas e cidadãos, mas tem ainda muito potencial de evolução. Há 30 anos, quando se começou a reciclar embalagens em Portugal, coincidindo com o início da atividade da Sociedade Ponto Verde, num ano foram recolhidas dos ecopontos cerca de 1.500 toneladas de embalagens. Já em 2025, foram perto de 487.000 toneladas. É um crescimento muito significativo, mas, ainda assim, insuficiente face aos compromissos ambientais que Portugal enfrenta, o que revela um País extraordinariamente resiliente: conseguimos manter desempenhos globais tendencialmente positivos em várias áreas, mesmo quando não resolvemos problemas que são, na verdade, oportunidades claras de melhoria económica e de qualidade de vida. Destaco, contudo, que essa mesma resiliência já não é suficiente e não pode servir de justificação para a inação – o tempo das decisões adiadas está a esgotar-se.

Há muitos anos que sabemos o que é necessário fazer para termos um sistema verdadeiramente eficiente e uma economia circular: o que implementar, o que investir e o que mudar. E, ainda assim, temos vindo a adiar escolhas que são, de forma inequívoca, estruturais.

Em 2025, apesar do investimento histórico de 212M€ (+90M€ face ao ano anterior) no Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens (SIGRE), Portugal não atingiu a meta de recolha de 65% de todas as embalagens colocadas no mercado, entrando em incumprimento. Esta meta mantém-se em vigor até 2029 e, se o ritmo atual se mantiver, o País continuará abaixo dos objetivos definidos, enfrentando uma pressão ainda maior para cumprir as metas mais exigentes previstas para 2030.

E é aqui que se torna evidente um ponto crítico: sem aceleração da inovação, sem abrir à concorrência e fomentar a entrada de mais operadores de gestão de resíduos não será possível alterar este percurso.

No meu entender, a inovação não pode continuar a ser tratada como um elemento complementar ao sistema, tem de ser assumida como condição estrutural que incentiva a sua transformação. Inovação nos materiais, nos processos, na recolha, na triagem e na forma como (re)integramos estes resíduos na economia.

Por isso, mais do que garantir a recolha e o tratamento, é urgente reforçar a sua integração numa economia mais competitiva e concorrencial e acelerar a transição para modelos mais circulares. Isso implica agir em toda a cadeia: no design das embalagens, na inovação dos processos e, inevitavelmente, na forma como cada um de nós participa.

O Dia Mundial da Reciclagem, assinalado a 17 de maio, deve ser um momento para reconhecer este percurso, mas sobretudo para enquadrar o desafio que temos pela frente. Não estamos apenas a falar de reciclar mais. Estamos a falar de garantir que os recursos permanecem na economia, que mantêm o seu valor e que contribuem para um modelo mais eficiente, mais resiliente e mais eficaz.

A forma como respondemos a este desafio dirá muito sobre a nossa capacidade de adaptação. Mais do que um tema setorial, a reciclagem de embalagens é, hoje, um teste real à nossa economia e ao seu grau de maturidade e sustentabilidade a longo prazo.

  • Ana Trigo Morais
  • CEO da Sociedade Ponto Verde

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