O vazio político que enche o País
O Governo, a oposição e o Presidente, juntos na gestão do vazio. E o MAI guia o carro de um traficante em regime de comodato.
A política portuguesa é a gestão do vazio. Fala-se muito dos preceitos e preconceitos ideológicos, mas os partidos perderam a ideologia porque perderam as ideias. Para o Primeiro-Ministro, a ideologia é “transformar as ideias em soluções políticas concretas”. O Primeiro-Ministro fala numa “Universidade de Verão” que nada tem de Universidade e que muito tem sobre o Verão. As ideias ficam à porta porque o Verão faz-se de festas políticas e discursos em tom de comício. Este é o motivo pelo qual o país tem um Governo de gestão com gravata de reformista. O reformismo do Governo é durar até ao próximo ciclo político.
Para a oposição, a ideologia é o último refúgio dos desesperados. Sem qualquer ideia para além da sobrevivência política, a ideologia é entendida como o predomínio da “lógica de uma ideia” que se concretiza numa prática política em que a ideia cria uma realidade alternativa. Deste modo, a oposição está dispensada de conhecer os factos do país e os acontecimentos do mundo. Para manter a ilusão de que existe politicamente, a oposição centra-se na crítica das circunstâncias e ignora o conteúdo do país. O que interessa e importa politicamente é fazer prova de vida através da crítica a um Governo parado através de um carrossel infindável de discursos. O país político anda em círculos contínuos enquanto o país real fica imóvel no centro do carrossel como um palhaço gigante e colorido. A política portuguesa é o ano todo a política das feiras.
Se o país não se cansa de sublinhar que a última geração de portugueses é a mais qualificada que Portugal alguma vez teve, por que razão a classe política nacional é a mais desqualificada desde que o país tem memória democrática? Eis a descrição de um país bipolar em que a política é o único “elevador social” e onde não existe tempo para qualificações, mas sobra todo o tempo do mundo para o conhecimento das habilidades e dos estratagemas do grande jogo da glória política. A glória política implica a indigência do país.
Enquanto o líder do PS faz o circuito das feiras nacionais para evitar o pânico das eleições mais o orçamento mais a esquerda insubmissa do partido, o Primeiro-Ministro cobre os portugueses com homilias políticas mais próprias de uma concelhia no interior esquecido de Portugal. O líder do Executivo precisa de alguém que lhe escreva discursos políticos dignos de um Primeiro-Ministro para talvez inspirar os portugueses com a ilusão do vazio que os espera. O mínimo que se exige em termos de respeito democrático é que o vazio político tenha a dignidade do discurso de um estadista.
Muito se fala também da polarização da vida política nacional. A grande e escandalosa polarização que o país enfrenta é a polarização entre os “portugueses de cima” e os “portugueses de baixo”. Dito de outro modo, o país está dominado por uma “oligarquia” que se faz passar pela elite democrática enquanto a geração mais qualificada de portugueses se vê remetida para a mediania ínfima de uma classe média que pelos critérios europeus é pobre em toda a Europa. Esta polarização não é uma questão de igualdade, mas é sobretudo uma questão de competência. Será que existe lugar para uma nova elite democrática qualificada?
Sem ilusões ou dúvidas, o Chega não é nenhuma elite nem democrática nem qualificada nem alternativa. O Chega é o partido de um demagogo oportunista com tendências napoleónicas e uma ambição que desconhece a competência. Obcecado com as imprevidências do MAI, Ventura ameaça começar o ano político com a dissolução do ano político pela apresentação de uma Moção de Censura. Alguém imagina um Governo Chega alternativo? Não será tempo para se pensar na figura da Moção de Censura Construtiva?
Uma Comissão nomeada pelo Governo divulga um estudo sobre a Segurança Social que anuncia a falência do sistema e o Governo aproveita a ocasião para prometer que não vai fazer rigorosamente nada. E porque o Governo não vai fazer rigorosamente nada, o PS fica tranquilo e garante mais uma condição para a viabilização do orçamento. Este comportamento político tem a coragem da incompetência e a competência de quem não tem coragem.
O Presidente da República percorre o país com a pompa e a circunstância de quem nada tem para comunicar aos portugueses. O Presidente analisa obras de arte, preenche o interior com a comitiva da esperança, tudo consumado num discurso redundante entre o zero e o infinito. Há qualquer coisa de “é a primeira vez que cá venho desde a última vez que cá estive”. Entretanto, a Lei do Retorno e Asilo passa no Tribunal Constitucional.
E o MAI guia o carro de um traficante em regime de comodato.
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