O verdadeiro Mundial joga-se antes do apito inicial

  • Francisco Chaveiro Reis
  • 2 Junho 2026

Para as marcas, o verdadeiro Mundial não se joga apenas em campo, mas sobretudo na capacidade de entrar no imaginário coletivo antes de a bola começar a rolar.

“A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty” é um conto do Nobel Peter Handke, dos anos 1970, que resultou num filme de Wim Wenders. À beira do maior Mundial de sempre, podemos falar num paralelo: a embriaguez do adepto na hora do Mundial. E, claro, não falo numa embriaguez literal, mas antes num estado de onirismo que acompanha aqueles que, como eu, dão demasiada importância ao futebol, mesmo que sendo factual que esta atividade é muito mais do que um jogo. E este pode ser também um momento imperdível para comunicar.

Mas, por muito entusiasmado que esteja com o vibrante duelo Equador-Curaçau, de 21 de junho, em Kansas City, tenho de ser fiel às minhas ideias e escrever o que todos os fãs sabem: o melhor do Mundial é a antecipação. No antes, argentinos, brasileiros, espanhóis, ingleses, panamianos ou portugueses podem sonhar com a conquista da taça dourada. No durante, os sonhos começam a ser estilhaçados e, fatalmente, só uma equipa se torna campeã do mundo — pelo menos tem sido assim desde 1930.

Também as marcas conhecem bem o estado ébrio dos consumidores da bola, por muito que haja muita notoriedade e muito dinheiro para ganhar durante o torneio. No fim do ano passado, começaram a sair as novíssimas camisolas das seleções. E há dois modelos, o home e o away; e ainda há uma linha de treino, equipamentos de guarda-redes, uma coleção de lifestyle e uma série de lançamentos retro que remetem para os dias mais felizes das principais seleções. Também nos pés brilham novas botas, das mais variadas cores, com estreia marcada para pouco antes do torneio. Os melhores jogadores do mundo tornam-se poster boys de novas chuteiras e as marcas menos conhecidas recrutam novos talentos.

O pré-Mundial é igualmente altura da febre dos cromos, por muito que ela possa passar meses a fio a incubar. Assim que sai a nova caderneta Panini, fãs dos 8 aos 80, literalmente, dão nova vida aos quiosques, mesmo que as notícias mais pessimistas apontem para um investimento de mais de 2 mil euros para terminar a coleção. As cadeias de fast food e muitas marcas de alimentação também entram na onda, com brindes ou edições especiais, temáticas ou até em sintonia com outras marcas. Por exemplo, há cromos da coleção que só estarão disponíveis nas garrafas de Coca-Cola.

Este ano, a LEGO também entrou em jogo e lançou uma coleção que inclui uma réplica do troféu, uma bola e, depois de uma campanha global única, construções dedicadas a Cristiano Ronaldo, Messi ou Vini Jr.

No fundo, o Mundial vive desta estranha inversão emocional: quanto mais se aproxima da realidade, mais se afasta do sonho. O adepto começa por acreditar em tudo, depois aceita quase tudo e acaba por se resignar ao inevitável. Talvez seja por isso que, para as marcas, o verdadeiro Mundial não se joga apenas em campo, mas sobretudo na capacidade de entrar no imaginário coletivo antes de a bola começar a rolar.

  • Francisco Chaveiro Reis
  • partner e head of corporate communication na Guess What

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