Olhar para África com olhos de ver

  • João Vacas
  • 2 Março 2020

A última geração portuguesa ultramarina dispõe de um capital excecional, a nível humano e técnico que custa ver perdido, e a crise económica e financeira contribuiu para um retorno português a África.

A 9 de maio de 1950, Robert Schuman proferiu a famosa declaração a que o seu nome ficará associado. No meio do texto, globalmente orientado para a partilha de recursos e para a construção da paz por via do estabelecimento de uma comunidade económica europeia, surge esta frase «Com meios acrescidos, a Europa poderá prosseguir a realização de uma das suas funções essenciais: o desenvolvimento do continente africano.»

Naquela data apenas a Libéria, a África do Sul, o Egipto e a Etiópia eram independentes, estando o restante continente africano sob domínio europeu. Cinco anos depois dar-se-ia a Conferência de Bandung e o “vento da história” mudou, dando azo à vaga de independências que terminaria com as dos territórios do Ultramar português.

Hoje os tempos são outros. Mas a diferença não deve fazer esquecer o essencial: o desenvolvimento do continente africano pode continuar a ser entendido como uma função europeia. Não numa lógica de dominação direta ou indireta, mas de parceria justa e mutuamente benéfica num quadro internacional de relações cada vez mais multipolar.

Ao dirigir-se ao seu homólogo, Presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, na décima reunião anual entre Comissões UA-UE a ter lugar em Addis Abeba, Ursula von der Leyen considerou que os dois continentes eram “parceiros naturais”. Essa naturalidade, conferida por séculos de história comum, que as suas sombras não apagam, deveria servir-nos de base para um novo olhar europeu sobre África. Ninguém melhor do que Portugal para emprestar à Europa uma perspetiva africana.

Mesmo que o nosso país se acanhe ou não se prepare para contribuir para uma abordagem comum, a UE dá sinais de ter percebido a relevância do continente africano. Só isso explica o facto de a Comissão se ter feito representar em Addis Abeba por vinte Comissários, assinalando por esta via a importância institucional daquele encontro euro-africano. Há que saudar o gesto e esperar que frutifique. Este merece ser replicado pelos Estados-Membros que, abandonando a perspetiva meramente extratora ou rentista, terão de olhar para África de modo mais sério e consequente.

O nosso país poderá contribuir com experiência e conhecimento concretos para uma nova fase de um relacionamento que se deseja mais paritário e mais centrado nas pessoas. A última geração portuguesa ultramarina dispõe de um capital excecional, a nível humano e técnico que custa ver perdido, e a recente crise económica e financeira contribuiu involuntariamente para um retorno português a África, em particular a Angola. Perderemos uma mais-valia que nos distingue coletivamente e que nos torna atrativos no quadro europeu se não forem mobilizadas a tempo vontades e meios que consolidem a experiência e a potenciem em saber, e que motivem novas gerações de portugueses a descobrir – com e como as anteriores – África, em particular a lusófona.

O Acordo de Cotonu, que regeu as relações UE-África nos últimos vinte anos, cessará a sua vigência no fim de fevereiro, e as negociações ACP (África, Caraíbas e Pacífico) – UE têm-se revelado difíceis e lentas. Independentemente do texto final que resulte do processo, o novo acordo será diferente e terá de atender a um relacionamento que, neste momento, se revela mais complexo e que conhece a concorrência de outros atores globais, bem como à digitalização, aos fenómenos migratórios e às ameaças ambientais, cada vez mais prementes.

No próximo dia 4 de março, o Vice-Presidente Borrell irá apresentar a Comunicação “Rumo a uma estratégia abrangente com a África” que visa preparar a Cimeira UE-África prevista para o fim deste ano. Lamentando que a Cimeira não tenha lugar sob Presidência portuguesa, como seria normal e justo que acontecesse, espero, ainda assim, que Portugal possa assumir o papel liderante que lhe cabe neste processo de parceria. Ganhamos todos se assim for.

*João Vacas é consultor da Abreu Advogados.

  • João Vacas
  • Consultor dos assuntos europeus da Abreu Advogados

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

Olhar para África com olhos de ver

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião