Open Insurance: começar pela resiliência, combater o subseguro
Ana Teixeira advoga maior partilha de informação no setor segurador e quer o open insurance para responder ao subseguro, um mal novamente exposto em habitações nas recentes tempestades.
Já sabemos que as tempestades do início do ano deixaram um rasto de destruição em Portugal. Mas também deixaram números difíceis de ignorar.
- Quase 240 mil casas afetadas;
- Mais de 185 mil participações de sinistros;
- Prejuízos que deverão ultrapassar os mil milhões de euros.
Mas há um dado que importa destacar: mais de metade das casas afetadas não tinha seguro. Mesmo entre as que tinham, fica uma pergunta que vale a pena ser feita: quantas estavam realmente bem protegidas?
A criação de um fundo de catástrofes é necessária. Num contexto de fenómenos climáticos cada vez mais frequentes e severos, reforçar a capacidade de resposta do sistema é essencial.
Mas há um problema estrutural que estes eventos ajudam a tornar mais evidente e que continua por resolver: o subseguro no multirriscos habitação. Capitais desajustados, coberturas incompletas, apólices que existem, mas que não acompanham o risco real.
Isso significa que, quando o impacto chega, há duas realidades preocupantes — quem não tem seguro e quem tem, mas não o suficiente.
Os dados mais recentes da Associação Portuguesa de Seguradores mostram um setor segurador a responder. Mais de 300 milhões de euros já pagos em indemnizações, cerca de 95 mil processos encerrados ou com adiantamentos e quase metade dos prejuízos em habitação já compensados. É uma resposta relevante e necessária.
Mas também levanta uma questão inevitável: por que é que continuamos a descobrir o problema apenas depois do sinistro?
O impacto real não começa quando o vento destrói um telhado. Começa antes. Começa quando o capital seguro não reflete o custo de reconstrução, quando faltam coberturas críticas ou quando não existe visibilidade clara sobre o risco real. E isso não é um problema de produto. É um problema de partilha de informação.
Hoje, a informação necessária já existe, mas está fragmentada e com difícil acesso. Está nas seguradoras, nos mediadores e, muitas vezes, também nos próprios clientes. O que raramente acontece é essa informação encontrar-se, cruzar-se e traduzir-se em ação.
É nesse espaço que o subseguro se instala.
Se queremos combatê-lo de forma eficaz, é preciso garantir que os dados circulam ao longo de toda a cadeia de valor (entre seguradoras – quem avalia o risco – e mediadores – quem aconselha) e que chegam ao cliente de forma clara, simples e no momento certo.
A partilha de dados, suportada por tecnologia e articulada com os mediadores, assume aqui um papel crítico. Mas essa partilha não pode ser pontual, manual ou baseada em pedidos posteriores dos clientes.
Tem de acontecer em tempo real, através de APIs standardizadas, garantindo acesso consistente, seguro e autorizado à informação.
Dados simples, impacto imediato
Não é necessário começar por modelos complexos ou por dados controversos. Existe já um conjunto de informação essencial, presente nas apólices de multirriscos habitação, que pode fazer a diferença: capital seguro, coberturas contratadas e localização do risco, por exemplo, através do código postal.
Dados simples, mas que, quando estruturados e acessíveis – com consentimento do utilizador e em tempo real -, permitem identificar situações de subseguro, ajustar coberturas e corrigir desvios antes que se transformem em prejuízo. Permitem, sobretudo, passar de uma lógica reativa para uma lógica preventiva e educativa.
Importa dizer que este conceito não é novo. A partilha de informação entre seguradoras — por exemplo, ao nível da sinistralidade nos ramos automóvel e acidentes de trabalho — demonstra que o setor tem experiência, mecanismos e uma cultura de colaboração que pode ser alargada.
O próximo passo é expandir essa lógica a outras áreas, como o multirrisco habitação — de forma estruturada, integrada e, sobretudo, aberta com a mediação de seguros.
Open Insurance como consequência
Se olharmos para o modelo necessário – dados a circular, acesso em tempo real, interoperabilidade e consentimento do utilizador – estamos, na prática, a falar de open insurance. Mas não como ponto de partida. Como consequência.
Consequência de um setor que decide resolver um problema concreto: o desalinhamento entre risco e proteção. Quando esse objetivo é claro, a partilha de dados deixa de ser uma discussão conceptual e passa a ser uma necessidade operacional.
Grande parte da discussão sobre open insurance fica presa na complexidade; nos dados sensíveis, na legislação europeia ainda em preparação, nos investimentos necessários, na aversão à mudança.
Mas talvez o ponto de partida deva ser outro, que é oferecido pelo multirriscos habitação de forma clara: Dados relativamente simples, impacto direto nas famílias e uma urgência que os eventos recentes tornaram impossível de ignorar.
O trabalho já em curso a nível nacional, quer através de grupos de trabalho, quer na discussão em torno de um fundo de catástrofes, cria uma oportunidade concreta para avançar. E para integrar, desde já, uma lógica de partilha e circulação aberta de dados entre seguradoras e mediadores.
Neste contexto, deve incluir na sua agenda esta vertente de partilha e circulação de dados, criando as condições para que comece a ser desenhada e implementada de forma estruturada.
Agora é tempo de menos discussão sobre o conceito e mais ação sobre o essencial. É tempo de colocar os dados a circular, agora e de forma segura, para que os resultados surjam no curto prazo.
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