Os demónios de um investidor
Nos mercados, os maiores riscos raramente estão nos ativos, mas nas emoções que moldam cada decisão. É nesse campo invisível que se jogam, muitas vezes, os verdadeiros resultados de um investidor.
Charles Elis escreveu no seu livro “Winning the loser’s game” que o maior desafio de um investidor raramente é intelectual. É emocional. A partir dessa premissa, Elis identifica o orgulho, a ganância, o medo, a ansiedade e a exuberância como os cinco “demónios” que influenciam o investidor na sua tomada de decisão.
Nos mercados financeiros, onde interagem milhões de participantes, o comportamento agregado raramente é totalmente racional. Por isso se diz, com frequência, que o maior inimigo do investidor é ele próprio. Não por falta de informação, mas pela forma como reage a ela.
Um dos traços mais persistentes é a dificuldade em reconhecer o erro. O orgulho, sobretudo quando posto em causa, leva muitos investidores a adiar decisões que exigiriam lucidez.
Se nos momentos negativos o orgulho condiciona, nos ciclos de subida é a ganância que assume o controlo. O ambiente torna-se otimista, os retornos recentes ganham protagonismo e a análise fundamental perde peso.
Em vez de assumirem uma perda, preferem manter posições em queda, na expectativa de que o tempo resolva aquilo que a decisão inicial não resolveu. Na maioria dos casos, não resolve. Assim, o investidor vai acumulando ativos com pior desempenho que por permanecerem demasiado tempo em carteira vão somando perdas que poderiam ter sido limitadas.
Se nos momentos negativos o orgulho condiciona, nos ciclos de subida é a ganância que assume o controlo. O ambiente torna-se otimista, os retornos recentes ganham protagonismo e a análise fundamental perde peso. Instala-se a sensação de urgência, como se fosse necessário agir rapidamente para não ficar de fora. A ansiedade muda de forma, mas continua bem presente.
Quando o ciclo se inverte, o mesmo investidor passa a olhar para o mercado através de outra lente. O medo substitui o entusiasmo e o foco desloca-se quase exclusivamente para o risco de novas quedas. O valor intrínseco das empresas, que antes era ignorado por excesso de confiança, passa agora a ser desvalorizado por excesso de prudência.
Este padrão tem consequências previsíveis. Um investidor dominado pelo medo tende a refugiar-se em soluções de baixo risco aparente, privilegiando produtos com capital garantido ou reduzida volatilidade. A curto prazo, a decisão transmite conforto, mas a longo prazo, muitas vezes traduz-se numa erosão silenciosa do poder de compra, já que as rentabilidades obtidas dificilmente acompanham a taxa de inflação.
Conscientes desta limitação, alguns investidores tentam corrigir o comportamento, aumentando a exposição ao risco. No entanto, muitas vezes fazem-no nos momentos menos adequados. Compram quando o mercado já subiu e o sentimento é positivo e vendem quando a volatilidade regressa e o desconforto aumenta. Este ciclo onde se compra caro e vende barato explica, em grande medida, porque tantos investidores perdem dinheiro com os seus investimentos em bolsa.
Tal como no alpinismo, onde há mais acidentes nas descidas do que nas subidas, também nos mercados financeiros os momentos de correção são os mais exigentes.
Há ainda um outro tipo de investidores, que movidos pela ganância e euforia, procuram atalhos para alcançarem o sucesso nos seus investimentos e com isso a fortuna. Howard Marks no seu livro “The most important thing” sublinha que a ganância é talvez a emoção mais destrutiva no processo de investimento. Não porque seja evidente, mas porque frequentemente se disfarça de confiança.
À medida que os mercados sobem, essa confiança tende a transformar-se em excesso. Muitos investidores acreditam que, com a informação certa ou seguindo a pessoa certa, conseguem antecipar movimentos e acelerar resultados. No entanto, a história mostra o contrário.
No mundo dos investimentos, mais importante do que chegar ao topo rapidamente, é saber resistir nas descidas. Tal como no alpinismo, onde há mais acidentes nas descidas do que nas subidas, também nos mercados financeiros os momentos de correção são os mais exigentes.
Apesar de ser amplamente reconhecido que nenhum mercado sobe indefinidamente, muitos investidores comportam-se como se a tendência recente fosse permanente, esquecendo que as correções fazem parte do ciclo e podem, por vezes, ser abruptas. Nos mercados, é nos momentos de correção que se testam verdadeiramente as decisões tomadas em períodos de expansão.
Daí que, para alcançar resultados consistentes no longo prazo, seja mais relevante limitar perdas do que maximizar ganhos em fases de euforia. Daniel Kahneman, prémio Nobel de economia e um dos precursores da economia comportamental, demonstrou que a confiança excessiva é uma das distorções cognitivas mais prejudiciais, precisamente porque conduz a decisões desajustadas face à realidade.
A literacia financeira assume um papel central. Quanto melhor um investidor compreender o funcionamento dos mercados, os princípios de diversificação e o efeito da capitalização, menor é a probabilidade de ser arrastado por ciclos de euforia e de pânico.
É também em contextos de excesso de confiança que emerge a exuberância. Os retornos de curto prazo atraem investidores que, em circunstâncias normais, manteriam um horizonte temporal mais alargado, mas que levados pela dinâmica do mercado, passam também eles a ter horizontes de curto prazo.
Morgan Housel no seu livro “Psychology of money” realça que este processo se auto-alimenta uma vez que o sucesso de uns, atrai o dinheiro de muitos, alimentando dinâmicas que, não raras vezes, culminam em bolhas especulativas.
As chamadas “meme stocks”, que ganharam notoriedade em 2021, são disso um exemplo claro. Em muitos casos, os preços subiram sem uma justificação fundamental, sustentadas apenas numa convicção coletiva que se reforçava a si própria. Quando essa convicção se alterou, o ajustamento foi rápido e, para muitos, doloroso.
Importa ainda reconhecer um ponto essencial. As perdas não são apenas financeiras. São emocionais e de forma assimétrica. Richard Thaler demonstrou que a dor associada à perda é, em média, cerca de duas vezes superior ao prazer de ganhar. Esta diferença ajuda a compreender porque é que, sob pressão, tantas decisões se afastam da racionalidade.
Perante este enquadramento, a literacia financeira assume um papel central. Quanto melhor um investidor compreender o funcionamento dos mercados, os princípios de diversificação e o efeito da capitalização, menor é a probabilidade de ser arrastado por ciclos de euforia e de pânico. O conhecimento não elimina o risco, mas permite enquadrá-lo e geri-lo com maior disciplina.
Em última análise, investir com sucesso não depende apenas da seleção dos ativos. Depende, sobretudo, da capacidade de manter clareza num ambiente que frequentemente a testa. Num contexto de incerteza, o controlo emocional deixa de ser uma vantagem, para passar a ser uma condição essencial.
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