Para onde caminha a Europa na competitividade global no setor tecnológico?

  • Tomás Penaguião
  • 12 Dezembro 2025

A Europa só pode liderar a inovação tecnológica se tomar decisões corajosas: como tornar o mercado mais integrado, a regulação mais inteligente e o apoio mais sólido ao crescimento.

A Europa tem todas as condições para competir de igual para igual no setor tecnológico, mas continua a ter alguns desafios sistémicos por ultrapassar — é o que nos mostram os dados do relatório “State of European Tech 2025”. Este setor vale hoje 4 mil milhões de dólares, o equivalente a 15% do PIB, um salto notável face aos 4% registados em 2016. Estes números confirmam que a tecnologia é um dos principais motores da economia europeia e demonstram a capacidade para competir globalmente. No entanto, revelam também que ainda não estamos a transformar esse valor em liderança efetiva e que há trabalho por fazer.

O relatório indica que quase 70% dos fundadores consideram o ambiente regulatório europeu demasiado restritivo. Na prática, isto significa que continuamos a ter talento e inovação, mas os bloqueios tornam difícil criar e escalar negócios no território europeu com a velocidade necessária. A Europa precisa de normas que protejam sem paralisar, que incentivem a experimentação e que permitam que as empresas tecnológicas cresçam com ambição global.

Mais de 27.000 fundadores lançaram empresas a partir do continente europeu, numa era em que a aceleração tecnológica permite criar novos negócios mais rapidamente e com um custo menor do que no passado. O desafio está na escalabilidade dos negócios devido à fragmentação do mercado europeu, mas também devido ao acesso a capitais.

A Europa foi, em 2025, responsável por 27% de todas as startups criadas globalmente. Mais de 27.000 fundadores lançaram empresas a partir do continente europeu, numa era em que a aceleração tecnológica permite criar novos negócios mais rapidamente e com um custo menor do que no passado. O desafio está na escalabilidade dos negócios devido à fragmentação do mercado europeu, mas também devido ao acesso a capitais. Os Estados Unidos continuam a representar mais de dois terços do capital de risco investido a nível global, e ainda existe uma grande dependência deste mercado no financiamento de rondas mais avançadas.

Há, no entanto, sinais claros de avanço: o investimento em capital de risco na Europa apresenta uma tendência de crescimento este ano, com 33 mil milhões de euros investidos nos primeiros nove meses, em particular em áreas estratégicas como Deep Tech e Inteligência Artificial. Além disso, o número de investidores ativos no nosso continente quase duplicou na última década, o que confirma que estamos finalmente a canalizar recursos para as tecnologias que vão definir a próxima década.

Portugal segue uma tendência semelhante, combinando talento competitivo com vulnerabilidade estrutural. O estudo aponta para uma descida no investimento anual — de 250 milhões de dólares em 2024 para 230 milhões este ano — que não deve ser lido como retração definitiva, mas como sinal de um ecossistema ainda dependente de rondas de investimento externas e que precisa de consolidar mecanismos de crescimento. Temos ambição e capacidade técnica, mas continuamos frágeis no caminho entre o seed — se quisermos, “o início” dos processos — e a escala internacional.

O ecossistema europeu (e português) está num momento decisivo. Se conseguirmos transformar estes avanços — mais empreendedores, mais capital, maior foco em tecnologias estruturantes — em decisões políticas e económicas que reduzam barreiras, acelerem inovação e reforcem a competitividade.

Olhando para os dados, fica claro que o ecossistema europeu (e português) está num momento decisivo. Se conseguirmos transformar estes avanços — mais empreendedores, mais capital, maior foco em tecnologias estruturantes — em decisões políticas e económicas que reduzam barreiras, acelerem inovação e reforcem a competitividade, então 2026 pode marcar um ponto de viragem real. A Europa só pode liderar a inovação tecnológica se tomar decisões corajosas: como tornar o mercado mais integrado, a regulação mais inteligente e o apoio mais sólido ao crescimento.

Fechando numa nota positiva, de quem reúne todos os dias com empreendedores, posso afirmar categoricamente que nos últimos 10 anos nunca vi tanta densidade de talento, ambição e qualidade de startups. Empresas essas que um dia podem vir a competir a na esfera global.

  • Tomás Penaguião
  • Partner da Bynd Venture Capital

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