Para que serve o maior investimento do Estado em IA?

Ao servir de "cliente-âncora" da futura gigafábrica, o Estado reserva capacidade que terá de saber aplicar. Mas os critérios de acesso e a medição do retorno estão por definir.

O Governo comprometeu até 200 milhões de euros para adquirir capacidade de computação na futura gigafábrica de inteligência artificial (IA). É o maior compromisso financeiro do Estado português neste tipo de tecnologia. Mas importa saber quem utilizará essa capacidade, em que condições e com que objetivos.

Com quase oito meses de atraso face ao calendário inicial, a Comissão Europeia lançou, a 30 de julho, o concurso para instalar até sete gigafábricas de IA na União Europeia. Bruxelas espera mobilizar pelo menos 20 mil milhões de euros de investimento privado e até dez mil milhões de euros de fundos nacionais e europeus.

Portugal está na corrida desde a primeira hora. Sob a liderança de Gonçalo Regalado, o Banco Português de Fomento montou um amplo consórcio de empresas nacionais e estrangeiras que deverá ir a jogo até 12 de novembro. O país integra uma candidatura ibérica, articulada com Espanha, “de igual para igual”, que prevê componentes em Sines e Tarragona, além de localizações secundárias para redundância.

Para apoiar essa candidatura, o Executivo português comprometeu-se a disponibilizar até 200 milhões de euros, montante que será igualado por fundos europeus. A verba está condicionada à instalação de uma infraestrutura em território português.

Mas estes 200 milhões de euros não compram uma participação na gigafábrica. Na verdade, o Governo está a comprometer-se a adquirir antecipadamente uma quota da capacidade computacional da infraestrutura, servindo de “cliente-âncora”. Este modelo reduz o risco dos investidores privados e ajuda a viabilizar um empreendimento que custa milhares de milhões de euros a construir.

O concurso prevê pagamentos públicos periódicos por essa quota garantida de acesso. Não se trata, por isso, de pagar horas avulsas à medida que forem consumidas. O Estado compra antecipadamente a disponibilidade da capacidade, definindo depois como aplicar o que decidiu reservar.

Só que a capacidade computacional é um recurso perecível. Uma hora não utilizada não pode ser armazenada para o ano seguinte. Se não existir um mecanismo para utilizar ou reafetar esse recurso, o seu valor perde-se, como num avião que descola com lugares vazios.

O risco oposto também existe. A procura por computação avançada pode superar largamente a quota disponível. Nesse caso, o desafio passa a ser a distribuição de um recurso escasso, valioso e subsidiado pelos contribuintes. Quem terá prioridade? Uma startup que queira treinar um modelo? Uma grande empresa? Uma universidade? Ou um organismo público?

O Governo já identificou os destinatários genéricos: pequenas e médias empresas, startups, investigadores e Administração Pública. A Agenda Nacional de IA também prevê o reforço da capacidade nacional, o apoio a setores estratégicos e a redução da dependência de infraestruturas estrangeiras.

Mas não publicou estimativas quantificadas da procura. Também não são conhecidos os critérios de acesso, mecanismos para reafetar capacidade não utilizada ou os indicadores com que será avaliado o retorno deste investimento. São decisões que não podem ser adiadas até a infraestrutura começar a funcionar: os contratos deverão ser adjudicados no início de 2027 e as gigafábricas terão até 18 meses para iniciar operações.

Portugal não parte do zero. A Rede Nacional de Computação Avançada já distribui acesso ao supercomputador Deucalion através de concursos nacionais e europeus, programas para empresas e pedidos de acesso comercial. O programa InovIA, por exemplo, concede a startups e PME acesso simplificado a recursos do Deucalion, localizado em Guimarães, e do MareNostrum 5, em Barcelona, em que Portugal tem uma participação.

O país já dispõe, por isso, de mecanismos para distribuir capacidade computacional a uma escala menor. O que ainda não se conhece é se esses mecanismos serão usados ou adaptados à gigafábrica, e como responderão a um compromisso financeiro muito maior, que não poderá ficar circunscrito à comunidade académica e científica.

Os 200 milhões de euros equivalem a mais de metade dos cerca de 380 milhões que o Estado terá acordado pagar pelos 13,7% que vai adquirir da REN. A comparação mostra a escala de uma decisão que tem sido explicada, sobretudo, com conceitos genéricos de soberania, inovação, talento e competitividade.

Portugal tem razões legítimas para querer acesso a computação avançada. Esse acesso pode reduzir dependências externas, permitir o tratamento seguro de dados sensíveis e dar a empresas e investigadores nacionais recursos que dificilmente conseguiriam comprar sozinhos. Mas uma infraestrutura não constitui, por si só, uma política de IA. Sem medição de retornos, o maior investimento do Estado português nesta tecnologia compra apenas um lugar na corrida, sem a certeza de que o país sabe o que fará se lá chegar.

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