Parem de se espantar com o preço do cabaz. A inflação não é magia, é matemática

A inflação não é um monstro — é apenas a taxa a que a economia respira. E nós, por favor, deixemos de confundir respiração com febre.

Voltou o festival da ignorância económica. Sai um novo dado do INE ou do Eurostat e logo a comunicação social entra em histeria: “o cabaz alimentar continua a subir!”. Manchetes com exclamações, reportagens em supermercados e comentadores de bancada repetem, em tom de denúncia, o que qualquer aluno do 10.º ano de economia explicaria em dois minutos: uma redução da inflação não significa que os preços estejam a cair. É cansativo, é ridículo e, pior ainda, é enganador. O público português — que em larga medida não tem culpa, porque nunca lhe ensinaram o básico de estatística económica — é constantemente induzido em erro por maus jornalistas e maus comentadores. Muitos deles apresentam-se como “economistas” de televisão, mas parecem ter chumbado à cadeira de Macroeconomia I, onde se aprende que a inflação é uma taxa de variação, não um nível de preços.

Vale a pena recordar a aritmética simples que tanto confunde os cronistas do “cabaz alimentar”. Se um litro de azeite custava 5 euros em 2022 e passou a 5,50 euros em 2023, o preço subiu 10%. Se em 2024 passa a 5,61 euros, o preço voltou a subir, agora apenas 2%. Ou seja, o crescimento abrandou, mas o preço continua mais alto. Dizer que “a inflação caiu” significa apenas que os preços estão a crescer mais devagar — não que estão a descer. Confundir níveis com variações é como dizer “a temperatura subiu menos, logo está mais frio”. Não está. Apenas aqueceu mais devagar.

Mesmo assim, a cada divulgação de dados, os telejornais descobrem com ar de espanto que “os preços dos alimentos continuam a subir”, como se a inflação fosse um interruptor que se desliga. O absurdo atinge níveis cómicos: jornalistas entram em mercearias com tabelas e calculadoras, medindo variações de cêntimos como se tivessem descoberto uma conspiração económica global. O “cabaz alimentar” tornou-se o fetiche nacional da ignorância económica — cenário para indignação fácil, sem contexto, sem estatística e sem teoria.

Em economia, deflação — isto é, preços a cair — não é um prémio de boa gestão, é um sinal de crise. Historicamente, preços em queda surgem quando há colapso da procura, recessão ou falência generalizada. Quem duvida, que estude a Grande Depressão dos anos 30: os preços caíram e, com eles, o emprego, o investimento e o rendimento real. Pelo contrário, inflação moderada é precisamente o que os bancos centrais procuram — cerca de 2%. Não é capricho: um pequeno crescimento dos preços mantém a economia viva, permite ajustamentos salariais e incentiva o investimento.

A história económica está cheia de exemplos elucidativos. No Japão, a deflação das décadas de 1990 e 2000 paralisou o crescimento durante anos, num ciclo de estagnação conhecido como as “décadas perdidas”. Na Grécia, após a crise da dívida, a queda dos preços e dos salários destruiu o emprego e corroeu o investimento. No extremo oposto, as experiências de hiperinflação foram devastadoras: a Alemanha nos anos 1920, a Hungria em 1946 e, mais recentemente, a Venezuela, onde os preços deixaram de ter significado económico. A América Latina é talvez o caso mais instrutivo. Nas décadas de 1980 e 1990, a região viveu choques inflacionários extremos. A Argentina chegou a 3.000% em 1989; o Brasil superou os 2.000% antes do Plano Real; o Peru, a Bolívia e o Chile passaram por episódios semelhantes. O resultado foi o mesmo: rendimentos destruídos, fuga de capitais e colapso da confiança. Só com políticas de estabilização e bancos centrais independentes o crescimento regressou. Nada disto se compara à realidade portuguesa. Aqui, a inflação média situa-se entre 2% e 2,5% ao ano — precisamente o intervalo considerado saudável pelo BCE. Isso é normalidade económica, não crise. Não há descontrolo nem erosão generalizada do poder de compra: há apenas o ajustamento natural de preços numa economia em funcionamento.

Em Portugal, boa parte da comunicação social económica limita-se a recitar números como quem lê a meteorologia: não contextualiza, não explica, não pensa. Depois, espanta-se com a “falta de literacia financeira” dos cidadãos. Como pode haver literacia se os mediadores da informação são analfabetos em estatística? Não é o público que precisa de um curso intensivo de economia — são os jornalistas e os comentadores.

Logo, tanto a deflação como a hiperinflação são sintomas de economias doentes. Já preços a subir de forma moderada são sinal de vitalidade — a respiração natural de um organismo económico saudável. É a velha lição keynesiana: há uma relação previsível entre o nível de atividade económica, o desemprego e a inflação. Quando o produto (Y) cresce acima do seu potencial, o desemprego recua — é a lógica da Lei de Okun. Menos desemprego significa maior pressão salarial e, consequentemente, maior inflação (π), como descreve a Curva de Phillips. Não há mistério: mais atividade económica leva a mais procura, salários mais altos e preços em subida. O contrário — preços a cair — é o reflexo de uma economia paralisada, onde a procura desaparece e o produto encolhe. Em suma, não há magia: há macroeconomia básica.

A maioria da população não tem de dominar conceitos como primeiras diferenças ou níveis de preços reais. Não é obrigação do cidadão comum distinguir inflação corrente de inflação acumulada. Mas é obrigação de quem comunica economia não confundir o público.

Em Portugal, boa parte da comunicação social económica limita-se a recitar números como quem lê a meteorologia: não contextualiza, não explica, não pensa. Depois, espanta-se com a “falta de literacia financeira” dos cidadãos. Como pode haver literacia se os mediadores da informação são analfabetos em estatística? Não é o público que precisa de um curso intensivo de economia — são os jornalistas e os comentadores. É inaceitável que ainda se publique, em 2025, títulos como “Inflação cai mas preços sobem”. Isso não é um paradoxo, é apenas o funcionamento normal da aritmética: o que cai é a taxa de variação, não o valor absoluto. A inflação é cumulativa: uma taxa de 5% hoje incide sobre o nível anterior, não o anula. Os preços não “voltam ao que eram”, porque a economia não é uma fita de vídeo que se rebobina. O que importa é estabilizar a taxa de crescimento, não congelar o tempo. É isso que os bancos centrais fazem — controlam a velocidade, não o sentido.

Se há algo urgente em Portugal, não é “combater os preços”, mas elevar a literacia económica. As pessoas precisam de entender como funcionam as grandezas macroeconómicas, o papel da inflação e o impacto das políticas monetárias. E, acima de tudo, precisam de deixar de ser tratadas como crianças assustadas por uma manchete mal escrita.

O preço do cabaz alimentar sobe? Claro que sobe — e continuará a subir enquanto a inflação for positiva, o que, esperemos, será por muitos e bons anos. O contrário seria recessão. A redução da inflação não é uma cura milagrosa, é apenas uma travagem gradual. É normal, saudável e desejável. Só não é compreendido por quem confunde economia com moralismo e estatística com opinião. Portanto, um apelo direto aos jornalistas e comentadores que insistem em dramatizar o inevitável: estudem um pouco. Leiam um manual. Ou, pelo menos, deixem de fingir espanto perante a evidência matemática. A inflação não é um monstro — é apenas a taxa a que a economia respira. E nós, por favor, deixemos de confundir respiração com febre.

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