Planeta em modo diferente: Um manual ainda em redação
Agir como? No meio construído, por exemplo, com coberturas refletoras e telhados verdes contra o calor, pavimentos permeáveis que absorvem a água, equipamentos críticos (quadros elétricos, servidores,
Em Leiria, as tempestades deste inverno arrancaram painéis solares dos telhados como folhas de papel e deixaram milhares de habitações sem eletricidade, água e telecomunicações. A depressão Kristin, que entrou no continente no final de janeiro de 2026 com rajadas acima de 200 km/h, foi apenas o rosto mais visível do “comboio de tempestades” que varreu Portugal: mais de 5,3 mil milhões de euros em danos e pelo menos 18 mortos. Os fenómenos climáticos extremos bateram-nos à porta e, diz a ciência, vão aumentar em frequência e intensidade. Já não é em países distantes: a silenciosa onda de calor de 2022 foi associada a mais de 11 000 mortes em Espanha, e as cheias de 2021 na Alemanha vitimaram 134 pessoas e custaram à região mais de 40 mil milhões de euros.
Os fenómenos climáticos extremos são a face mais tangível do aquecimento global. Sentimo-lo na pele num só fim de semana. E há aqui uma inércia incómoda: mesmo que as emissões parassem hoje, o CO2 já acumulado manteria o planeta aquecido durante séculos. É o compromisso de aquecimento. Como as emissões de GEE continuam a subir (segundo o Programa das Nações Unidas para o Ambiente, +2,3% em 2024, um máximo histórico), resta-nos também adaptar.
A adaptação foi sempre o “parente pobre” das negociações climáticas, mas começa a emergir como tema cada vez mais urgente: segundo a Agência Europeia do Ambiente, os FCE custaram à UE mais de 738 mil milhões de euros entre 1980 e 2023, e poderão retirar até 7% ao PIB europeu até ao fim do século. Mas a dimensão dos prejuízos não é o único motor: ao contrário da mitigação, na adaptação a relação entre ação e resultado é direta e visível – reforça-se o telhado e ele aguenta a próxima tempestade; protege-se a subestação e o bairro não fica às escuras. O benefício é concreto e quase imediato.
Agir como? No meio construído, por exemplo, com coberturas refletoras e telhados verdes contra o calor, pavimentos permeáveis que absorvem a água, equipamentos críticos (quadros elétricos, servidores, subestações) elevados acima da cota de cheia e redundância nas rotas logísticas. Mas adaptar é também trabalhar com a natureza: renaturalizar rios e ribeiras e reflorestar promove a capacidade do solo para absorver chuvas torrenciais. O exemplo de referência é o programa holandês Room for the River. Depois das cheias de 1993 e 1995, o país mudou a sua abordagem: em vez de erguer diques mais altos, recuou-os e rebaixou leitos de cheia em cerca de 30 locais. O sistema permitiu inundar de forma controlada, além de que se ganhou natureza e espaço público.
Alguns instrumentos políticos e financeiros já empurram nesse sentido. O climate proofing é hoje condição de elegibilidade para infraestruturas cofinanciadas por fundos da UE. As seguradoras puxam pela via do preço: só 25% das perdas climáticas na Europa estão cobertas (o chamado “protection gap”), ou seja, à medida que o risco sobe, os prémios sobem e quem previne é recompensado com prémios mais baixos.
Contudo, ainda falta caminho, e não só técnico. Em termos de governance, o registo reativo prevalece sobre o proativo, nem sempre é claro quem coordena a adaptação; em termos financeiros, o investimento é difícil de justificar porque o seu retorno mede-se em perdas evitadas, que são difíceis de colocar num orçamento, ao contrário da poupança (mais) imediata da mitigação. Em ambos os casos, o obstáculo é o mesmo: adaptar obriga a pensar a médio e longo prazo, e não a reboque do curto prazo.
A mitigação combate um inimigo invisível, os GEE, mas pode trazer ganhos financeiros quase imediatos. A adaptação enfrenta um inimigo palpável, que nos arranca os painéis do telhado, com ganhos diferidos, visíveis só quando a catástrofe chega e o dique aguenta. Mas são faces da mesma moeda: as alterações climáticas. E nenhuma se resolve sozinha: mitigar trava o problema na raiz, adaptar permite-nos suportar o que é cada vez mais inevitável. Para empresas, autarquias e governos, a pergunta já não é se vale a pena agir, mas quanto custa esperar. A decisão é hoje, não no rescaldo da próxima tempestade. Porque o custo de esperar não se paga agora, paga-se no que perdermos daqui a 25 anos.
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