Porque a Inteligência Artificial não substitui uma boa história, antes a amplifica!

  • Tony Gonçalves
  • 14 Maio 2026

Num mundo onde tudo pode ser criado, o que realmente importa continua a ser raro: uma ideia clara. Uma perspetiva única.

Estive recentemente no Runway AI Conference, em Nova Iorque, e tive a oportunidade de verificar que aquilo que ontem era experimental hoje já é exponencial. As ferramentas encontram-se a evoluir em tempo real, por exemplo, ao nível da produção em vídeo. Barreiras técnicas, económicas e criativas que definiram a indústria audiovisual durante anos estão a desaparecer a uma velocidade que a maioria das estruturas organizacionais não consegue acompanhar.

Mas, se ignorar esta disrupção não é opção, correr atrás dela sem critério também não é resposta. Verifica-se, atualmente, um grande debate em torno da sua capacidade, o que se consegue gerar, quão rápido, a que custo, a que escala. Ora, e se é verdade que estes temas são relevantes e importam, é também garantido que não irão determinar quem vai sair por cima no final deste processo.

Como recordou Kathleen Kennedy, num dos momentos mais lúcidos da conferência, ao refletir sobre o longo trabalho com George Lucas, a tecnologia deve servir a história, não substituí-la. Esta era a sua filosofia nos anos 70 e 80 do século passado, e continua a ser atual… embora difícil de manter. É que, quando as ferramentas digitais se tornam tão poderosas, há a tendência para começar a mascará-las de produto final. E não o são!

Aliás, este princípio de centralidade da história e do criador nunca foi tão relevante. E deve ser devidamente veiculado, para desconstruir quaisquer veleidades que visem confundir capacidade com valor. Porque o que estamos prestes a enfrentar não é escassez. É excesso. A IA vai democratizar a produção. Vai aumentar drasticamente o conteúdo, e com isso reduzir o custo de criação e facilitar o acesso. Mas também implicará um efeito colateral inevitável, a saturação, fruto da invasão do mercado com produto mediano, à escala.

Ao longo das últimas décadas, em vários períodos verificou-se que a distribuição cresceu mais depressa do que as histórias. E o resultado foi sempre o mesmo, ruído. O que permite concluir que volume não cria significado, velocidade não cria relevância nem acesso cria impacto. Pelo contrário.

É também por isso que se torna cada vez mais importante aproveitar a tecnologia para expandir o storytelling, não para o substituir. Ou seja, o criador tem de continuar no centro de todo o processo. O seu trabalho e pensamento continuam a ser o foco.

Por tudo isto, devemos estar cientes que, à medida que é mais fácil produzir conteúdo, torna-se mais relevante o valor consignado à clareza e perspetiva que o autor quer transmitir. O fator diferenciador entre aqueles que prosperam e aqueles que se tornam irrelevantes não estará no acesso à tecnologia, o qual será universal. Num mundo onde tudo pode ser criado, o que realmente importa continua a ser raro: uma ideia clara. Uma perspetiva única. Uma história que valha a pena contar. Porque, no final, a IA não decide o que importa. Apenas amplifica aquilo que já existe.

  • Tony Gonçalves
  • CEO do Evrose Group

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